Apologia da história ou o ofício de historiador (Resenha)

Resenha do livro: Apologia da história ou o ofício de historiador

BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador Rio de Janeiro. Ed.  Zahar/2001.

Por Edinei Pereira*

 

A vida e obra de Marc Bloch, está contida e atrelada a um período obscuro da história da humanidade, assim como, também, seu pensamento combativo está transportado para o campo da pesquisa e de seus escritos, alguns elaborados de forma adversa e, concomitantemente, necessária, sobretudo para as gerações posteriores.

 Marc Bloch é oriundo da França, país que estivera envolvido nas grandes guerras, e, por conseguinte sofrera suas investidas, assim como muitos da Europa e do mundo. Mas o fato é que dado o grau de pensamento de esquerda ao qual Bloch estava associado, sua posição fora de combater e  repelir a ascensão do nazismo, por isso fora perseguido, preso e torturado pela gestapo, e a consequência disso foi seu fuzilamento em 1944. Porém, antes, este participara diretamente dos confrontos em campo de guerra. E devido a seu afastamento do campo de batalha, num primeiro momento fora se dedicar ao liceu, prática que gostava, e, num segundo momento, já na segunda grande guerra, esteve em posse de um desejo de escrever, mesmo que sem o suporte de livros, apenas com o auxílio do que estava em sua memória. Prova da grande experiência no campo prático ao qual esteve submerso ao longo de sua vida. Além disso, outro fato importante, talvez um dos mais essenciais, é a coautoria da Revista dos Annales, de 1929, um marco fundador da historiografia. Dada a importância que dera ao sentido de se estudar e pesquisar, de uma forma a problematizar a história, e não apenas encara-la como algo já resolvido. Uma vez que mostrou outra forma dessa ciência, que não mais poderia se limitar aos campos econômicos e políticos, ou seja, teria que ser interdisciplinar, sem perder a história. Na sociologia teve Emile Durkheim como sua grande referência.

Dentre as várias obras escrita pelo autor, encontra-se Apologia da História ou o Ofício de Historiador, pensada e desenvolvida pouco antes de sua morte em 1944, e caracterizado como sendo uma obra inacabada, e só publicado postumamente em 1949 pelo seu companheiro de luta e estudos, Lucien Febvre.

Dessa forma, na capa do referido livro, é nos evidenciado a aproximação que o autor teve com os estudos e pesquisas medievais, mesmo sabendo que não foi o mesmo que o confeccionou. E nos prefácios de Jacques Le Goff e apresentação de Lilia Moritz Schwarcz, o leito adentra num universo onde a perseverança do autor está na ordem do dia, sobretudo quando sua vida é contextualizada a um período sombrio, mas sem nunca deixar sua marca esplendida no campo da ciência que serve até hoje como inspiração para os que se aventura na pesquisa científica, um tratado de metodologia. Por isso tamanha reverberação de seu pensamento num campo político que se faz necessário para as gerações que não apenas se contentam em confinar suas pesquisas em apenas uma linha referencial, e guardar seus estudos e conhecimentos em gavetas, gabinetes e bibliotecas empoeiradas. Este, sim, expõe na sua vida teórica, as experiências práticas, de luta.

O livro faz jus àquela famosa frase do autor que diz: “saber falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes”. Entendendo com isto que, fazer uma pesquisa é, principalmente produzir conhecimento, e este deverá estar ao alcance e compreensão de todos, não apenas a um grupo restrito de intelectuais. Além da característica mencionada, que o leitor irá comprovar ao fazer a leitura, a obra é composta por um prefácio e introdução que já desperta o desejo em prosseguir nas páginas posteriores. Então, a obra é composta por 159 páginas, subdivididos em cinco capítulos, sendo que o último apresenta-se de forma inacabada, mas que em nenhum momento perde o grau de importância na sua plena forma lúcida, pois a proposta dos capítulos anteriores também converge para este último, os homens na história. Um livro que trata de questões metodológicas, algumas orientações mais que necessárias para os que se arriscam nesse campo de extremos desafios.

Na introdução, Bloch discorre sobre o que lhe motivou a escrever o livro, que foi a pergunta feita pelo seu filho:  ‘Papai, então me explica para que serve a história’.  Partindo desse questionamento, o despertar para uma explicação tão lúcida e impactante, no sentido da magnitude da qual a obra se tornou. E mais adiante, expõe o fato de que a ciência será incompleta se não tiver algo a fornecer como melhora, a alterar de tal forma uma dada realidade que as ajude a encontrar um caminho para uma vida melhor. E a resposta se deu em formato de problematização, ou seja, o autor aconselha que os que pretendem atuar nesse âmbito, exercendo o ofício de historiador, tem que ser um escavador, um ogro, um ser incomodado com os termos e versões que atravessam o tempo. Entendamos nas linha que seguem.  

O primeiro capítulo, intitulado A história, os homens  e o tempo, Bloch discorre sobre a relação que essas palavras tem, e expõe o quão antiga é, sem deixar colocar sua concepção sobre um período em que os sociólogos da escola de Durkheim relegaram essa palavra, colocaram em um calabouço. Lembrando que no campo da sociologia, fora um leitor e estudioso da Sociologia de Emile Durkheim. Mais adiante o autor frisa que, embora a verdadeira necessidade e objetivo do livro seja abordar questões metodológicas, faz-se vital uma abordagem, mesmo que de forma breve, sobre a origem da palavra, alguns autores, e até mesmo conceitos presentes no decorrer da obra.

Assim como, relaciona a história ao homem, o tempo, como visualizam seus ídolos, e o que entende por passado e presente. Ao escrutar essas formas relacionadas á sua pesquisa, afirma que  “…o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça.” Ou seja, a história, para Bloch, é por sua vez, a história dos homens no tempo, e não apenas de fatos estanques e impermeáveis. Haja vista sua grande preocupação com a interdisciplinaridade ao qual os pesquisadores deveriam estar entrelaçados. Ou seja, a compreensão da sociedade passava por temas e conteúdos de várias outras ciências, o que deixa a entender que seu pensamento ainda converge para a proposta da fase da Escola do Annales, onde a crítica estava exatamente, entre outras, para a história da economia e política, que elencavam assuntos dos grandes homens e militares. E, sim, como o próprio Bloch irá citar ao longo da obra, uma história dos homens no tempo. 

E como lhe é característicos também, a certa altura da obra no referido capítulo, questiona: O que é, com efeito, o presente? Aqui podemos relacionar a problematização proposta pelo autor, uma vez que o mesmo pode estar querendo trazer para o campo dos estudos alguns pontos pertinentes ao momento da pesquisa, e a quebra do paradigma daquilo que o passado não pode embasa-la, sem primeiramente interpretarmos o presente, e colocando este último como sendo importante também, pois não podemos, segundo o que é reforçado, nos atermos apenas ao passado sem nos envolver e compreender o presente, se assim fizermos, ainda frisa, estaremos num campo vazia e perigoso.

O segundo capítulo aborda A observação histórica, e que está subdividido em três questões que explicam tal ideia levantada pelo autor no que concerne aos métodos de pesquisa. Como as características gerais da observação histórica, que aqui discorre acerca de registros, apresentados em vieses distintos, tal qual uma ossada, um papel ou outro de aspecto diferente. Mas que devem ser estudados e transportados para o campo do estudo de forma a elucidar seus caracteres sem perder seus traços fundantes. Pois é através dos fatos sociais encontrados nesses vestígios que se pode questionar, e, por conseguinte absorver mais profundamente os costumes, traços culturais, e até mesmo as ferramentas usadas por povos de diferentes lugares.

E sobre Os testemunhos, Bloch parte de um trecho sobre os tempos ainda de Heródoto, mas, também, de forma didática perpassa por períodos e espaços temporais distintos a fim de comprovar a verdadeira necessidade de questionar os fatos. E cita que:

  Pois os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos interroga-los (…) Em outros termos, toda investigação histórica supõe, desde seus primeiros passos , que a busca tenha uma direção (…) (BLOCH, Marc. p. 79).

Com isto, para o autor não basta ter os documentos para a realização da pesquisa, é fundamental que o pesquisador saiba fazê-los falar, interrogando-os de forma a extrair pontos que não se encontram tão evidentes num determinado fato.  Dessa forma o leitor irá perceber que a problematização proposta pela Escola dos Annales, é a todo momento transportada para os escritos de Marc Bloch, de forma a fundamentar o presente trabalho.

O capítulo seguinte denominado de A crítica, abordam pontos que o autor acredita serem necessários para que o estudioso não acredite em tudo que lhe for oferecido como fonte, pois a mesma pode não ser verdadeira, levando-o a cair em descredito, caso o mesmo a use em seus trabalhos. Por este motivo é que Marc Bloch envolve o leitor num viés onde acaba por despertar, ou pelo menos chama atenção para a criticidade. Crítica que exemplifica com algumas passagens no decorrer do referido capítulo, principalmente quando põe em xeque, sobretudo os documentos do período medieval (Cabe ressaltar que fora um especialista no período medieval), assim  como levanta a possibilidade da pesquisa, ou o tempo envolvido para tal, se transforme em uma peça sem qualquer utilidade, como o mesmo descreve, “…Não existe pior desperdício do que o da erudição quando gira no vazio…”. (p.93, par. 2°).

Faz críticas severas aos copiadores, pois estes se encontram em vias do fracasso, uma similitude bem próxima ao vazio intelectual daqueles que não falam a verdade. Dessa forma, todos aqueles que mentem estarão caminhando para o insucesso na profissão a qual escolheu.

Seu penúltimo capítulo intitulado Análise histórica, começa problematizando os seguintes termos: Julgar ou compreender? Dessa forma elabora, já no início, de forma explicativa, dois exemplos que se inter-relacionam até certo ponto, e se divergem a partir de outro panorama. Isso no sentido de entender e julgar os fatos. E ao se referir ao julgamento do juiz, questiona: “…pronuncia essa sentença segundo a lei?”.

E continua, quando afirma que os historiadores, por uma experiência semelhante, ou seja, foi o “encarregado de distribuir o elogio ou o vitupério aos heróis mortos.” (p.125).  E quer trazer à tona com essa passagem, como funciona a parcialidade e a imparcialidade, que não se limita apenas ao exemplo exposto, mas também se estende para toda e qualquer forma de análise científica.

Seguindo nesse capítulo, o autor discorre sobre outra temática que é Da diversidade dos fatos humanos à unidade da consciência. Onde  procura evidenciar com fatos históricos e pesquisas, a multiplicidades que o historiador irá encontrar pela frente. Além de fazer criticas as formas fragmentadas de conhecimento. Usa em suas explanações, autores como Fustel de Coulanges, François  Simiand, dentre outros. E quando trata das Nomenclaturas, tem o cuidado de elencar as varias possibilidades que possam alterar os nomes, como, por exemplo, cita o capitalismo, capital, em momentos diversos da historiografia, e, por conseguinte, para os grupos diferentes. Seguindo no raciocínio, profere que “O homem fala unicamente com palavras” (p.138), diferentemente de outras áreas do conhecimento que podem fazer uso de símbolos, e tantas outras maneiras de comunicabilidade.

Seu último capítulo, curto, porém, tão essencial quanto os anteriores, seguirá com a mesma magnitude, quando levará o leitor a seguir compreendendo o tratado metodológico, que percorreu todo o livro. Então inicia fazendo uma crítica ao positivismo:

 “ Em vão o positivismo pretendeu eliminar da ciência a ideia de causa. Querendo ou não, todo físico, todo biólogo pensa através  de ‘por quê?’ e de ‘ porque’. Os historiadores não podem escapar a essa lei comum do espírito” (p.155.par.1°).

Com isso, subentende-se que a ciência não pode tirar dos fatos ocorridos, seja ele qual for, sua causas, assim como também não podem excluir, como já fora mencionado pelo autor no começo do livro, os homens na história. Bloch, reforça no final deste capítulo que as causas são buscadas, uma mensagem para que o historiador não se acomode diante dos fatos que lhe são visíveis, este deverá ir além, e a pesquisa é o caminho.

Algumas Considerações

As observações que se pretende aqui para finalizar a presente análise, pode muito bem partir de uma citação feita pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz, na apresentação da referida obra, que diz o seguinte: “Dizem que os bons pensadores sobrevivem às suas obras; nesse caso o provérbio é literalmente verdadeiro”. (p.12). Tal afirmação se encaixa perfeitamente para a vida e obra de Marc Bloch, assim como, também, a mesma reforça o grau de importância dos escritos desse combatente autor, e o que deixara como legado para as gerações que se arriscam na aventura no campo da pesquisa. Além disso, seu o pensamento é transportado para suas obras, e está intrinsecamente associado á sua trajetória. Portanto, um homem que problematizava seu tempo.

Apologia da história foi escrita em um momento de extremo desafio e adversidade por Bloch, e, por conseguinte, se coloca para a vida dos pesquisadores como algo vital. Uma leitura mais que obrigatória, sobretudo devido a seu caráter contestatório, crítico e despertador.

Dessa forma, faz se urgente nos dias atuais, a leitura e compreensão desse livro, que embora esteja quase sempre associado às questões metodológicas, também podem ser visto como uma denúncia aos desmandos do nazismo, e   que se tornou fruto e resultado de um período turbulento, mas que se dirigiu para os que pretende seguir no campo da pesquisa historiográfica (ofício de historiador), e desafiar, agora, as lacunas  insistentemente alimentada pela vulnerabilidade de uma sistema que busca fragmentar o saber na sua completude. Ler Apologia da História, é, também, problematizar o passado levando em consideração o que acontece no presente.

Nota:

*Graduado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André-SP, e Especialista em História, Sociedade e Cultura pela PUC-SP. E professor de Sociologia da rede estadual de São Paulo.

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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