Identifique-se na selva social

“Ideologia eu quero uma pra viver”, já dizia Cazuza. Todos querem uma razão para acreditar, defender ideais, como um ato de sobrevivência em sociedade. E assim criamos afinidades, identificação, com estilo musical, ídolos, time de futebol, religião ou política. E, muitas vezes, isso norteia todos os pensamentos, conflitando as relações humanas. Ninguém é obrigado a aceitar ideais divergentes, mas respeitar limites que a intolerância confunde gerando o clima de “selva social” é essencial. Além disso, deve haver cuidado para não aderir causas sem conhecimento, apenas com intenção de tomar “partido” gratuitamente.
Exemplo disso é a aversão que está sendo despertada pelo feminismo com a campanha polêmica “Eu não preciso do feminismo porque…”, que apresenta teorias de direita, reunindo seguidores a fim de fortalecer o lançamento do livro “O Outro Lado do Feminismo“. O movimento busca derrubar mitos feministas, com argumentos inconsistentes ou com falsa simetria como: “machismo não existe”; “mulher não é oprimida no ocidente”; “não preciso do feminismo porque amo meu pai “/ “porque não acho homem inferior a mulher” / “porque não sou “esquerdoso” / “porque não me faço de vítima” / “porque não sou contra os homens” /” porque agradeço os privilégios criados por homens”.
Intelectuais, ativistas e otimistas não sabem se choram ou dão risada com isso, é frustrante. Entre extremistas e ignorantes damos passos para trás no avanço social, com pensamentos desse cunho, discriminativos e por vezes odiosos, o que há também em outras lutas. O feminismo é um movimento social que objetiva empoderar mulheres, com a libertação de padrões opressores patriarcais no espaço público e pessoal, que inegavelmente têm regido a sociedade sexista há séculos. Realidade que está se modificando através de conquistas femininas, de ativistas que desejam “nada mais” do que liberdades, igualdade e fraternidade, soa familiar na história, não?! Direitos civis igualitários, e não igualdade entre os gêneros, o que gera grandes confusões. E fraternidade, bem, é o que nos falta como seres humanos. Portanto, não seria mais inteligente valorizar o que as lutas agregam e cessar a politicagem que defini tudo em direita e esquerda?! A vida não é dicotômica.
Pessoas têm diferentes interesses, muitas vezes não gostam de conversar e debater os mesmos assuntos, por preguiça ou simples desinteresse, devemos respeitar. O difícil de entender é quando despendem energia a fim de deslegitimar uma luta social como o feminismo, criando movimento contrário. Isso tem impacto na mentalidade coletiva carente de identificação, que talvez não se identifique no feminismo e por isso decidi abraçar o contra. E isso visivelmente ocorre sem o primordial, analisar pontos de vista “rivais” para então apoiar algum lado, ou não. 
Disseminar opiniões desconhecendo a causa que defende e a que ataca se torna caótico, teoria de dominação das massas, de quem aceita tacitamente o que rodeia. A luta é tão exaustiva quanto necessária, por isso feministas são taxadas de infelizes e ganham apelidos pejorativos de “femimiministas” e “feminazis”, são vistas como descrentes do casamento tradicional e do amor, duas noções independentes. Ainda recebem acusações de odiar homens ou acha-los inferiores, algo bem distante dessa luta.
Pessoas são tão diversas que quando se reúnem em prol de uma causa invariavelmente formam vertentes, algumas extremas, porém a atenção central deve estar no que agrega ao todo, na selva ideológica que naturalmente vivemos. A vida pode ser um idealismo teórico-prático socialmente produtivo em favor da liberdade e direitos das pessoas, como no feminismo e outros movimentos. 
Conhecimento é o maior avanço para manter tal democracia de ideias, que conversam e não apenas discutem. Para isso é preciso respeitar, ponderar pontos de vista, que parafraseando Leonardo Boff, ainda é a vista de um único ponto. Vale tirar o foco do umbigo, porque sempre haverá pessoas dispostas a lutar por lados contrários, mas não vivemos em via de mão dupla, é mais complexo, como uma selva, onde a biodiversidade deve ter equilíbrio para funcionar.
Luana Borges, graduada em Comunicação Social, escritora no site Bendita beleza feminina, filosofa e pesquisadora autodidata.
e-mail: lu_ [email protected]
facebook.com/Benditabelezafeminina
www.benditabf.com.br
[email protected]

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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