Traficante suspeito ou policial? Duas percepções sobre o assunto

Por Roniel Sampaio Silva

 

O programa Encontro com Fátima Bernandes no dia 21/11/2016 instigou um questionamento o qual gerou uma polêmica em torno do tema. Na ocasião a apresentadora perguntou aos convidados quem eles socorreriam primeiro, um traficante gravemente suspeito ou um policial ligeiramente ferido. O fato dos convidados terem escolhido salvar o suspeito de ser traficante em detrimento do policial gerou muita polêmica.  Para além do senso comum é possível analisar o assunto sobre a ótica da ciência política, direito, ética médica e até cristã. O objetivo desse texto é mostrar que é necessário afastar questões sentimentais para não cometer injustiças. Para tanto, apresentaremos dois pontos de vista:

 

1. Laico

Primeiro é necessário salvar o que esta no estado mais grave, ponto. Esse é um protocolo médico. Cabe a nós socorrer e não julgar. Emergência tem prioridade sobre urgência. Cabe ao protocolo judiciário julgar com todo aparato de defesa e contraditório pra definir quem é culpado e inocente, posteriormente.
No bojo desses acontecimentos, o policial pode ser corrupto e o suposto traficante pode ser inocente. Nunca teremos informações suficientes, sobretudo nessa situação. Uma visão equivocada pode poupar a vida de um culpado e ceifar a vida de um inocente. Portanto, não assumam uma responsabilidade judiciária a qual não cabe a sua alçada. Seguir o protocolo médico é a melhor saída.

2. Cristão
Jesus escolheu o bandido e enquanto os soldados romanos o crucificaram. A doutrina cristã ensina que é necessário fazer o bem sem olhar a quem e que pessoas socialmente estigmatizadas como criminosos têm chances redenção, para isso é preciso ter oportunidade e força de vontade [de arrepender-se de seus pecados]. Foi o caso de um dos crucificados:

“E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós.
Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?
E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.
E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.” Lucas 23:39-42

Em face do exposto é necessário ser cuidadoso para não comentar injustiças. A temática que envolve violência e criminalidade é explorada de maneira emotiva e muitas vezes apelativa e sensacionalista. Tal abordagem afasta o pressuposto da presunção de inocência, competência exclusiva de julgar por parte do judiciária e até ideais religiosos de amor ao próximo.

 

ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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