Avaliação psicológica: uma etiqueta?


Avaliação psicológica: uma etiqueta?
Por Felipe dos Santos Souza* 
Se há quem ainda acredite que as avaliações psicológicas são instituídas nos cursos de Psicologia como uma disciplina meramente curricular ou uma prática neutra e isenta de ideologias, simplesmente não conhecem de fato, o quão poderosos são os laudos (PATTO, 1997). As questões que sempre estiveram em jogo ainda são as mesmas: há quais relações políticas, culturais, educacionais, econômicas, sexuais, judiciárias, linguísticas e ambientais a avaliação psicológica sustenta em seus resultados, uma vez carimbados e assinados por psicólogos? Quem avalia suas avaliações? Há uma maneira eficaz de identificar fatores subjetivos em testes? E como pensar em um profissional que também está submerso ao conjunto de transformações sociais cotidianas e que refletem diariamente em sua prática prescritiva?
A proposta de escrever um texto que responda a essas questões não é tão fundamental, visto que gritar essas indagações em meio ao cenário acadêmico é que se mostra urgentemente necessário agora. Lembrar que silêncio também é discurso e que omissão também é posição nos traz perspectivas problematizadoras de como nadar contra a correnteza que nos arrastam para a “era dos rótulos psicológicos”. Não temos boias ou coletes de salva-vidas, o que temos são laudos cada vez mais pesados nos afundando coletivamente. Um por um.
A demanda social que trouxe ao campo da Psicologia os estudos em avaliações psicológicas muito contribuiu para perpetuar um estereótipo da figura do psicólogo enquanto cientista. Ou seja, o desenvolvimento de testes, instrumentos e ferramentas que objetivavam analisar os fenômenos do psiquismo humano permitiu com que diferenças culturais, cognitivas, sociais e educacionais fossem evidenciadas entre os sujeitos e legitimadas por uma ciência. Uma ciência ideológica.
Percorrendo as temporalidades, os fenômenos psicológicos (mente? emoção? vontade? intenção?) parecem também ter ganhado outras manifestações corporais. A sociedade mudou. O sistema econômico acentuou as desigualdades sociais. As escolas são outras. A indústria farmacêutica cresceu e se alastrou pelo mundo e as políticas midiáticas comercializam corpos como meros produtos. Os instrumentos psicológicos de medição das subjetividades (leia-se também por quantificação subjetiva) hoje buscam exatamente não tanto compreender essas contingências, mas tão somente sustentá-las para que sua sobrevivência seja garantida. Vejamos o percurso histórico desse processo: 

Inventou-se toda uma tecnologia da subjetividade calcada na constituição de normas (FOUCAULT, 1984 [1975]), em que a disciplina psicológica tratava por diagnosticar, corrigir e adaptar; obviamente a partir dos imperativos do liberalismo econômico-político. E normatizar-normalizar trata-se nada mais do que codificar, fazer com que determinada conduta siga determinado código, um significante. (HUR, 2015, p. 232).
Confunde-se assim, a manutenção da ordem pública com a manutenção da ordem psicológica. Qualquer espécie de conflito que vise repensar nossos papeis, nossas identidades e nossas responsabilidades enquanto protagonistas sociais representam diretamente um perigo para as relações de poder incrustadas, naturalizadas e cristalizadas na história que nos constitui. É justamente aí que etiquetar sujeitos tornou-se uma medida eficiente para uma prática classificatória de domesticação dos corpos, aspecto esse discutido por Foucault (1926-1984) em “A microfísica do poder” (1979). 
Nesse eito, o sistema etiquetador possui funcionários que trabalham ininterruptamente no sentido de manter o produto no “lugar certo” da prateleira. É importante que estejam visíveis ao público e aos discursos patológicos. Como não pensar nesse momento nas atuações psicológicas? Principalmente na atuação restrita ao psicólogo que é a avaliação psicológica? Somos também etiquetadores ou somos TODOS etiquetados? Essas reflexões devem atravessar não somente os cursos de Psicologia, mas os corpos desses estudantes.
O contexto do corpo também é muito importante. Perceber esse sujeito em todas as suas dimensões existenciais permite com que nossas avaliações perspectivem problematizar estruturas políticas que se erguem sobre nós. As instituições sociais são construídas não só materialmente, mas através de ideologias que as sustentam discursivamente e autorizam suas dominações sobre os nossos corpos. Não existe neutralidade. Não existem ausências de crenças e muito menos imparcialidades em discursos. Os instrumentos psicológicos também são instrumentos de poder e é extremamente importante que saibamos os nossos objetivos enquanto profissionais (e humanos) que podem tanto contribuir com uma vida, como também destruí-la. Sejamos responsáveis por ambas.

Bibliografia


HUR, Domenico Uhng. Corpocapital: códigos, axiomática e corpos dissidentes. Revista Lugar Comum n.º 45 – 2015.2. Disponível em: http://uninomade.net/wpcontent/files_mf/145097712500Corpocapital;%20c%C3%B3digos,%20axiom%C3%A1tica%20e%20corpos%20dissidentes%20-%20Domenico%20Uhng%20Hur.pdf. Acesso em 1 de Janeiro de 2016. 
PATTO, M.H.S. Para uma crítica da razão psicométrica. Psicol. USP. vol. 8 n. 1 São Paulo 1997.
PRIMI, R. Avaliação psicológica no Brasil: fundamentos, situação atual e direções para o futuro. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 2010, vol.26, pp. 25-35.
* Estudante de Psicologia da UFMT. E-mail: felipe_maraca@hotmail.com

Como citar esse texto:

 SOUZA, Felipe dos Santos. Avaliação psicológica: uma etiqueta? Blog Café com Sociologia. 2015. Disponível em: <linkaqui>. Acessado em: dia mês ano.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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