[Des]Respeitável Público

Segue um texto originalmente destinado a uma cidade do litoral sul do ES (Piúma). Pelo fato de seu teor reflexivo não se limitar a realidade daquela cidade o Café com Sociologia solicitou o autor para republicar seu texto aqui. Boa leitura!


Por Alexandro Souza

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O mágico Harry Houdini (1874-1926) ficou famoso por sempre conseguir fugir de prisões. O know-how do mágico poderia servir-nos, já que a experiência dos anos tem demonstrado nossa incapacidade de evitar as armadilhas pelo caminho.
“Brasil não tem povo, tem público”, já dizia o velho Lima Barreto. Esta proposição parece ter ainda mais valor em cidades pequenas em período eleitoral, quando ilusionistas, palhaços, saltadores [e salteadores] apresentam-se por todo o lado. Na boca de todos o discurso de sempre: o “bem do povo”. Algo impreciso o bastante para atrair os olhares da plateia e evitar críticas dos mais casmurrentos.
Salta aos olhos o clima de espetáculo mambembe, com figurino ruim e textos mal costurados. Anos de laboriosas meditações, sangue derramado pela consolidação do regime democrático dão lugar a sortilégios de ilusionistas, presenças vip e bandeiras coloridas. O “espírito das leis” nunca chegou a habitar tais corpos, que sempre privilegiam o tradicionalismo esprit de porc, Macunaíma ao invés de Montaigne.
Como resultado, não vemos o embate de pontos de vista diferentes pautados por uma ação burocrática e planejada. O espetáculo circense toma conta do palco político-eleitoral, transformando-o em picadeiro. E neste vale todas as palhaçadas: tortas na cara, bananas pelo chão, coelhos da cartola e outras prática de ilusionismo.
Há tempos, quando pequenos circos passavam por Piúma, saímos a trocar ingressos por comidas para o leão (valia de tudo) e nestes sempre haviam “presenças ilustres” a fechar o espetáculo. As tais presenças eram, geralmente, subcelebridades do meio musical, que brilharam outrora, mas que, já não apresentando tanto esplendor, iam de cidade em cidade a apresentarem-se com os circos. O fato não deixa de guardar uma certa analogia com o embate local, onde autoridades são “sacadas” aqui e ali para entusiasmar a galera. Não falta nada: luzes, músicas especiais e fumaças a envolver a personalidade (Esta prática lembra ainda um jogo de poker. Assim como um par de reis supera um par de damas, um presidente da república e um ex-governador parecem valer mais do que um governador, ou um senador e um deputado federal).
A criatividade dos sortilégios é de deixar qualquer Mister M de queixo caído. Coelhos da cartola pululam daqui e dali: obras que aparecem no deserto de investimentos públicos, “flagras” de crimes eleitorais para se tentar “melar” a candidatura adversária. Barulhos, efeitos, vereadores que estavam aqui e aparecem ali… Vegas é Aqui!
E a plateia? Bom, esta é um espetáculo à parte. É tomada de paixão pelos “heróis”; sofrem, choram e se estapeiam pelos mocinhos e mocinhas do melodrama. Entusiasmados com o espetáculo, agitando bandeiras aqui e ali, esquecem-se de que por um espetáculo meia-boca de três meses continuarão a pagar pelos próximos quatro anos. Todos juntos, como palhaços, no meio do picadeiro.
Alexandro Sousa é Graduado em Filosofia e Doutorando em Ciência da Religião/UFJF

Texto publicado inicialmente em: http://piuma.es/index.php/piuma/desrespeitavel-publico.html

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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