Como vem se configurando o subcampo de pesquisa “ensino de Sociologia”?

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Breve balanço do subcampo “ensino de Ciências Sociais” no Brasil*

Cristiano das Neves Bodart e Thiago Ingrassia Pereira
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A recente reintrodução da Sociologia como componente curricular obrigatório no Ensino Médio, sua presença intermitente e o histórico distanciamento dos cientistas sociais em relação à Educação são fatores que, em grande medida, explicam a tardia configuração do subcampo de pesquisa “Ensino de Sociologia”. Ainda que hoje tenhamos elementos indicativos de certa configuração de um subcampo, este não se encontra consolidado, assim como a própria presença da Sociologia no Ensino Médio[1].

 Se, por um lado, há muitas “pedras” a serem postas nos fundamentos do subcampo de pesquisa, por outro, vem crescendo substancialmente o número de “operários” envolvidos na construção dos alicerces. Estudos recentes vêm destacando elementos que atestam o crescente engajamento de pesquisadores, professores e alunos de programas de pós-graduação em estudos cuja temática é ensino de Sociologia. Se no ano de 2000 apenas um grupo registrado no CNPq havia se dedicado ao tema ensino de Sociologia, em 2013 esse número havia saltado para 22 grupos (NEUHOLD, 2015). Eras e Oliveira (2015), por sua vez, evidenciaram o crescente número de livros coletâneas nos últimos anos que tiveram por escopo o ensino de Sociologia. Bodart e Cigales (2017) destacaram, ao observar a presença da temática dos trabalhos de pós-graduação stricto sensu brasileiros, que houve uma recente ampliação do interesse pela temática ensino de Sociologia no âmbito da pós-graduação stricto sensu brasileira. Essa mesma constatação havia sido, anos antes, feita por Handfas (2011) e Handfas e Maçaira (2014). Até 2006 nenhum periódico havia dado espaço para um dossiê sobre ensino de Sociologia, o que aconteceu apenas em 2007, por iniciativa das revistas Mediações e Cronos (BODART, SOUZA, 2017). Segundo esses mesmos autores, até o junho de 2017 havia sido lançado 24 dossiês sobre o ensino de Sociologia, envolvendo, em 10 anos, 19 revistas, 27 organizadores e 197 autores. Assim, nota-se uma recente abertura de espaços privilegiados para a divulgação do crescente número de pesquisas desenvolvidas no país.

Ainda que diversos dossiês tenham sido publicados nesses últimos 10 anos, a ABECS, buscando colaborar para a consolidação do subcampo de pesquisa em questão, lança o “Cadernos da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais” (CABECS) a fim de que um espaço destinado exclusivamente a publicações de pesquisas sobre o ensino de Ciências Sociais fosse viabilizado no Brasil. Assim, observamos um esforço no sentido de compreender a evolução do subcampo “Ensino de Sociologia”. Todas essas pesquisas são indicativos quantitativos da ampliação da  presença da temática “Ensino de Sociologia” na academia brasileira. O maior interesse pelo ensino de Sociologia como objeto de estudo relaciona-se a dois fatores correlatos: i) a presença da Sociologia no currículo do Ensino Médio e; ii) o recente e significativo incremento no número de cursos de licenciatura em Ciências Sociais no Brasil destacado por Oliveira (2014). Esses dois fatores, por sua vez, impactaram substancialmente na produção de livros didáticos de Sociologia. Ainda que tenhamos um crescente volume de pesquisas em torno do ensino de Sociologia, muitas perguntas já formuladas ainda não encontraram respostas satisfatórias, assim como muitas indagações que virão a ser fundamentais à consolidação desse subcampo de pesquisa ainda não foram formuladas. Bodart e Souza (2017) observando os artigos publicados nos 24 dossiês sobre ensino de Sociologia, constataram que as três maiores preocupações presentes nos artigos são “a institucionalização da Sociologia escolar”, “a formação de professores de Sociologia” e a “forma como o ensino dessa disciplina vem sendo percebida por professores e alunos”. Nota-se que as preocupações estão diretamente ligadas a elementos importantes para o estabelecimento da presença da Sociologia no Ensino Básico, fato importante para a consolidação do subcampo de pesquisa. Por outro lado, são escassos nesses dossiês os artigos que buscam discutir as condições de trabalho do professor de Sociologia e seu perfil.

Se por um lado, por décadas a quase ausência da Sociologia no currículo escolar teria sido fator importante para seu o ensino não fosse objeto privilegiado na Sociologia, as atuais incertezas parecem fomentar muitas pesquisas, algumas se manifestando militância em prol de sua permanência no currículo. Ainda que, de certa forma, já configurado e em franca expansão, esse subcampo encontra-se em processo de consolidação, carecendo ainda, por exemplo, de ampliação de linhas de pesquisas em programas de pós-graduação de Ciências Sociais e Sociologia, ainda que muitos trabalhos já veem sendo desenvolvidos no interior de programas que não possui uma linha específica para o ensino de Sociologia. As dificuldades para isso são grandes, como  bem destacou Ileizi Luciana Fiorelli Silva (2016, p. 237).

Uma linha para ser sustentada em um programa, que depende da avaliação da CAPES,  precisa ter número de docentes com produção qualificada suficiente para manter a nota de avaliação do programa. É uma competição dificílima não só para o “ensino de sociologia”, mas para qualquer temática. As dificuldades de constituição do tema como objeto e linha de pesquisa nos programas de pós-graduação são mais complexas do que as explicações correntes que dizem que há “discriminação”, “ preconceito”, etc. Sem dúvida que nas disputas no campo cientifico há hierarquia dos objetos e eles são classificados e reclassificados constantemente.

Assim, a ampliação de linhas de pesquisas depende do aumento do número de pesquisadores se dedicando ao tema, do volume e da qualidade das publicações. O cenário atual é animador. Segundo Silva (2016), no ano de 2013 o documento de avaliação da Sociologia da CAPES havia identificado 9 programas com menções, ementas e um com a linha de Ensino de Sociologia num total de 49 programas avaliados. “São programas com avaliação positiva de 7 a 4, apenas dois com nota 3. Note-se que isso não é pouco se pensarmos no tempo de obrigatoriedade da disciplina no Ensino Médio”, destacou Silva (2016, p. 237). Além dos importantes espaços que o subcampo vem conquistando no interior da Associação Brasileira de Sociologia (SBS) e da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), fui fundada, em 11 de maio de 2012, a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS). A nova entidade passa ocupar um lugar novo no cenário das associações científicas da área, pois tem como característica principal e compromisso fundante o ensino de Ciências Sociais, procurando atuar tanto na dimensão acadêmica, como escolar/pedagógica.  […]

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Notas:

*  Trecho do texto “Breve balanço do subcampo “ensino de Ciências Sociais” no Brasil e o papel da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais – ABECS”, de Cristiano das Neves Bodart e Thiago Ingrassia Pereira, que abre a primeira edição dos Cadernos da Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (CABECS).

[1] Estamos presenciando um contexto adverso com a chamada “Reforma do Ensino Médio” promovida pelo Governo de Michel Temer, que assume após polêmico processo de impeachment  da presidenta Dilma Rousseff. Iniciada via Medida Provisória (MP 746/2016) e materializada na Lei nº 13. 415, de 16 de fevereiro de 2017, a atual “Lei da Reforma”, em relação à disciplina de Sociologia, em seu Art. 3º § 2º, prevê que “a Base Nacional Comum Curricular referente ao ensino médio incluirá obrigatoriamente estudos e práticas de educação física, arte, sociologia e filosofia”. Percebe-se que a nova legislação apresenta retrocesso em relação à Lei nº 11.684/2008, que previa a obrigatoriedade da disciplina e não de “estudos e práticas”.

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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