Trabalhando a “Teoria do Habitus” a partir da música Xote da alegria, do grupo Falamansa

Bourdieu

Trabalhando a “Teoria do Habitus” a partir da música Xote da alegria, do grupo Falamansa

Por Cristiano das Neves Bodart

Em tempo de consumismo um dos temas que julgo importante de ser trabalhado com os alunos é a “Teoria do Habitus”, de Pierre Bourdieu. Em síntese, me refiro a construção das predisposições que determinam, em grande medida, nossas ações e gostos (inclusiva ao consumismo).

 

Uma dica de como transpor essa teoria à realidade do aluno é partindo do uso de uma música. Minha sugestão é utilizar trechos da música “Xote da Alegria”, do grupo Falamansa. Farei algumas contribuições iniciais nesse sentido.

 

 

A música se inicia com uma dúvida representada na expressão “se”; seguido de indicação de que é possível que “alguém” houvesse mandado “ser o que se é” e “gostar do que se gosta”. Sugiro antes de apresentar a teoria do habitus, levantar o questionamento junto aos alunos se o que somos e o que gostamos é uma “imposição” ou resultado de uma “influência” de “alguém”. Possivelmente algum aluno dirá que sim. Nesse momento pergunte quem seria esse influenciador ou impositor. É possível que ele indique o pai ou a mãe, por exemplo. Mas volte a perguntar se o pai é como é por “imposição” ou resultado de uma “influência” de “alguém”. A proposta é levá-los à conclusão do papel de uma “estrutura social” na determinação ou na influência do que somos e do que gostamos (em outros termos, que não há liberdade absoluta). Nesse momento, traga mais um trecho complementar, mais especificamente o qual diz: “Se um dia alguém mandou/ Ser o que sou e o que gostar”. Neste trecho observamos aquilo que Pierre Bourdieu e outros teóricos afirmam: somos resultados da sociedade. Esse “alguém” pode ser entendido como um sujeito indeterminado no sentido de não conseguirmos “ver” de forma clara os agentes que nos influenciam, apenas percebendo que tal agente existe. A dificuldade de perceber é porque se trata de toda a estrutura social a qual estamos envolvido, não sendo apenas um agente, tal como a família, a escola, o amigo, a revista lida, o programa de TV assistido, etc.

 

Em seguida, a música traz uma afirmativa: “Não sei quem sou e vou mudar”. Essa afirmativa nos provoca a pensarmos outros elementos da teoria do habitus de Bourdieu: i) não temos pleno conhecimento do que somos, pois somos constituídos também de predisposições que não são completamente conscientes, embora não estejamos falando de inconsciente no sentido freudiano, mas algo intermediário; ii) teríamos, de fato, condições de mudarmos? Se temos, essa mudança é limitada pela estrutura social e pelos nossos habitus adquiridos ou somos completamente livres? Essa indagação nos provoca a pensarmos o seguinte: se nossos habitus são predisposições que moldam nosso gosto, o que quero ser não seria determinado pelo habitus adquirido sob influência da estrutura e minhas experiências sociais anteriores? Nota-se que o próximo trecho da música diz que “vou mudar/ Pra ser aquilo que eu sempre quis”. Se tal “mudança” é para o que sempre quisemos ser, não seria tal mudança no sentido do que nosso habitus adquirido indica? Se tal mudança será pautada nos habitus já adquiridos, essa realmente será significativa e autônoma?

 

No segundo momento, indague aos alunos se nós podemos mudar. Pergunte de que dependeria uma (suposta) mudança. Retome ao início da música e mostre que tudo parte da consciência de que somos frutos da sociedade a qual colabora diretamente no desenvolvimento em nós de predisposições que influenciará nosso gosto e ações. “Se” (o questionamento, a estranheza) é a chave para qualquer tentativa de mudança. A partir desse momento trabalhe com os alunos a importância de olhar o mundo sob uma perspectiva de estranheza, questionadora. A consciência de que fomos “vítimas” da sociedade do consumo, por exemplo, é o primeiro passo para lutarmos pela mudança de nós mesmos.

A partir dessas reflexões proponha aos alunos para responder as seguintes questões:

1. Por que somos consumistas? 

 

2. É possível mudarmos isso? Em caso afirmativo, o que é necessário como ponto de partida?

Texto de apoio ao professor referente a Teoria do Habitus, de Bourdieu: AQUI

 

Indicamos também um artigo que trata de como usar letras de músicas em aulas de sociologia: AQUI

Música: Xote da alegria

Grupo musical: Falamansa

Se um dia alguém mandou

Ser o que sou e o que gostar

Não sei quem sou e vou mudar

Pra ser aquilo que eu sempre quis

E se acaso você diz

Que sonha um dia em ser feliz

Fala sério

Pra que chorar sua mágoa

Se afogando em agonia

Contra tempestade em copo d’água

Dance o xote da alegria

Se um dia alguém mandou

Ser o que sou e o que gostar

Não sei quem sou e vou mudar

Pra ser aquilo que eu sempre quis

E se acaso você diz

Que sonha um dia em ser feliz

Fala sério

Pra que chorar sua mágoa

Se afogando em agonia

Contra tempestade em copo d’água

Dance o xote da alegria

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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