Juventude revolucionária? Será que não fazem jovens como antigamente?

Juventude revolucionária? Uma análise de culturas políticas e de perspectivas de gerações

Por Cristiano Bodart

 

Já ouvi diversas vezes a expressão que “não fazem mais jovens como antigamente”. Tomara que seja isso uma verdade, pois o “espírito jovem de ontem” parece ter data de validade.
Vemos figuras que antes eram jovens que, se preciso fossem, enfrentavam o Estado. Jovens que com suas bandas de música cantavam afrontas aos poderosos ditadores e denunciavam o status quo, mas que se tornaram velhos (e) reacionários de hoje. O espírito de juventude revolucionária foi-lhe arrebatado. Espírito que motiva e que nos faz indignados frente aos descalabros sociais.
Os filósofos afirmam que as crianças têm uma sensibilidade maior para observar e maior motivação para indagar. Os jovens, me parece, que têm uma sensibilidade maior frente às injustiças e maior motivação para se indignar. Será que Che Guevara morreu com o “espírito revolucionário” por que morreu jovem? De outra forma estaria ele com sua “boca, cheia de dentes, escancarada esperando a morte chegar”? Precisamos fazer jovens que não percam a capacidade de indignar-se concomitantemente com a perda de melanina de seus cabelos.


Essa semana, em São Paulo, um pai foi buscar o filho de 16 anos, que participava de um protesto de black blocs no Tatuapé, para levá-lo para casa. No encontro seguiu-se o diálogo:
– Deixa eu protestar. Eu não quero isso. Esse governo é errado. Eu tenho direito de protestar, dizia o jovem.
– Você vai ter o seu direito quando trabalhar e ganhar o seu dinheiro, tá? Eu sou seu pai, escuta o seu pai, dizia o “velho pai”.
Pegou o filho pelo braço, retirou dele sua máscara, dizendo “você não é criado para isso. Eu trabalho para te sustentar, não é para você esconder a cara” e o colocou para dentro de casa.
O jovem ainda retrucava:
– Eu quero escola, eu quero saúde. Deixa eu protestar. Minha avó quase morreu num hospital público. Você acha certo isso? Pelo amor de Deus, deixa eu correr atrás. Tanta gente morrendo. Deixa eu fazer a minha parte, ajudar um pouco. Eu sei que eu tenho 16 anos. Eu não vou me machucar, relaxa.
O velho em resposta dizia:
– Eu pago a sua escola. Eu e sua mãe trabalhamos para te sustentar. Vamos para casa, por favor, R****. Você não vai mudar o mundo. Meu filho, você tem 16 anos, não é a hora agora. Eu te amo, cara. Você é meu filho. Eu estou pedindo demais? R****, um passo de cada vez – implorava o pai, na presença da imprensa que cobria a manifestação.
O rapaz, ainda argumentando que tinha o direito de protestar, foi arrastado pelo pai. E ambos foram para o conforto de casa. Não era hora de protestar por ter apenas 16 anos. Deveria ele esperar ficar velho, como o pai. Um passo de cada vez, ensinou seu progenitor. Espero que esse jovem não tenha sido forjado “como os jovens de antigamente”, pois aqueles desistiram de mudar o mundo há tempo e reduziram suas vidas ao individualismo e ao trabalho… para sustentar… o status quo. Não quero dizer com isso que apoio o vandalismo, muito menos o militarismo, mas ficar sentado no sofá de casa ensinando o filho de que não vamos mudar o mundo em nada ajudará na construção de uma sociedade melhor por meio de uma juventude revolucionária.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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