Democratização do Ensino Superior: a questão das bolsas de estudo e das cotas.

Por Cristiano Bodart
Um dos leitores do blog Café com Sociologia, o Arnaldo S. Batista, estudante de jornalismo, me solicitou algumas respostas, as quais disponibilizo aqui, a fim de, promover uma reflexão a respeito de um tema tão complexo e de diversas opinião. Não apresento respostas acabadas, mas uma reflexão inicial e incipiente do tema. Segue:

BATISTA: Você acredita que
programas de concessão de bolsas de estudos para estudantes de baixa renda
 em universidades privadas são efetivos na democratização do acesso ao
ensino superior? Por que?
BODART: Com relação ao acesso,
sim. 
Democratizar (nesse
contexto) é tornar acessível, o que as bolsas fazem aos alunos que não têm
condições sociais para pagar as mensalidades. O desafio futuro possivelmente
deixará de ser acessibilidade (como ocorre hoje com o ensino médio) para ser a
qualidade.
BATISTA:  – Algumas pessoas
alegam que estes programas contribuem tanto para a queda na qualidade do ensino
superior nestas instituições quanto para a

desvalorização da universidade uma
vez que os professores precisam refrear os conteúdos para que os bolsistas que
vem de uma formação deficiente possam acompanhar as aulas e desta forma acabam
por prejudicar os alunos pagantes. Qual a sua visão sobre isso? 
BODART: No caso das faculdade
privadas: O que prejudica a qualidade não é a existência de bolsas, mas a falta
de fiscalização na qualidade dos cursos financiados e no controle por parte do MEC. Com as bolsas, pelo contrário, as
faculdades não necessitam reduzir muito o valor da mensalidade para ter
clientes (a redução de valor resulta em corte de custeios que afetam
diretamente a qualidade), além de possibilitar os estudos de quem não teria outro meio.
No caso da Faculdade pública: a
bolsa não está, necessariamente ligada a inclusão de alunos mais pobres. A
bolsa é uma seleção posterior ao processo seletivo. O que inclui estes na
universidade são as cotas sociais e/ou raciais. As bolsas (que são de outras modalidades) podem, e muitas vezes são, uma forma do aluno de dedicar exclusivamente aos estudos.
Com relação as cotas,
o perigo na queda da qualidade é real, porém as universidades, em sua maioria,
possuem um sistema de apoio pedagógico aos alunos com maiores dificuldades (uma
espécie de reforço). Estudos mostram que alunos cotistas não têm resultados
inferiores aos não cotistas (aqui,
aqui,
aqui
e aqui). No
caso da UFPR, o percentual de abandono do curso por cotista chega a ser 3 vezes
menor em relação aos não cotistas (aqui),
. O mesmo ocorre na Unb (aqui).  Estudos apontam que os cotistas
possuem maior autoestima em relação a identidade de estudante (aqui), o que é fundamental na formação.
BATISTA:  Essa
“profusão” de programas de concessão de bolsas nos últimos anos
estaria ligado a que aspectos históricos?
BODART: Está ligado a dois
pontos: acesso da “antiga esquerda” ao poder, a qual tem em seu
escopo político políticas redistributivas e; todos (sejam de direita ou de
esquerda) já perceberam que a economia não funciona com muita pobreza. O
sistema econômico busca incluir, ainda que de forma superficial, todas as
classes sociais no mercado. Crime, miséria, drogas, etc, não colaboram para o
desenvolvimento econômico do país. Se o Brasil quiser se desenvolver, terá que
qualificar e educar a população.
BATISTA:  Você acredita que
programas como o PROUNI e o Escola da Família são formas de privatização do
ensino que deveria ser público?
BODART: Em parte sim. Foi uma
forma mais barata de tentar democratizar o ensino superior. Um aluno na
Universidade Federal é bem mais caro que um aluno bolsista em uma faculdade
particular. Maior quantidade de alunos matriculados no ensino superior em um
país que não disponibiliza maiores recursos só é possível minimizando gastos. O
que não é o ideal, mas já é um avanço significativo.
BATISTA: Seriam estes
programas uma das grandes soluções para a redução das disparidades sociais?
BODART: Diria que é um passo
importante, mas não único a ser dado. O desafio agora é ampliar o sistema educacional
superior público e exigir maior qualidade das faculdade privadas. As atuais
avaliações precisam ser repensadas.
BATISTA: Você acredita que
existam outras alternativas que viabilizem esta democratização que não estas
políticas compensatórios?
BODART: Como você mesmo
coloca: “política compensatória”. Trata-se de uma compensação da histórica
exclusão social praticada no país. Resta agora criar uma política educacional
para viabilizar a expansão das universidades públicas e a melhoria da qualidade
das faculdades particulares. O que temos não pode ser encarada como uma
política para longo prazo.
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Rízia
    setembro 18, 01:05 Rízia

    Muito interessante o programa de acessibilidade aos estudantes que não tem condições de pagar mensalidade,mas eu acho que o governo deveria também melhorar a qualidade do ensino básico antes de pensar no superior,por que se você pensar,alguns desses bolsistas estudaram (com muito esforço) em escola particular por causa do ensino de melhor qualidade,aí eles chegariam realmente preparados para uma instituição particular.

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