Preconceito linguístico ou de classe?

untitled-1 Preconceito linguístico ou de classe?

Por Cristiano das Neves Bodart

O preconceito não é meramente linguístico. Se for ampliar a percepção desse fenômeno chegaremos a mesma conclusão apresentada pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, em sua obra “A distinção” (1979).

Sua origem está no preconceito de classe. Em toda a história os habitus dos economicamente desfavorecidos foram depreciados. Não é um problema de língua (ainda mais que não existe uma forma superior de escrita para além da classificação socialmente constituída), mas uma questão de classe. Para ficar mais fácil a compreensão basta imaginar situações reais. O jeito do pobre falar, escrever, de se vestir, o tom de voz usado, a forma de segurar talhares, de comer, de sentar, de ornamentar a casa etc., são sempre depreciados. Isso ocorre porque são os grupos dominantes que ideologicamente definem o que é belo e o que é feio, o que é elegante e o que é deselegante, o que é certo e o que é errado. Marx acreditava que as ideias dominantes são sempre as ideias da classe dominante de uma época, e nisso concordo com ele.

Vejamos que quando os ricos eram gordos e brancos, na Idade Média europeia, era esse o perfil apontado como ideal de beleza. Na época a camponesa era magra, devido suas dificuldades de alimentação e o trabalho pesado no campo, e de pele mais escura, devido os trabalho sob o sol; assim sua aparência estava classificada como feia. Hoje a classe social privilegiada tende a ter um perfil marcado pela magreza, cor bronzeada e corpo “escultural”, fruto de academias, cirurgias, bronzeamento natural ou artificial, etc. O pobre, ao contrário, é feio, pois tende a ter um aspecto diferente deste, fruto de muito trabalho, falta de lazer, de exposição ao sol, sem contar com a falta de acesso à cirurgias. tido como feio. Para ilustrar o que quero dizer, me reporto a uma frase que circula nas redes sociais: “Eu não era feio. Eu era pobre”. Vemos claramente que o que é definido como sendo belo está ligado a construções sociais que se dão em meio a relações de poder/dominação.

Historicamente, o poder esteve nas mãos dos detentores do capital econômico, o que os possibilitavam, por meio dos aparelhos ideológicos, definir o que seria certo e errado, belo ou feio. Se nos reportamos às mudanças entre as classes que detiveram o poder (revoluções), veremos como essas definições de feio e bonito, certo e errado mudaram. O que era certo (e heroico) na época dos imperadores (invadir propriedades alheias e tomar os bens, ou os despojos) passa a não ser mais certo quando a burguesia toma o poder (interessava agora criar leis de preservação do patrimônio privado). Um bom livro que demonstra brilhantemente como se formam os gostos é a obra “O processo civilizador”, de Norbert Elias. Nesta obra fica claro a relação dessas classificações (que criam tais preconceitos contra os desprivilegiados) como fruto de ideologias das classes que detiveram no poder.

Disto isto, chamo a atenção para superarmos essa visão particularista e simplista de que existe um “preconceito meramente linguístico”. Se quisermos compreender e romper com esse preconceito devemos encará-lo em sua forma real e complexa, como preconceito de classe. Não que o preconceito linguístico não existe, mas este é apenas um dos desdobramentos do preconceito de classe.

Como citar esse texto:

BODART, Cristiano das Neves. Preconceito linguístico ou de classe? Blog Café com Sociologia.  2014. Disponível em: <linkdapostagemaqui>. Acessado: dia, mês, ano.

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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