Entre as velhas e as novas “caras” na política local: mudança ou permanência na próxima eleição?

Segue um texto meu publicado no jornal “Espírito Santo Notícias” (nº17, 2ª quinzena. 06/06/2012)

Entre as velhas
e as novas “caras” na política local: mudança ou permanência na próxima eleição?

Política parece ser um tema que, cotidianamente, não chama
muito a atenção da população em geral, mas em véspera de eleição desperta-se o
interesse pelo tema de tal forma que parte significativa do eleitorado se
manifesta com veemência em favor de um ou de outro grupo político, semelhante
as práticas das torcidas de futebol…

Aproveitando essa atmosfera que começa a ser formada, trago
uma reflexão que julgo importante. Trata-se da questão que envolve a escolha
dos mesmos políticos ou de novos nomes que surgem, o que convencionalmente chamamos
de “novas e velhas caras”.
Comumente afirma-se que
é saudável à democracia uma
alternância no poder (da administração ou da legislatura). As vezes tal
afirmação vem carregada de um desejo de mudanças estruturais na política local,
o que não garantirá melhorias. Grosso modo, existe uma interpretação de que um “nova
cara” estaria ligada a uma nova forma de governar ou legislar e, “velhas caras”
sendo entendidas como sinônimo de continuidade das antigas práticas. Certamente
esta interpretação é ingênua. As “velhas” ou as “novas” caras não estão
correlacionadas ao modelo de gestão e legislatura, não podendo ser associada à
mudanças ou  à permanências. “Novas
caras” não garante que novas práticas serão postas em práticas, uma vez que,
estas “novas caras” podem está inseridas em um grupo realizador de velhas
práticas; assim como, “velhas caras” podem se abrir para novas práticas. Certamente
este último é menos recorrente.
Outro problema que merece atenção é que a suposta “nova
cara” pode não ser fruto de um novo grupo. A suposta “nova cara” pode ser
apenas o “testa de ferro” do grupo tradicional. Uma verdadeira “nova cara” não
significa necessariamente um candidato desconhecido do meio social, mas um
indivíduo nunca inserido no poder e representante de um grupo, outrora não
representado. De outra forma, “velha cara” pode se desvincular do grupo que tradicionalmente
detém o poder e passar a representar novos interesses e caminhar rumo à mudanças
significativas.
Posto isto, quero chamar a atenção para o fato de que a
alternância no poder e a possível mudança na gestão ou na legislatura não está
necessariamente ligada ao candidato, mas ao grupo que este está vinculado. Em
outras palavras, se o eleitor deseja mudanças deverá escolher um candidato que
está vinculado com grupos comprometidos com transformações “desejáveis”. É
importante estar atento que mudanças não são sinônimas de melhorias.
Quanto a alternância no poder, não existe necessariamente
relação causal com a saúde da democracia ou ao maior desempenho dos que
estariam alternando-se no poder. A saúde da democracia depende mais da disputa
do que da alternância. Ou seja, o grupo que detém o poder político deve se
sentir ameaçado por outros grupos. A ameaça de perda do poder funciona como
estímulo à melhoria de seus trabalhos de gestão, administração, fiscalização e
de legislatura. O importante é existir oposições (no plural) que tenham reais
chances de conquistarem o poder político.
Como exemplo, notamos o fato noticiado por alguns meios de
comunicação referente a constante ausência de muitos dos vereadores de Piúma
nas sessões da Câmara. Essa prática aponta para duas possibilidades: 1.
estariam esses vereadores tão confiantes na reeleição que desprezam a
necessidade de desempenhar sua função real e; 2. não estão desejosos de
continuar na legislatura. Acredito que a primeira possibilidade parece se
enquadrar melhor à realidade piumense. Mas, por que tamanha confiança e,
consequentemente, relaxamento? Essa situação está ligada a falta de uma ameaça
concreta, contundente e presente da oposição e da certeza (pelo menos assim
indicam suas atitudes) de que a população não quer mudanças de “caras”, ou pelo
menos, não age para efetiva-la.
Para aqueles que acreditam que mudanças são necessárias,
afirmo que precisamos de “verdadeiras caras novas” (“novas caras” desvinculadas
aos “velhos grupos”), mesmo que suas propostas não sejam contundentes, ainda
que não representem efetivamente os grupos de outrora não representados, mas,
na pior das hipóteses, terão mais opções de voto e as “velhas caras” se
sentirão ameaçadas. Quem sabe estes não resolvem realizar de forma efetiva seu
papel real, ou ainda, quem sabe a população não os aposentam, já que “envelheceram”…
Isto é apenas uma questão de escolha e o período mais propício para isso se
aproxima.
Cristiano das Neves Bodart, mestre em Planejamento Regional e Gestão de Cidades/UCAM e doutorando
em Sociologia na Universidade de São Paulo/USP.
Visite também os blogs 
Estou correndo na frente, Mangue Sociológico e Ciência Social Ceará
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Sabrina Gomes
    setembro 22, 19:41 Sabrina Gomes

    Sem querer generalizar,mas como o texto diz precisamos de "caras novas" literalmente,pois os novos candidatos que surgem na maioria das vezes são apoiados por um candidato que já era do meio anteriormente.Por isso precisamos de indivíduos totalmente desvinculados e com propostas além de "bonitas" ,reais.Que sejam boas pessoas em todo o tempo e não apenas no período que os convém.

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