Saiba o que é Sociologia Católica

image_pdfimage_print

Em nome do pai, do filho e do espírito sociológico!? Notas sobre a Sociologia Católica no Brasil

Por Marcelo Pinheiro Cigales*

É comum entre os estudantes de Ciências Sociais, graduados e até mesmo professores universitários a ideia de que a Sociologia constituiu-se no Brasil como uma ciência crítica, contestadora e até mesmo perigosa para aqueles momentos políticos de suspensão democrática. No entanto, essa ideia é equivocada se tivermos em perspectiva que a Sociologia em seus primórdios, foi caracterizada por diferentes perspectivas ideológicas.

Mais especificamente no campo educacional, a obrigatoriedade do ensino da sociologia antecede a ciência sociológica, caracterizada pela criação dos primeiros cursos superiores no país, em 1933 na Escola Livre de Sociologia Política, em 1934 na Universidade de São Paulo, e em 1935 na Universidade do Distrito Federal. No entanto, a sociologia escolar não reflete a sociologia científica nesse período, basta pensarmos na pluralidade de manuais escolares produzidos por diversos intelectuais, com cunho ideológico distintos e matrizes teóricas divergentes, tais como a Sociologia Católica ou Cristã.

Essa concepção de sociologia foi marcada pelos interesses da Igreja de formar uma sociedade assentada nos princípios morais católicos. Cabe salientar que nos anos de 1930, quando a sociologia estava presente nas escolas normais, no ensino secundário e no ensino superior, a Igreja mantinha sob seu domínio grande parte desses estabelecimentos de ensino, e nesse sentido, demandava o desenvolvimento de uma perspectiva da disciplina que fosse na corrente do seu projeto de sociedade. Dentre as dezenas de manuais desse período, descrito por Meucci (2000), uma série deles é destinada a Sociologia Católica. Dentre eles está o manual de Alceu Amoroso Lima, o qual faz uma síntese dos pressupostos dessa sociologia entre nós.

No manual “Preparação à Sociologia” escrito em 1932, Amoroso Lima, também conhecido pelo pseudônimo de Tristão de Athayde, busca legitimar essa concepção de sociologia indicando sua superioridade em relação às demais. Para Amoroso Lima, a realidade sobrenatural deveria ser considerada na análise do mundo social; considerava ainda a existência de Deus, de um mundo sobrenatural e a ordem divina do ser humano. Além da compreensão dos problemas sociais, a sociologia católica deveria ter um cunho prático, voltada para a transformação e resolução dos problemas sociais, em especial aqueles enfrentados pela Igreja nesse período (divórcio, feminismo, comunismo, estado laico, etc). Assim, é comum no conjunto desses manuais, o enfrentamento das teorias socialistas, positivistas e de todas as concepções que fossem contrárias a existência da Igreja e de seus postulados.

Além do Brasil, temos indícios dessa sociologia na França, Estados Unidos, Argentina, Espanha[1]. A imagem que podemos ver logo em seguida, de Jesus Cristo pregando aos seus fiéis na capa de um livro de sociologia, publicado na Espanha na década de 1940, parece bizarro e não faz sentido se tivermos como base o pensamento sociológico atual, é dizer a representação de uma sociologia crítica e ancorada em autores consagrados pelo campo, tais como: Karl Marx, Émile Durkheim, Max Weber, etc. Mas para compreendermos essa imagem temos que estar atentos/as para aquilo que o Sociólogo Pierre Bourdieu dizia ao analisar o surgimento de um campo, neste caso de uma ciência e disciplina escolar: as disputas pelo discurso legítimo sobre o mundo social.

.

.

Elementos de Sociología Cristiana por Jose Zahonero Vivo e Miguel A. Martin Penalba. 1. ed. Editorial Marfil, Alcoy, 1947.

Fonte: Coletado pelo autor em julho de 2017 junto a Biblioteca Nacional da Espanha (Madrid).

 

Nesse sentido, a diferença entre a sociologia científica e a sociologia escolar reside no fato de que as regras da constituição desses saberes ocorreu de forma distinta. Além disso, para compreender a história do ensino da sociologia entre nós é preciso estar atento, por um lado, a “caixa preta” da escola (conjunto de documentos, artefatos e práticas que regem o funcionamento das disciplinas escolares) e por outro, pelas disputas entre os grupos sociais para quem a escolarização constitui um trunfo social, marcado pela imposição de um determinado projeto de sociedade.

E quando olhamos para a historiografia do ensino da sociologia no Brasil, parece que essas duas questões ainda são pouco trabalhadas, pois o mais comum são justamente os trabalhos que recorrem a fontes secundárias (documentos legislativos em sua grande maioria), e sequer colocam em destaque as disputas em relação as diferentes perspectivas de sociologia nesse período. Cabe salientar também, que uma história centrada no ensino superior, com destaque para as primeiras universidade e cursos superiores de sociologia e seus respectivos professores e intelectuais, dificulta a compreensão dos acontecimentos da sociologia escolar, que possui suas próprias características e especificidades.

.

.

 Referências

ATHAYDE, Tristão de. [Alceu Amoroso Lima]. Preparação à Sociologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, [1932], 1942.

BODART, Cristiano. Fragmentos de sociologia pré-acadêmica no ensino normalista de 1935. Em Debate, n. 13, p. 30-51, 2016.

CIGALES, Marcelo Pinheiro. A sociologia educacional no Brasil (1946-1971): análise sobre uma instituição de ensino católica. 150f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2014.

CIGALES, Marcelo Pinheiro. Raymond Murray e a Sociologia Católica no Brasil: notas sobre um manual da década de 1940. Revista Café com Sociologia, Piúma v. 4, n. 3, p. 110-122, 2015.

CIGALES, Marcelo Pinheiro; BODART, Cristiano. Por uma história do ensino da Sociologia: diálogos entre Brasil e Argentina Entrevista com Diego Pereyra. Revista Café com Sociologia, v. 4, n. 3, p. 156-169, 2015.

DAROS, Maria das Dores; PEREIRA, Elaine Aparecida Teixeira. A sociologia cristã e o pensamento de Alceu Amoroso Lima em um colégio católico de formação de professoras em Santa Catarina. Revista Brasileira de História da Educação, v. 15, n. 1 [37], p. 235-267, 2015.

MEUCCI, Simone. A institucionalização da Sociología no Brasil: os primeiros manuais e cursos. 158p. Dissertação. (Mestrado em Sociologia). Departamento de Sociologia. Universidade Estadual de Campinas. SP, 2000.

OLIVEIRA, Amurabi. Revisitando a história do ensino de sociologia na educação básica. Acta Scientiarum Education. Maringá, v. 35, n. 2, p. 179-189, July-Dec., 2013.

SERRY, Herve. ERRY, Hervé. Saint Thomas Sociologue? Les enjeux cléricaux d’una sociologiecatholique dans lesannées 1880-1920.  Actes de la Recherche en Sciences Sociales. 2004/3 (nº153). p. 28-40.

.

.

.

.

 

Notas:

* Marcelo Pinheiro Cigales é doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

[1] Mais sobre a questão ver os trabalhos de Meucci (2000), Serry (2004), Cigales e Bodart (2015), Cigales (2014; 2015), Oliveira (2013), Daros e Pereira (2015) e Bodart (2015).

 

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e docente do Centro de Educação dessa mesma instituição de ensino. Fundador e editor do Blog Café com Sociologia. Pesquisa as temática "movimentos sociais" e "ensino de Sociologia".

View more articles Subscribe
Leave a response comment1 Response
  1. Adriano Lopes
    agosto 24, 22:59 Adriano Lopes

    interessante, obrigado por compartilhar.

    reply Reply this comment
mode_editLeave a response

Your e-mail address will not be published. Also other data will not be shared with third person. Required fields marked as *

menu
menu
%d blogueiros gostam disto: