O Suicídio em Durkheim: alguns apontamentos

O Suicídio em Durkheim: alguns apontamentos  
Por Cristiano das Neves Bodart
 
Durkheim define “suicídio” como toda morte que resulta direta ou indiretamente de um ato positivo ou negativo da própria vítima e que esta esteja ciente que produz esse resultado.

“Chaque société est prédisposé à fournir um contingent déterminé de morts volontaires. Cette prédisposition peut donc être l’objet d’une étude spéciale et qui ressortit à la sociologie”. 

Para Durkheim o suicídio é um Fato Social quando trata-se de um conjunto de suicídios em certa sociedade e em certo período; quando é total (que não é a soma de unidades independentes), um fato novo e sui generis. Para ele, as sociedades têm, em cada momento, uma disposição definida para o suicídio.
“A taxa de suicídios constitui, portanto, uma ordem de fatos única e determinada; é o que demonstram, ao mesmo tempo, sua permanência e sua variabilidade. Já que esta permanência seria inexplicável se ela não se devesse a um conjunto de caracteres distintivos, solidários uns com os outros, que, apesar da diversidade das circunstâncias ambientes, se afirmam simultaneamente; e esta variabilidade testemunha a natureza individual e concreta destes mesmos caracteres, uma vez que variam como a própria individualidade social”. (Durkheim, 1986, p.14) 
Na obra “O Suicídio”, Durkheim buscou identificar as causas sociais de suicídio e os seus tipos. Sua metodologia consistiu, grosso modo, em classificar as causas para categorizar os tipos. Para esse sociólogo, conhecida as natureza das causas podemos deduzir à natureza dos efeitos.
Uma pergunta de Durkheim parece ter sido central em seu estudo: Quais são as situações dos diferentes meios sociais (religião, família, sociedade política, grupos profissionais) em função dos quais o suicídio varia?
Durkheim buscou identificar a relação entre suicídio e religião, examinando a relação entre a taxa de suicídio e as confissões religiosas. Ao comparar alguns países, identificou que nos países católicos a prática do suicídio era menor.
Embora a “natureza dos sistemas religiosos” protestantes e católico proibissem o suicídio, Durkheim encontrou alguns elementos importantes para entender a diferença nas taxas dessa prática. Para ele, no Catolicismo o sistema hierárquico de autoridades é mais rígido, as doutrina é pronta e inquestionável, sendo marcada por grande interação e as crenças e práticas são comuns aos fieis. Já no protestantismo existiria pouca hierarquia e uma multiplicidade de seitas, sendo o crente mais autor da sua fé, havendo pouca integração; ou seja, menos crenças e práticas comuns entre eles. Essa menor integração é, para Durkheim, motivado pelo fato do protestantismo admitir um maior livre exame do livro sagrado.
Para Durkheim a causa do livre exame estaria na necessidade da liberdade face à falência das crenças tradicionais (e não o inverso); perda da eficiência das ideias e sentimentos tradicionais irrefletidos para dirigir a conduta, sem um novo sistema de crença comum.
Segundo esse sociólogo, o gosto pela instrução se aspira quando as crenças tradicionais se enfraquecem, expandindo o individualismo. Para ele, o gosto pela instrução era maior entre os protestantes. Nesse contexto de crise das tradições, a ciência não é o mal, mas vista como o único remédio. A ciências não teriam influências dissolventes, mas seria a única coisa que teríamos para lutar contra a dissolução de que ele resulta. Durkheim defende que silenciar a ciência não vai restaurar a autoridade das tradições desaparecidas.
No caso específico do papel da religião, o homem comete o suicídio, segundo Durkheim, porque a sociedade religiosa de que faz parte perdeu a coesão.
Argumenta Durkheim que a religião exerce uma ação profilática sobre o suicídio, isso por possuir uma conjunto de crença e práticas tradicionais e obrigatórias, exercendo a função de integração, criando situações coletivas que integram a comunidade. Quanto mais integrada esta, maior sua virtude de preservação.
Para Durkheim, o protestantismo é superior em taxas de suicídios por ser menos integrador. Quanto menos vínculo com outros indivíduos, mais propício ao suicídio estará o indivíduo. Eis ai a dimensão moral do suicídio egoísta destacado por Durkheim.
Durkheim analisa também a relação entre o Judaísmo e o suicídio. Para ele as perseguição contra esse povo foi fonte de fortalecimento da solidariedade, tendo sua identidade fortalecida. O Judaísmo estaria marcado por um corpo de práticas que regulamentam minunciosamente os detalhes da existência, deixando pouco espaço para o julgamento individual. A ciência não teria tido, afirma o sociólogo, um impacto contrário a essa religião, isso porque sua tradição estava muito bem consolidada. Desta forma, o Judaísmo seria uma evidência de que a ciência não destrói a tradição. Os judeus tiveram acesso à ciência e sua tradição continua sólida, argumentava Durkheim.
Durkheim buscou destacar que o suicídio é uma doença da época. Para ele a anomia seria a causa principal. A anomia seria um estado marcado pela falta de regulamentação, paixões ilimitadas, horizontes infinitos e tormento: cenário potencializador da prática de suicídio.
Os sinais de morbidades destacadas por Durkheim foram: necessidades ilimitadas; ultrapassagem infinita dos meios que se torna um fim, descontentamento; ligação tênue com a vida; paixão pelo infinito; situação onde nenhuma conquista vale por si mesmo etc.
De acordo com Durkheim os indivíduos que não acumulam experiências reais, torna-se fracos e diante de um problema real não suportam a pressão, tendendo a cometer suicídio.
Outro elemento potencializador da prática de suicídio são às crises econômicas. Para ele, a crise promove o suicídio por ruptura de equilíbrio, seja de prosperidade ou de pobreza. Mas como explicar que a melhoria da vida leve a uma maior desapego por ela? Para o sociólogo, as necessidades humanas não dependem do corpo; os desejos do indivíduo são ilimitados. Uma sede inextinguível é um suplício perpetuamente renovado. As paixões têm que ser limitadas pela força moral da sociedade que regula e modera as necessidades, atendendo ao bem comum. Para ele, as paixões devem ser limitadas, caso contrário, torna-se um tormento.
Quando a sociedade é perturbada por crises ou mudanças repentinas, a pressão moral perde força, os indivíduos não se ajustam a suas posições, o valor das forças sociais permanece indeterminado, sem regulamentação as ambições são superexcitadas, causando o sofrimento e, consequentemente, crescimento do suicídio. O desenvolvimento da indústria e ampliação indefinida do mercado fortalece o desencadeamento dos desejos e a busca desenfreada por conquistas, o que consequentemente, favorece a ampliaçao das taxas de suicídios.
O restabelecimento da ordem moral não é possível de forma rápida. Atualizar a educação moral não é algo instantâneo. Por isso, Durkheim se preocupará em reformar o ensino francês: laica, pública, gratuita (organizado pelo Estado que representa o geral e não o particular). Sem uma educação homogênea há uma tendência de anomia (se cada família educasse seus filhos, haveria uma desregulamentação moral).
A causa do suicídio, estaria, grosso modo, na “ausência da sociedade” na vida do indivíduo. O Suicídio egoísta é marcado pela ausência da coesão coletiva, o desprovimento de objetivos e significados. Suicídio anômico é marcado pelo efeito da falta de regulamentação moral que limita as paixões individuais.
Durkheim aborda o papel do casamento sobre as taxas de suicídio. Para ele, o casamento age em sentido contrário sobre o homem e sobre a mulher. Como pais têm o mesmo objetivo, mas como cônjuges os interesses seriam diferentes e muitas vezes antagônicos. Durkheim identificou, por meio da estatística, que só os homens casados contribuem para a maior taxa de suicídio nas sociedades com divórcios frequentes; nestas as mulheres cometem menos suicídio. Como nossa vida depende do quanto estamos integrados à sociedade, o divórcio, para o homem teria um impacto muito grande sobre a prática de suicídio, assim como a maior taxa de suicídio estaria entre os homens solteiros.
Para Durkheim, o divórcio determina o suicídio pelas ações que exerce no casamento. Para ele, o casamento é uma regulamentação das relações entre os sexos, abrangendo instintos físicos e os sentimentos de todo tipo que a civilização enxertou sobre a base dos apetites materiais, regulando toda a vida passional, principalmente o casamento monogâmico. O casamento impõe ao homem uma disciplina salutar (mesmo que o costume lhe dê privilégios que permitem atenuar o rigor do regime). O divórcio enfraquece a regulamentação matrimonial, enfraquecendo a imunidade do homem casado e fazendo com que se aproxime das condições dos solteiros. Durkheim teria identificado que nada disso atinge a mulher (lembrando que a mulher não tem acesso a escola). Estando ela mais próxima da natureza, seus desejos naturalmente são mais limitados. Mais instintiva, segue os instintos em paz e com calma. Sendo ela tradicionalista, regula o comportamento pelos credos estabelecidos, sem grandes necessidades intelectuais. Para o sociólogo os interesses dos sexos são apostos, um precisa de coerção, o outro de liberdade. Para Durkheim (ao contrário da visão comum, que acredita que o casamento protege a mulher e sacrifica o homem), o casamento proporciona proteção ao homem e exige sacrifício da mulher, por isso o divórcio teria um impacto maior sobre o homem e, consequentemente,  levando-o a praticar o suicídio.
Durkheim deixa uma nota de rodapé indicando a existência do suicídio fatalista, que seria aquele causado pelo excesso de coerção. Embora mencionado, o sociólogo não se debruça sobre tal tipo de suicídio.
Fontes
DURKHEIM, E. Le suicide. Paris: PUF, 1986.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Aula do curso de Sociologia I. Universidade de São Paulo/USP. Mai. 2012. (fonte oral).

Como citar essa fonte:
BODART, Cristiano das Neves. O Suicídio em Durkheim: alguns apontamentos. Blog Café com Sociologia. 2015. Disponível em: <http://www.cafecomsociologia.com/2015/12/o-suicidio-em-durkheim-alguns.html>. Acesso em: dia mês ano.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Mark Mayer
    dezembro 16, 16:22 Mark Mayer

    Grande!
    Sou protestante e concordo com a visão! Só acredito que falta um apontamento de indivíduos sem a religião e até a não crença em um ser superior. Seria um bom ponto de discussão.
    De qualquer forma, Vejo os apontamentos dele como um suicidio, não só físico, mas também psicológico e espititual.
    Mas, como disse, excelente texto e vale a reflexão em todos os apontamentos.

    Grande abraço, professor!

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