Do testemunho a relegação do abandono

Do testemunho a relegação do abandono

Por Felipe Onisto [1]

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O Homo Sacer é uma figura do direito romano resgatada por Giorgio Agamben para simbologia da política ocidental. Sua consubstancialidade emerge do poder soberano direcionando a vida nua – biopolítica. Na leitura surge o desenho do abandonado, ente que não se enquadra nas características humanas, logo, é desassistido pela égide do aparato jurídico, movimento potencializado nos campos de concentração nazistas, sobretudo, com o Muselmann. É um matável, sem que implique pena, porém, insacrificável. Nesse caso, o estado de exceção se tornou regra. 

 Na condição de vida nua é entendido como mero ser vivente, movimento que delibera sobre o corpo. Nos campos de concentração, essas figuras eram encaradas como segmentos de produtividade. Desamparados pela própria sorte foram esvaziados de sentido pela alegação de contrariarem o poderoso, nos espaços todos deveriam morrer, era apenas uma questão de tempo. Aos que cometem o ato, em nada se implica, primeiro, porque os ordenamentos jurídicos foram suspensos, segundo, porque não há pecado em adiantar a morte de cordeiros aprisionados pelo fado. 

Frente a Agamben, os campos jamais pararam de se reproduzir, cotidianamente presenciamos as práticas, sejam nos controles de segurança, políticas de saúde, regras, hierarquia, propostas jornalísticas, dentre outros. No limiar, há sempre uma proposta de vida, seja na caracterização dos discursos, consumo e produtividade, isso implica no desenquadramento e relegação do outro a condição de Homo Sacer. Ao levar em consideração o Nazismo, os dispositivos que antecedem as execuções foram fundamentais para o abandono da vida. Conhecidos como desumanização, implicavam na descaracterização da pessoa e renegação da cidadania, após o ritual, eram tragados pela noite. 

Ao levar em conta os fatores e aceitar que toda política ocidental é biopolítica, vivemos cotidianamente os pressupostos. Assim como o nazismo deu maiores dimensões a Tanatopolítica, os movimentos de rua ocasionados pelo: segundo turno da eleição presidencial de 2014, operação Lava Jato do MPF/PR, movimentos pró-impeachment e contrários, principalmente nos testemunhos da opinião pública, vislumbra-se a desconstrução do diferente, relegando a Homo Sacer, talvez o que nos afasta da totalidade dos campos, seja a falta do finado. As falas expressam a insuportabilidade do outro. Recaímos no maniqueísmo, ideologia – falsa representação em estado puro. Rebaixar o humano tornou-se regra, expressar o testemunho de coxinha ou petista é a chave para o abandono.

[1] Felipe Onisto é sociólogo, mestrando pelo PMDR e professor da Universidade do Contestado – UnC.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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