Ação Coletiva

Ação coletiva: Ação comum que visa atingir fins partilhados. Segundo A. Bentley (1949), grupo e interesse são inseparáveis. Os membros do grupo são solidários na ação e para a ação a empreender. Nesse caso, a mobilização em ordem a uma ação coletiva não levanta nenhum problema.
A idéia segundo a qual um grupo (ou uma classe) constitui uma unidade de análise é combatida por algumas teorias utilitaristas. Mancur Olson (1966) mostra que a lógica da ação coletiva não pode reduzir-se à lógica da ação individual. Não basta que um conjunto de indivíduos partilhe um interesse comum para que estes se empenhem numa ação coletiva em ordem a satisfazer esse interesse. A entrada na ação coletiva implica, para cada um dos membros do grupo latente, um certo custo de participação (tempo, dinheiro, etc.). Ora, se se verifica que o bem obtido graças à ação coletiva pode aproveitar a todos, não se vê porque é que cada um dos membros do grupo não seria tentado a deixar aos outros o cuidado de suportar o custo da ação coletiva. Torna-se evidente, nestas condições, que a pura expectativa generalizada gerará um “efeito perverso” (Boudon 1977): com efeito, se todos os membros optarem pela estratégia do “bilhete gratuito” (free rider), o bem coletivo deixará de ter qualquer possibilidade de ser obtido. A dimensão do grupo deve ser tida em conta: nos pequenos grupos, cada um terá de fato compreendido que “a ação de cada indivíduo conta”, o que já não acontecerá nos grandes grupos (por exemplo, os grupos de consumidores), em que os indivíduos terão tendência para pensar que a sua participação apenas pode ter uma eficácia despicienda. O recurso às medidas coercitivas ou aos incitamentos seletivos permite aos grupos organizados limitar essas estratégias de defeção. Um oferecimento paralelo de bens individuais (lugar de responsabilidade ou qualquer outra marca de distinção que confere prestígio e respeito) será um meio para estimular os recalcitrantes: é assim que a esperança de ter acesso a posições eletivas poderá levar um indivíduo a aceitar o custo implicado por um militantismo ativo dentro de um partido político. Um tal oferecimento só é possível se o grupo se dotou de uma estrutura organizacional.
Minimizados na teoria da escolha racional (fundada no paradigma econômico), os incitamentos morais e “solidários” desempenham, na realidade, um papel importante na emergência da ação coletiva. Agir coletivamente numa coletividade, em que predominam os laços de solidariedade e de amizade pode constituir uma obrigação moral para o indivíduo, podendo tornar-se igualmente, para ele, um prazer. Sob este aspeto, é a não participação que será custosa, pois que poderá pôr em questão a imagem e a estima que o indivíduo tem de si próprio. A. Oberschall (1973) mostra que a ausência de laços e a decomposição das redes de interação são um obstáculo importante à mobilização. A capacidade de conduzir uma ação concertada depende, pois, estreitamente do grau e do tipo de organização inerentes à coletividade considerada. Se a ameaça de uma repressão da parte do poder político constitui um outro obstáculo à mobilização, razões de ordem ética ou ideológica são sempre capazes de desviar os atores dos seus interesses pessoais. A escala de avaliação “custos/vantagens” é, portanto, sempre susceptível de ser perturbada por uma ideologia portadora da esperança de um mundo melhor.
 
Fonte: DICIONÁRIO DE SOCIOLOGIA
Sob a direcção de RAYMOND BOUDON, PHILIPPE BESNARD, MOHAMED CHERKAOUI e BERNARD-PIERRE LÉCUYER
Tradução de António J. Pinto Ribeiro
PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE
LISBOA
1990
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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