Globalização: para além da mera ideia de um mundo interligado, de trocas e intercâmbios culturais.

Por Cristiano Bodart

A globalização é um fenômeno que marca nosso tempo. Isso é indiscutível. Discutível é o termo usado para designar esse fenômeno.
Ao usarmos a expressão “globalização” ou “aldeia global” estamos fazendo alusão à ideia de que o mundo tornou-se menor, seus cantos mais acessíveis e marcados por trocas de bens materiais e imateriais em um fluxo nunca visto antes, assim como os países que se influenciam mutualmente. Em parte isso é verdadeiro. Digo em parte porque a ideia de que existe uma troca entre as nações é um tanto exagerada. O que existe, em muitos casos, é uma imposição da cultura ocidental sobre os demais países do mundo. Por isso a expressão “ocidentalização do mundo” utilizada por Serge Latouche em 1989 em “L’occodentalisation du Monde”.
O conceito de “Ocidentalização do Mundo” desenvolvida por Latouche (1989) nos fornece caminhos interpretativos do fenômeno que recorrentemente chamamos de globalização. Para Latouche, o que existe é uma imposição da cultura europeia sobre o globo; fenômeno que teve origem ainda nas primeiras Cruzadas, no século XI, sendo ampliada nos séculos XV e XVI, com as Grande Navegações – que culminaram com a descoberta de novas terras – e aprofundada no final do século XX, sendo agora chamada de Globalização.
Tanto nas Cruzadas, nas Grandes Navegações, quanto no fenômeno conhecido como globalização, o que observamos é uma imposição de hábitos culturais e não uma troca clara. É certo que no contato como outros grupos sociais acabamos sendo, em alguma medida, influenciados por esses. Alguns hábitos dos índios americanos certamente foram incorporados pelos europeus, porém não tão claramente no sentido contrário. No caso dos índios americanos, quase todos passaram pelo processo de aculturação, caracterizado pela imposição de uma nova cultura: a europeia.
Atualmente, o processo de aculturação continua em curso. À todo tempo somos influenciados pela cultura europeia – muitas vezes via Estados Unidos da América. Bastamos olhar para as últimas tendências da moda. O quanto o Camboja influencia a cultura francesa? E o inverso? Temos uma troca de hábitos culturais ou trata-se de um caminho praticamente de mão-única?
Frente a essa atual tendência de aculturação constantes, sobretudo nos hábitos culturais, nos vêm a pergunta: por quê isso ocorre? Uma palavra me parece bastante completa para tal indagação: poder. Outrora, poder religioso e, posteriormente, poder econômico. Em tempos de globalização, a aculturação, ou padronização da cultura acaba padronizando, igualmente, os hábitos de consumo. Uma vez o consumo padronizado, torna-se possível as grandes empresas venderam seus produtos para todos os cantos do mundo, obtendo assim poder econômico de forma mais fácil e eficiente.
Com o advento do capitalismo e sua busca pela maximização do lucro, o objetivo dos “homens poderosos” passou a ser a ampliação dos lucros, o que se dá via ampliação do mercado consumidor. Em um mundo “mais igual” é muito mais fácil e barato ofertar os seus produtos por todos os cantos do mundo. Os benefícios da globalização, tais como a facilidade de deslocamento de passageiros e a maior informação é uma realidade, pena que também sejam também mercadorias e a serviço de seus donos.
O fenômeno está ai. Resta-nos compreende-lo para além da mera ideia de um mundo interligado, de trocas e intercâmbios culturais.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e docente do Centro de Educação dessa mesma instituição de ensino. Fundador e editor do Blog Café com Sociologia. Pesquisa as temática "movimentos sociais" e "ensino de Sociologia".

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