RESENHA DO FILME: CIDADE DO SILÊNCIO

RESENHA DO FILME: CIDADE DO SILÊNCIO
Por Edinei Pereira*

Um filme que instiga, provoca e atordoa. Cidade do silêncio, dirigido e produzido por Greogry Nava no ano de 2007, com duração de 1:52:17 (uma hora, cinquenta e dois minutos e dezessete segundos). É baseado em fatos reais, e se passa numa pequena cidadezinha do México, na fronteira com os Estados Unidos. Portanto, uma região marcada pelo grande número de indústrias, resultado do acordo de livre comércio, -leia-se NAFTA. Caracteriza-se por ser um drama que tem como pano de fundo a violência contra as mulheres. O que configura como sendo um tema atualíssimo, que engloba outros tantos pontos importantes passíveis de serem observados, tal qual: corrupção, imigração, exploração, política, mídia, feminicídio, trabalho, xenofobia etc. Por isso, seria reducionista demais uma análise linear, uniforme e estanque, diante da magnitude desta obra prima cinematográfica.

O roteiro é ambientado, principalmente nas ruas, fábricas e locais ermos, denotando os aspectos sombrios e assustadores. Traz no seu elenco Jennifer Lopez (Lauren Adrian), Antonio Bandeiras (Alfonso Diaz), Sônia Braga (Teresa Casillas), Martin Sheen (George Morgan) e Maya Zapata (Eva Jimenez).

O filme Cidade do Silêncio se passa no México, sendo baseado em fatos reais. Mas caso não fosse, não tiraria sua autenticidade, tamanha importância do tema; principalmente para o contexto atual, onde alguns países, pessoas e instituições, paulatinamente passam a dar voz, mesmo que de forma bem tímida, às mulheres. Não é de se entranhar que isso venha a incomodar os conservadores e machistas de plantão, que assim como os assassinos mostrados no filme, também buscam silenciar toda e qualquer manifestação do mundo feminino. Michelle Perrot, uma grande historiadora e especialista no tema, coloca que:

O infanticídio das meninas é uma prática muito antiga, que perdura maciçamente na Índia e principalmente na China, por causa da limitação a um único filho: elimina-se as filhas…até que se tenha um filho […] (PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. 2007. p.42).

Fazendo uma relação deste trecho com o filme, percebe-se que ao longo do processo histórico, mudaram-se as formas de amordaçar, reprimir e assassinar. Mas o fato é que a barbárie ainda persiste. Embora os mecanismos de torturas se aperfeiçoem e se reinvente, tal qual a lógica do sistema capitalista. E a filmografia aqui exposta nos mostra isso de forma magnânima. 
Já no início, o telespectador é colocado a fazer algumas reflexões, embora a tônica do drama gire, também, em torno de uma jornalista -Jennifer Lopez (Lauren Adrian), que é enviada a uma cidade para investigar os estupros e assassinatos em série de mulheres. Diante disto, é imprescindível que primeiramente seja assimilado o pacto imposto pelos países imperialistas- leia-se –Estados Unidos- a fim de extrair dali seus produtos. E assim começa o filme:

Como resultado do tratado do livre comércio, empresas do mundo todo montaram no México e ao longo da fronteira dos Estados Unidos, com mão de obra barata e isenção de impostos, produtos a baixo custo…, nas fábricas de Ruarez, um televisor é fabricado a cada 3 segundos…as fabricas contratam mulheres jovens que aceitam salários menores […]

Além disso, há uma vital necessidade de um diálogo, ou seja, um reforço referencial. Então, Michelle Perrot, em sua obra Minha História das Mulheres, traz alguns questionamentos, como o fato de romper com o silêncio, uma vez que ao longo do processo histórico essas- as mulheres- são esquecidas pelos grandes acontecimentos. Ou podemos colocar que os grandes acontecimentos incumbiram-se de silenciar as mulheres? De forma metafórica, ao longo de todo o filme, as imagens por se só falam. Podemos aqui descrever a cena em que Jennifer Lopez (Lauren Adrian) procura Antonio Bandeiras (Alfonso Diaz), com o qual deseja trabalhar, pois o mesmo conhece a região na qual pretende fazer sua matéria, e chegando ao local, logo questiona o porquê de algumas mulheres ali, cavando de forma desesperada, e a resposta é que se elas não o fizer, ninguém mais o fará (a cena se passa num lugar distante da cidade, onde os assassinos enterravam suas vítimas). Mostrando com isso que o Estado, no papel da polícia e dos políticos, estavam embrenhados num jogo de interesse meramente capitalista. E o fato das vítimas serem enterradas, remete à ideia da memória, ou seja, a violência evidencia-se não somente num viés físico, mas psicológico e moral, pois a polícia afirma com veemência “isso não foi um crime, foi uma violência doméstica, portanto, um fato isolado”. 
Maya Zapata (Eva Jimenez) tem um papel de destaque na trama, não somente pelo desempenho do seu personagem, mas a simbologia que carrega suas falas e a classe social da qual pertence. Ela, dessa forma, representa um pouco de todas as mulheres operárias, de uma classe baixa e marginalizada pela sociedade. Quando a mesma sofre a violência sexual, é amparada por Lauren Adrian (Jennifer Lopez), mostrando com isso o total descompromisso do poder público para com as pessoas –leia-se operárias, mulheres e pobres-. 
Um ponto marcante do filme, se não o cerne, talvez uma das chaves para a compreensão do drama, se da no momento em que Lauren Adrian (Jennifer Lopez) percorre os becos escuros e sombrios em que Eva Jimenez (Maya Zapata) fora violentada, e chegando num determinado lugar, começam a conversar sobre suas vidas, então, a segunda explica os motivos que a levou a migrar do campo para a cidade a procura de emprego nas indústrias, foi o fato de sua família ter sido expulsa de suas terras. E a primeira expõe, também, o fato de estar naquele local. Embora o enredo se dê num contexto de forte violência física, percebe-se com tal diálogo, que há nos fatos vividos, por ambas, um forte interesse do sistema capitalista em torna-las, assim como as demais pessoas, totais dependentes e apêndices de seu projeto voraz. Além do mais, pode-se contextualizar a expulsão da personagem e seus familiares do lugar onde moravam, com a lei do cercamento ocorrido no século XVIII, quando os servos foram obrigados a migrarem para os centros urbanos e trabalharem nas indústrias. 
O silêncio se estende para todos os lados, fosse defensor ou contraditor de um projeto do sistema imperialista. O personagem de Antonio Bandeiras (Alfonso Diaz), que já fora colega de Lauren Adrian (Jennifer Lopez), faz publicações em série dos vários assassinatos, até que certo dia, também, é assassinado. A cena deste homicídio vem logo após outra cena onde Lauren Adrian conversa com seu chefe, e este a proíbe de publicar a matéria que havia feito, uma vez que isso romperia com relacionamentos entre os dois países, deixando evidente com isto que o interesse do Jornal era único e exclusivamente comercial. 
O local onde moravam os operários, como já fora citado anteriormente, era ermo, sombrio e com moradias predominantemente de madeiras (barracos). No filme o diretor mostra os mesmos sendo queimados, uma cena que se passa bem no final. E o que podemos refletir a partir de trecho, é que, tanto na cidade de Ruaréz, como no nordeste do Brasil, assim, também, como os moradores e trabalhadores da Revolução Industrial (século XVIII), retiram as pessoas de suas cidades de origem, marginalizado-os. Os que rompem com esse ciclo não são parte da regra, e sim da exceção. Enfim, é assim que Greogry Nava traz à tona temas que evidencia as barbáries de um sistema que busca incessantemente o lucro, nem que para isso vidas sejam ceifadas a todo momento. 
A narrativa final se passa quando Eva reencontra sua mãe, após ter processado seu violentador, e este por sua vez ainda espera por julgamento. Assim como os assassinos de Alfonso Diaz nem sequer são encontrados para julgamento, o que fica claro que o judiciário é posto nesta filmografia como sendo moroso e capacho de interesses escusos e imperialistas. Cabendo a Lauren Adrian a continuar com o Jornal de seu amigo. Porém, os assassinatos ainda persistem, como a descrição feita por Lauren, de mais uma vítima: “outro corpo foi encontrado no deserto, uma garota de uns dezessete anos, ela ainda está vestida com o avental azul da fábrica…”. 
Embora o mundo busque dar voz aos vários movimentos que lutam por igualdade, justiça, democracia, e, inclusive, o direito às mulheres, é vital que tenhamos consciência dos fatos históricos e que a luta segue. A conquista, ou a não conquista, não representa o fim de um ciclo. Assim fez Lauren Adrian (Jennifer Lopez) ao prosseguir com o jornal que investigava os assassinatos em série. A cidade ao qual o nome do filme se refere pode muito bem ser subentendida como sendo o mundo, pois as várias formas de opressões –físico, psicológica e moral-, é universal, apresentando-se de diferentes formas e combatidas de diferentes maneiras, mas que ainda persiste. E o silêncio aos poucos ganha voz, mesmo que concomitantemente a isto outra corrente busque incessantemente sufocá-la. Mas como disse Michelle de Perrot,  “nesse silêncio profundo, é claro que as mulheres não estão sozinhas”.

*Graduado em Ciências Sociais pela Fundação Santo André-SP. Cursando especialização em História, sociedade e cultura. Professor de Sociologia no Ensino Médio na rede estadual de São Paulo.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e docente do Centro de Educação dessa mesma instituição de ensino. Fundador e editor do Blog Café com Sociologia. Pesquisa as temática "movimentos sociais" e "ensino de Sociologia".

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  1. Dana
    dezembro 05, 15:35 Dana

    Eu não sei nada sobre Martin Sheen ao filme “Dever e Honra” ( http://assistirfilmes.co/2799-dever-e-honra-2015.html ). Mas este é um ator muito bom !!

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