Repensando a meritocracia com Xadrez e Democracia

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Por Luis Filipe Andrade¹
A luta pela liberdade sem dúvida
inaugura a sociedade moderna. Sua definição filosófica é de trato
difícil, portanto, para fins desse pequeno texto, me concentrarei
apenas numa breve reflexão que diz respeito ao quem vem a ser
liberdade na sociedade contemporânea dita democrática. 

Façamos a seguinte indagação: em
um jogo de xadrez, os dois enxadristas são livres? Talvez o
senso-comum diria que não, afinal eles estão restritos a um
conjunto de peças, uma miríade limitada de movimentos e uma meta
definida, o cheque-mate, que também deve atender a um critério
específico.
Porém, podemos dizer, sem sombra de
dúvidas, que os enxadristas são livres no sentido da igualdade de
condições. Afinal, os dois competidores estão sob as mesmas regras
e detém quantidades equivalentes de peças e jogadas. A única coisa
que determinará a vitória ou a derrota é o empenho, a estratégia
e a sagacidade de cada competidor. O perdedor sempre reconhecerá
como justa a derrota dadas as condições de igualdade de condições
de jogo. Em vários casos, entre dois enxadristas realmente
habilidosos, o empate é algo muito mais comum do que a vitória,
segundo alguns colegas enxadristas com os quais converso.
Agora imagine a seguinte situação:
suponhamos que em um determinado campeonato sejam permitidas
“soluções de mercado” para o jogo. Uma dessas soluções
poderia ser comprar 30 peões a mais, ou limitar as jogadas do
oponente a uma área menor do tabuleiro. Ou quem sabe comprar duas
rainhas, ou mais torres, dependendo da estratégia do comprador. O
oponente em desvantagem ainda tem a possibilidade de vencer. Porém,
ele terá que se esforçar muito mais que o oponente endinheirado. A
vitória do jogador endinheirado não será considerada uma vitória
justa, uma vez que os recursos do jogador abastado tornaram o jogo
desequilibrado e desigual.
Essa metáfora ilustra muito bem a
sociedade democrática contemporânea. Bobbio (1986) define a
democracia como “um conjunto de regras de procedimento para a
formação de decisões coletivas, em que está prevista e facilitada
a participação mais ampla possível dos interessados” (p. 12) O
consenso, o âmago da democracia, é construído pelos cidadãos, que
devem ter igual oportunidade de participação nas decisões
coletivas. O dinheiro nesse caso, como na metáfora do xadrez,
diferentemente do que as pessoas podem pensar, não muda as regras da
democracia. O que a elite econômica faz, de uma forma poderosa e
injusta, é tornar esse acesso extremamente desigual, controlando o
acesso ao poder, às oportunidades de melhores empregos, melhores
cursos de qualificação e maior visibilidade nos meios de
comunicação para expressar sua opinião através do dinheiro. O
trabalhador pobre nesse caso é o enxadrista que dispõe apenas das
regras mas não tem o dinheiro pra comprar mais peças dentro do
jogo.

Acredito que seja evidente que a
relação promíscua entre o poder e o dinheiro seja a maior ameaça
para a democracia. Porém, a democracia ainda continua sendo uma
idéia de vigor pela radicalidade de sua proposta de organização
das regras sociais como algo que deve partir da coletividade e para a
coletividade. Portanto, a democracia não é uma panaceia usada para
arrefecer os ânimos da sociedade contra a desigualdade promovida
pelos enxadristas abastados. A luta pela igualdade de oportunidades
contra o poder segregador do dinheiro é a visão radical da
democracia, rumo à construção da verdadeira liberdade.
¹ Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí Campus Floriano, Graduado em Licenciatura em Língua inglesa e Mestre em Letras.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da
democracia: uma defesa das regras do jogo.
Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1986. Disponível em:
<http://www.libertarianismo.org/livros/nbofdd.pdf>. Acessado
em: 02 abril 2014. 
 
ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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