Posso ir ao Banheiro?

Por David Morel

Acorda, é hora de aula! É dia útil, muito útil. Piloto automático ativado. Entre quatro paredes, sentados em seus respectivos lugares, enfileirados, uniformizados, olhando pra frente, lápis na mão, caderno na mesa. O horizonte termina no quadro. Limitados numa bolha de docilização, relações superficiais, individualismo, hierarquização, onde quase tudo é pré-programado. Bolhas produzidas pela maquinaria política de controle social. Potenciais inexplorados, desejos engavetados, juventude silenciada. A escola não conhece seus alunos!

carteiras, sala de aula, liberdade, reflexão

Rodeados de folhas de papéis, ordens, horários, modelos e fórmulas em uma gaiola onde, na maior parte do tempo, nada se cria, nada se experiencia, nada se desperta, nada se descobre, nada se transforma, nada se move, nada se liberta. Os minutos passam lentamente. Os dias parecem ser sempre iguais e descartáveis. Debaixo do tapete, reina a indústria de seres prescritos, vidas robotizadas e mentes alienadas. Não é à toa que nela se transborda tanto estresse, ansiedade, depressão, violência, exaustão, sedentarismo, vícios, crises existenciais… Pois é, de vez em quando eles travam e não “rendem” tanto assim. Mas de repente, no último ano, a liberdade é permitida na linha de montagem: Agora eles têm que “escolher o que querem ser no mundo”, temos o auge do conteudismo e é preciso estar a todo vapor.

Muita informação, pouco conhecimento. Muita “ensinagem”, pouca vivência. Muito trabalho, pouco sentido. No que se aprende em sala de aula, prevalece aquilo que não possui utilidade prática e que, portanto, se direciona naturalmente ao esquecimento. O conteúdo é vomitado em cima dos alunos num ritmo constante, pra depois ser vomitado por eles em cima da prova e fica lá, não sai do papel e, por fim, vira um número. Apenas uma mera nota vazia, exigida para a aprovação nas universidades. Esses números refletem aprendizados artificiais e o armazém de conteúdo na cabeça do estudante, existem como ferramenta pra eliminar e segregar, nada muito além disso.

Aqui a educação é tão moderna que é tratada como uma fábrica, aliás, a única delas que não evolui há anos…

 :::::::::: Eis Nossa Extraordinária Cela de Aula ::::::::::

– Vocês têm 5 horas e 30 minutos, boa prova – A, B, C ou D? – O sinal já bateu – Isso não é postura de estudante, sai de sala! – Para de reclamar, você só tem que estudar! – Seja um aluno exemplar – Vou fazer a chamada – Copiem o quadro – Presta atenção, isso cai no vestibular – Está abaixo da média, vai pra recuperação! – Fiquem quietos! Quero todos olhando pra mim – Você está rendendo pouco, assim vai repetir de ano – O que acha que vai ser na vida desse jeito? – Vale nota? – Qual é o prazo de entrega? Posso ir ao banheiro?

Até quando?

David Morel – 17 anos – 
Formação: Wakatipu High School (Nova Zelândia) ; Escola Eliezer Max 
Pretende cursar Psicologia em 2018
[email protected]

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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