Estilo de vida e crise econômica*

Por Eduardo Gomes de Melo**
Recentemente, o sociólogo Anthony Giddens declarou em uma entrevista ao caderno MAIS!, Folha de São Paulo, que a crise atual do sistema capitalista mostra que, além da própria economia, precisa-se rever questões socioculturais. Seria necessário pôr em debate o que ele chamou de nosso “Estilo de Vida”. 
Na entrevista dada pelo intelectual britânico, não houve um aprofundamento na definição do conceito. Porém, este termo já foi usado por outros autores, inclusive aqui no Brasil, e mesmo alguns conceitos semelhantes surgiram nas últimas décadas para definirem um modo de viver que a humanidade assumiu no mundo contemporâneo. 
Ele trata basicamente de um tipo de vida que, mesmo nós que vivemos em regiões do interior do Brasil, se não a assumimos, almejamos a intenção de assumi-lo. 
Dentre os princípios deste estilo de vida, temos a centralização do individualismo: um pensar em si sem ver a condição frente ao meio social, sem ter consciência do momento histórico em que se vive. O crescente consumismo: o consumo sempre existiu no mundo capitalista, porém nas últimas décadas chega-se a exageradas proporções, tanto quantitativas (consome-se muito) quanto qualitativas (e tudo o que é possível). O trabalho e a necessidade de se manter nele se tornam ator central da existência dos indivíduos, limitando outras ações na vida humana, além da Política que deixou de fazer parte do cotidiano dos cidadãos através dos noticiários que trazem os escândalos de nossos representantes. 
Poder-se-iam acrescentar aqui outros fatores que marcam este estilo de vida, porém centralizei aquilo que parece importante para este momento. Isso porque, quando se analisa a crise presente na economia mundial, já como disse Giddens, parece importantíssimo questionar: deve-se ainda viver deste modo? Não seria necessário pensar mais a existência em função de relações que são sociais e não somente individuais? Até que ponto os meios social e natural poderão suportar os desejos de consumo, lembrando aqui as novas gerações que ainda estão para assumir o papel? Ligado a esse excesso de consumo e também ao viver humano, por que não é permitido repensar o tempo atual, as ocupações, o trabalho? 
Ademais, por que não se dialogam todos estas questões na vida coletiva, numa ação política que sempre esteve na condição humana de vida, mas que se negligencia em vários momentos da história? 
É claro, não é fácil construir propostas que evoquem novas alternativas. Para muitos, essa possibilidade se desfez no caminhar da modernidade. Para outros, falta saber o uso das condições para criar alternativas. O que se vê é que a realidade da crise econômica fez profundas questões à sociedade. Portanto, a cada um em particular.
*Texto publicado originalmente em: BAZZANELLA, Sandro Luiz et al. Crônicas do Desenvolvimento. 1ª ed. DIOESC: Florianopoles, 2012.
** Doutorando em Sociologia pela UFPR.
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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