Mediocridade em um país de educação medíocre*



Mediocridade em um país de educação medíocre

Por Cristiano  das Neves Bodart

Certamente você não gosta de ser chamado de medíocre, isso por possuir, tal palavra, uma conotação pejorativa. Mas será que, em relação à educação, você não é medíocre? Já se fez essa pergunta?
Ser medíocre é ser mediano; é estar na média. É estar entre o bom e o ruim. Em outras palavras, é não estar entre os melhores, ainda que também não entre os piores. No caso específico da educação, ser medíocre em um país medíocre, como o Brasil, é ainda pior. Isso é muito sério! A Educação pública brasileira parece ter por objetivo produzir pessoas medíocres em um sistema já medíocre. Observando as constantes mudanças no sistema educacional público de Ensino Básico, notaremos facilmente um plano medíocre para reproduzir mediocridade. Os exemplos são diversos: níveis de prova, seleção de conteúdos, capacitação de professores, salas de aula cheias, excessos de trabalhos simplistas aplicados aos alunos, etc.
No caso das provas notamos, digo por experiência de causa, que é praticamente proibido cobrar do aluno o que o professor não falou em sala de aula em relação ao conteúdo dado, o que leva à mediocridade. O professor ao ter que se expressar para 40 alunos, “nivela por baixo” o conteúdo da aula para que todos, ou quase todos, entendam. Transmite assim um conteúdo já medíocrizado. Os alunos, por sua vez, precisam assimilar apenas parte desse conteúdo (às vezes 70%, outras 50%) para ser aprovado naquele mediocrizado conteúdo; isso quando não é orientado que ele participe da Festa de São João, dançando na quadrilha, por exemplo. Esse ato o garantirá mais 20% da nota na prova, precisando apenas aprender 30% do conteúdo mediocrizado pelo professor. Pronto! Aprovado mais um medíocre.
Quanto aos “trabalhos mediocrizadores” a situação é ainda mais crítica. Os trabalhos em sistemas educacionais sérios têm por objetivo exclusivo desenvolver novas habilidades. Não é o caso da prática do Ensino Básico público brasileiro. Os trabalhos são visto como “meios” para atingir um “fim”, a aprovação do educando. O objetivo não é educar, mas aprovar, ampliar a popularidade política do Secretário de Educação, via dados estatísticos frios.
Trabalhos em grupo onde o educador sabe que apenas um educando fez e os demais tiveram seus nomes inclusos; plágios da internet; trabalhos elaborados por terceiros; trabalhos banais, como trazer objetos e materiais para aula… esses abarrotam as escolas de medíocres. Alunos que serão aprovados sem conhecimento sólido. Alguns ainda ficam retidos por não atingir, mesmo com toda essa mediocridade, a média (que como diz a própria nomenclatura, é também medíocre). A esses é dado três aulas e aplicado um conteúdo “hipermediocrizado”, devendo “tirar a média” para ser aprovado. Pronto! Aprovado mais um medíocre.
Quanto à seleção de conteúdos, notamos igualmente uma mediocridade profunda. Os conteúdos raramente ultrapassam os medíocres livros didáticos.
Certamente existem os professores bons, os ruins e os medíocres, esses, infelizmente, são maioria. As condições atuais propiciam uma formação docente medíocre. Isso por vários motivos. Dentre eles vemos: proliferação de cursos particulares de licenciatura de baixo custo, e muitos à distância; O curso de licenciatura é o menor em carga horária; o professor ao receber salários medíocres não dispõe de condições financeiras para investir em sua carreira, assim como não lhe resta tempo.
A proliferação de cursos de licenciatura com baixas mensalidades têm criando condições para que os estabelecimentos de ensino contratem professores com menores salários e, consequentemente, menos qualificados e motivados. Essa situação reflete na formação dos futuros professores. Tendo o curso de licenciatura carga horária menor, os conteúdos serão resumidos e/ou muitos nem serão transmitidos à turma. Somado a formação medíocre, o professor se depara com a dificuldade em manter-se informado e aperfeiçoar-se. Falta-lhe dinheiro e tempo. Com um salário baixo não tem condições de comprar livros, pagar cursos, participar de seminários e congressos. Ainda que tivesse poupado algum dinheiro, sua carga-horária o impediria. Somado a tudo isso não vê motivos para se aperfeiçoar, pois, terá que ministrar aulas medíocres para não reprovar seus alunos… que serão alguns dos futuros professores medíocres que farão parte do sistema de ensino.
Deveríamos ficar ofendidos não por sermos chamados de medíocres, mas por permitirmos que tenhamos um país medíocre. Ser medíocre na Holanda não é nada mal. Ser medíocre no Brasil já é bastante problemático.
Lamentavelmente os medíocres são fruto de um sistema educacional e uma cultura da mediocridade. Quem nunca ouviu um aluno dizer “passando está bom, É o que importa” ? Essa afirmação é fruto de uma cultura mediocrizadora, que se repete em quase todas as esferas da vida social, inclusive na educação. Não quero ser medíocre, ainda mais no Brasil!
 * Texto originalmente publicado no Portal 27.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e docente do Centro de Educação dessa mesma instituição de ensino. Fundador e editor do Blog Café com Sociologia. Pesquisa as temática "movimentos sociais" e "ensino de Sociologia".

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Leave a response comment6 Responses
  1. Elisângela Canuto
    abril 22, 11:48 Elisângela Canuto

    texto perfeito, muito bom, parabéns!!!

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  2. Anônimo
    abril 23, 02:05 Anônimo

    Pois é…seria um grande desafio, "quebrar e reconstruir" essa estrutura cultural formada.

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  3. Edson Bertoldo
    julho 24, 15:08 Edson Bertoldo

    Parabéns,
    vou trabalhar este texto em sala de aula.

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  4. Iblayr Assunção
    setembro 08, 16:48 Iblayr Assunção

    Realmente, a educação no nosso país está em uma situação muito difícil, podemos sim dizer que é uma educação medíocre em um país medíocre. Seria muito bom o governo deixar de investir em coisas tipo copa do mundo, e começar a investir mais na educação que é prioridade para nós, assim poderíamos viver em um país melhor.

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  5. Junior Fernandes
    setembro 03, 10:59 Junior Fernandes

    Vamos começar a melhorar quando deixarmos de lado o uso da educação para um projeto de poder, onde seguindo uma linha gramsciana a pedagogia freireana vem imbecilizando nossos jovens a pelo menos 3 décadas. Sou professor e pretendo ser diretor e implementar uma gestão onde a prioridade é a disciplina dos alunos, pois ao meu ver sem disciplina o processo de ensino aprendizagem não ocorre. Essa diarréia ideológica chamada pedagogia freireana tirou a autoridade do professor em sala. A escola que um dia irei dirigir seguirá os valores e principios liberais, preparando cidadãos que tenham condições de serem empreendedores, trabalhadores com conhecimentos tecnicos e que busquem seu lugar ao sol e não seres timidos, de baixa auto estima eternamente dependende de um Estado inchado e corrupto.

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  6. Unknown
    outubro 06, 14:20 Unknown

    Ótimo texto, parabéns

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