A necessidade de dizer “minha opinião” como isca da mediocridade

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A necessidade de dizer “minha opinião” como isca da mediocridade 
Por Roniel Sampaio Silva

Uma palavra tem ganhado mais evidência na última década: opinião. Nestes últimos anos o desejo das pessoas não é formular uma opinião e sim manifestar a todo custo algo que elas acreditam ser uma genuína expressão do seu eu que está sendo ocultada sob o véu conspiratório da realidade. Ao contrário do que se pensa, opinar não é uma ação imediata ou de ímpeto. Ninguém tem obrigação de manifestar uma opinião sem ter as referências básicas para tal, ainda assim elas insistem em fazê-lo.

Opinar vem do vocábulo latino “opinare” que significa expor, julgar, manifestar, formar juízo. Opinar ou manifestar opinião remete a pelo menos três momentos: i) é necessário ter uma instigação ou provocação, uma “isca”; ii) É necessário ter o mínimo de conhecimento sobre o assunto para abordá-lo de maneira crítica e debruçar-se em referências que ajudem a iluminar o assunto; iii) por fim, e menos importante, você deve evidenciar o seu ponto de vista. Cabe ressaltar que é mais importante evidenciar para si do que para os outros. Todas essas etapas são sistemáticas, ou seja, não dá para expor uma opinião sem “ruminar” a provocação por meio de referências sobre o assunto. Torna-se portanto necessário processar e filtrar o que foi dito a ponto de criar algo diferente da “isca” que foi inicialmente mordida.

Quando alguém é provocado por uma indagação e não busca fontes para avaliar e ruminar criticamente o assunto, a isca não é digerida adequadamente . Então, o que geralmente acontece é que a indagação fisga o “opinante”, o qual geralmente reproduz a informação sem crítica alguma, achando que ali está uma genuína, sofisticada e autônoma expressão crítica. Muitas vezes o expositor mal sabe o que exatamente está defendendo.

O interlocutor na sua ingenuidade acha que está a manifestar uma opinião, porém , tão somente está reproduzindo uma informação que foi meticulosamente plantada na forma de isca. Somos fisgados o tempo todo por conta de uma vontade exacerbada e desnecessária de manifestar “opinião” sem ter conhecimento adequado sobre o assunto.

O jargão “minha opinião” tornou-se uma necessidade existencial barata. “Opino logo existo”; existo num turbilhão de informações vazias das redes sociais. Ser uma pessoa “sem opinião” é tido como algo inferior, sem personalidade e sem expressão. Ser um falante irresponsável parece ser mais importante.

Nenhum de nós está imune a ser fisgado. Todos estamos dentro de um jogo de relações de poder. O que fazer pra escapar disso? Uma boa dica é buscar checar informação exaustivamente; embora tenhamos afinidade com ela. Feito isso, as contradições ficarão mais evidentes e certamente irá diminui a possibilidade de cometer a garfe de defender uma ideia a qual não sabemos sequer responder perguntas básicas sobre ela.

Melhor mesmo é ruminar ideias até o ponto em que elas sejam maduras suficientes para eu compartilhar com alguém. Já dizia o ditado, boca fechada não entra mosca e muito menos morde a isca da falsa ideia de “minha opinião”, cujo paradoxo se revela na medida em que milhões de outras pessoas repetem o mesmo jargão.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Armesto
    agosto 07, 19:23 Armesto

    Muito bom o teu artigo! Confesso q muitas vezes tenho preguiça de formular uma opinião embasada em conceitos mais profundos, deixando me levar pelo indagar popular. Como tu citas na dissertação, opinar é algo fundamental para aceitação social! Com isso finalizo com uma repetição de informação coloquial, a qualidade da emissão de informação é algo psicossocial, chegando na indagação de Paulo Freire nosso conhecimento em sua maioria no Brasil ainda é arcaico naquele estilo bancario, ainda não há muitos praticantes da educação libertadora, e parteiros de pensadores, creio q com esse blog tu estás levando um pouco dessas constextacoes com isso parindo contestadores e “bons cidadãos”. Abraços de A.Armesto.

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