De gata borralheira a soberana: a sociologia e o efeito ENEM

 Marcus Vinícius Martins Barbosa*

Aconteceu de novo. Nem posso dizer que fui pego de surpresa. Eu já
sabia! Ao folhear a prova de ciências humanas e suas tecnologias do Enem
2014 (aplicada no último sábado), percebi como a sociologia está a cada
ano mais presente nesta avaliação, chegando a figurar em pelo menos 80%
das questões elaboradas. Mas, apesar de ficar muito feliz com isso,
faço mais uma vez críticas – e busco algumas respostas – em relação a
alguns equívocos que teimam em se repetir ano a ano. Eis algumas:

1. Porque a maior parte das instituições de ensino não valoriza a
sociologia, tanto em aspectos simbólicos quanto à alocação de carga
horária? Há ainda um estranhamento em relação ao fato de a sociologia se
colocar enquanto disciplina obrigatória nos currículos escolares. Tal
fato pode ser comprovado pelas inúmeras tentativas em retirar a
obrigatoriedade por parte de parlamentares ligados a uma elite
conservadora e autoritária que não vê com bons olhos o apelo que a
disciplina faz ao pensamento crítico. Infelizmente tal pensamento está
presente no cotidiano escolar, expresso em discursos de inferiorização
da sociologia diante de disciplinas há muito estabelecidas nos
currículos, tanto por professores quanto por gestores que teimam em
vê-la como disciplina decorativa, facilmente inteligível e que dispensa
maiores esforços dos alunos no sentido de compreendê-la.
2.
Partindo desse pressuposto, alunos assimilam tais preconceitos e passam a
ignorar o potencial crítico-hermenêutico que a disciplina tem, e passam
a vê-la com mera opinião, simples exercício de achismo. Procuro em sala
de aula superar tais barreiras, mas elas foram historicamente
construídas e infelizmente são reforçadas por pessoas que a princípio
seriam responsáveis por construir uma educação integrada que valorizasse
a reflexividade.
3. Sempre peço aos meus alunos que valorizem
todos os tipos de conhecimentos e que, a medida que as referências vão
se multiplicando, eles sejam capazes de buscar um sentido prático para o
que se aprende na teoria, consolidando assim assim sua bagagem
intelectual. Infelizmente o que se vê é uma desorganização generalizada
que se reflete no desespero pré-Enem, em que se confunde quantidade
(material, horas e horas de revisão, noites mal dormidas, questões
resolvidas, bizus, etc.) com qualidade. Vivemos um processo de
especialização precoce, pois os alunos do ensino médio já escolhem a
quais disciplinas se dedicar de acordo com o curso almejado. Eles só
esquecem um detalhe: o Enem cobra tudo, e não de forma compartimentada,
como alguns teimam em ensinar, mas de forma INTEGRADA!!! Então, aquele
aluno que foi a todas as aulas de redação e faltou a quase todas de
sociologia com certeza aprendeu técnicas para uma boa escrita, mas
esqueceu outra coisa: escrever o quê, “cara pálida”? Cadê o conteúdo?
Pra encerrar, gostaria de compartilhar minha alegria quando na manhã de
hoje minha prima adolescente, que sonha em ser arquiteta, me pediu pra
ler sua redação e dizer o que achava. Há tempos não lia algo tão bom
escrito por alguém da idade dela. Fiquei maravilhado ao perceber que aos
poucos jovens como ela se tornam capazes de pensar de forma complexa e
integrada. De certa forma, renovei minhas esperanças nessa moçada.
Enquanto professor de sociologia, não vou ficar lamentando sobre o que
já pontuei, mas tenho o dever de reivindicar a todos que de alguma forma
constroem a educação no Brasil: SENHORAS E SENHORES, MAIS RESPEITO POR
FAVOR!!! Pela sociologia enquanto disciplina, pela EXTREMA NECESSIDADE
DE DIÁLOGO entre os mais diversos saberes, pela transdisciplinaridade,
pela necessidade de um ensino médio integrado de fato, que dê
oportunidade aos nossos alunos de ingressarem em universidades (se assim
desejarem) como protagonistas e não como analfabetos funcionais. Aos
alunos, em especial, peço que amém tanto a busca quanto a construção do
conhecimento, que se sintam provocados e que provoquem, não com
indisciplina, mas com a sede de querer sempre mais. É o mínimo que
espero de vocês.

*É professor de Sociologia do Instituto Federal do Piauí – Campus Floriano. 

ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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  1. Maria de Fátima Oliveira e Sousa
    janeiro 10, 12:35 Maria de Fátima Oliveira e Sousa

    Olá! Sou professora do Ensino Médio com o conteúdo, Sociologia e concordo plenamente com você! Preparo meus alunos com aulas dinâmicas, divertidas com músicas, textos, imagens(charges..), filmes, debates… para o ENEM e tenho obtido ótimos resultados de ex-alunos, que voltam para agradecer dizendo o quanto a Sociologia o ajudou. Abraços. Fátima

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  2. Eryckson M. Reis
    abril 20, 02:10 Eryckson M. Reis

    Verdade. A Sociologia abrange conteúdos essenciais na preparação para o vestibular. E falando no ENEM, tal disciplina mostra-se uma necessidade, pela qual refletirá nas habilidades e competências pedidas na prova, seja História, Geografia, Biologia, Filosofia e etc.

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