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O cristão: entre Direita e Esquerda

cristão

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Por Cristiano das Neves Bodart

Cristão é um adjetivo dado aqueles que seguem as ideias de Cristo (01-34 d.C). Em se tratando de Direita e Esquerda não consigo compreender como alguém diz ser cristão sem, contudo, compartilhar das ideias básicas de Cristo: amor, paz, compreensão, respeito, tolerância e igualdade.
Alguns dirão que não existe direita e esquerda, afirmativa que não se sustenta (mas isso é outra discussão).
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Para compreensão inicial (não continue a leitura sem entender esses dois pontos):
Grosso modo podemos assim classificar:
Esquerda: Basicamente trata-se de uma posição ideológica que defende práticas voltadas a uma sociedade mais igualitária. Defende uma melhor redistribuição de renda e respeito às diferenças e prega mudanças na realidade socioeconômica em prol da coletividade.
Direita: Basicamente trata-se de uma posição ideológica conservadora e defensora, hoje, do Neoliberalismo Econômico. Defende a meritocracia e a manutenção da realidade socioeconômica em prol da individualidade.
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A questão que não consigo entender é a visão de alguns cristãos se colocarem contrários às ideias de Esquerda, como se essas fossem “diabólicas” (o que não é, necessariamente, a mesma coisa do que defender partidos ditos como de esquerda). Digo isso porque se analisarmos, ainda que superficialmente, a vida de Jesus Cristo e de seus seguidores (cristãos primitivos) veremos com muita facilidade se Jesus era de Direita ou de Esquerda.

Como bem apresentou o poeta cristão, Ariano Suassuna, Herodes e Pilatos eram de direita, representavam o status quo da época. Defendiam o crescimento do Império Romano, o uso da força na manutenção da “harmonia social”.

 

Jesus Cristo era, sem dúvida, de Esquerda. Alguns diriam que os objetivos de Jesus não estavam ligados à política partidária; isso acredito ser verdade. Porém, ao buscar seu objetivo para o “Reino dos Céus” teve que se posicionar politicamente no mundo – uma vez que estava situado em um contexto histórico, político e social. Não era possível ser neutro. Restava ficar do lado dos explorados ou dos exploradores; escolheu os subjugados.

Jesus de Nazaré viveu em uma sociedade marcada pelo Latifúndio (diversas de suas parábolas tiveram a “terra” como pano de fundo) e quando ele se colocava contrário a riqueza (embora pensamos o conceito de riqueza com nossas experiências atuais, sendo visto como capital) estava se colocando contrário ao latifúndio. A riqueza, ou seja, a concentração de terras nas mãos de poucos, era visto por Jesus como bastante negativa (“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus” Mt. 19:24). E qual era a sugestão de Jesus? Sua orientação era a partilha: “vende tudo o que tens e dê aos pobres” (Mt. 19:21).

Jesus se pôs também contrário à opressão dos ricos sobre os pobres. Denunciou a exploração da época que se dava por meio de impostos que enriqueciam uma classe social e esmagavam outras na pobreza. Atualmente a forma de exploração se dá, em maior parte, por meio das relações assalariadas (na época de Jesus o trabalho era predominantemente artesanal e familiar).
Quando Cristo, por exemplo, curava nos sábados e não observava as leis da época (regidas por princípios teocráticos judaicos) estava se colocando à Esquerda da Direita política da época, isso pela atitude subversiva e pelo rompimento com a ordem social imposta.

Jesus viveu na companhia dos mais pobres e oprimidos pela Direita Política da época. Sua atenção esteve prioritariamente sobre os mais pobres, carentes e marginalizados pela sociedade. Notaremos nos evangelhos um constante embate entre Jesus e o Poder Político de Direita da época. Jesus foi um defensor das minorias desprivilegiadas ou vitimadas por preconceitos sociais e/ou religiosos.
O que mais caracteriza hoje a Esquerda? Certamente a ideia “comunista” de igualdade social.
Se olharmos para os Cristãos do primeiro século, mais especificadamente no livro de Atos dos Apóstolos veremos qual era o posicionamento desses:

“E da multidão dos que creram, um só era o sentimento e a maneira de pensar. Ninguém considerava exclusivamente seu os bens que possuía, mas todos compartilhavam tudo entre si” (ATOS 4: 32).

E ainda,
“Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro da venda e o colocavam aos pés dos apóstolos, que o distribuíam segundo a necessidade de cada um” (Atos 4:34-35).
Pelo que parece o Cristianismo foi precursor das ideias comunistas, chegando a colocá-las em prática no primeiro século.

Não é lúcido pensarmos que porque alguém da Esquerda se corrompeu, como fez Judas e outros contemporâneos de nossa época (enriquecendo-se a si mesmo com uma espécie de “caixa dois”), que devemos satanizar os princípios defendidos por Jesus. Fazer isso não seria deixar de seguir os princípios cristãos e, portanto, deixar de ter condições de ter esse adjetivo?

Por fim, termino dizendo que o conservadorismo da Direita da Época de Jesus, o crucificou justamente por ter sido interpretado como sendo de Esquerda.  
Hoje Jesus seria assassinado pela milícia a mando de um direitista conservador que se diz cristão. Daqueles que fazem gestos de armas com as mãos.
Publicado originalmente em 8 de outubro de 2014 
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