O capitalismo é selvagem?

A Gazeta online de 11/03/2009

Muitos acreditam que a ciência descobriu que a “lei da selva” é a lei do mais forte, a lei da competição e da luta pela sobrevivência. Mais ainda, pensam que Darwin descobriu essa lei a partir de rigorosos estudos da natureza. Os incomensuráveis avanços na pesquisa científica no último século têm revelado, contudo, que a verdadeira “lei da selva” é a integração holística dos sistemas vivos e que todos os organismos supostamente em competição constituem, na verdade, partes interagentes de um sistema complexo em uma perfeita sintonia que já dura cerca de 4 bilhões de anos.

Quem estuda a ciência de maneira rigorosa sabe que a estabilidade de uma célula e de organismos multicelulares depende da integração sistêmica de suas partes. O mesmo acontece com o ecossistema e o ciclo vital que sustenta o planeta, do qual fazem parte inclusive os minerais. Uma guerra de todos contra todos resultaria exatamente no contrário da estabilidade: a desintegração dos sistemas e a desestruturação da complexidade, sustentáculos do fenômeno a que chamamos vida.

A “selva” é um ambiente de equilíbrio e integração, que envolve desde micro-organismos invisíveis, como bactérias e vírus, até grandes mamíferos e plantas. As leis não são escritas e não há sistema penal, mas há uma punição máxima para aqueles que desrespeitam a regra do equilíbrio: a perda de sintonia com o ambiente e, conseqüentemente, a extinção.

O sistema capitalista teve sua origem no que Marx chamou de “acumulação originária”, caracterizado pelo comércio competitivo, expropriação arbitrária e violenta de pequenas propriedades, escravidão e pilhagem de recursos de continentes invadidos e colonizados. Na Inglaterra, que teve especial destaque na alavanca desse sistema, surgiram diversas teorias justificando esse tipo de atividade predatória.

No auge do imperialismo britânico do século XIX, Malthus defendeu que a vida em sociedade era uma luta pela sobrevivência, dada a escassez de recursos em relação ao crescimento populacional. Spencer, em consonância com Malthus, pontificou que os vencedores dessa luta eram os mais aptos, que superavam, por suas qualidades intrínsecas, as raças, classes e indivíduos inferiores e menos competentes.

Se as pessoas que celebram o bicentenário de Darwin se dessem ao trabalho de ler “A Origem das Espécies” veriam que o autor dá o crédito a seus mestres e diz que sua idéia “é a idéia do sr. Malthus aplicada à totalidade dos reinos animal e vegetal”. Spencer é citado cinco vezes na tão celebrada e pouco estudada obra.

A partir daí, nossas mentes foram treinadas a ver a competição do leão (predador) com as zebras ou gnus (presas), mas não para se atentar para o fato de que ambos, predador e presa, convivem a milhões de anos em um mesmo espaço, em situação de equilíbrio harmônico, sem conseqüências ecológicas negativas. Aceitamos idéias como “egoísmo” de genes, sem nos perguntarmos como tal sentimento humano pode ser propriedade de um pedaço de matéria que sequer está viva – os genes são apenas moléculas que só possuem função em uma célula e em interação com outras centenas de moléculas.

Portanto, o capitalismo não é selvagem. É o oposto do que ocorre na natureza, uma violação da regra básica do equilíbrio, integração e cooperação que vige no mundo natural. Por isso, sua manutenção nos está conduzindo à pena máxima aplicada aos que não seguem a verdadeira lei da selva: a extinção.

Maurício Abdalla, professor de Filosofia da Ufes.


Fonte:
http://gazetaonline.globo.com/index.php?id=/local/a_gazeta/materia.php&cd_matia=505042
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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