A importância econômica e política do nordeste para o Brasil

 

Por Roniel Sampaio Silva
A cada resultado eleitoral, a ignorância e o derrotismo de muitos eleitores servem de combustível para as mais sorrateiras expressões de preconceito e racismo. Nos últimos anos tem sido cada vez mais intenso tais manifestações, especialmente em relação ao Nordeste. Mediante a isso, faz-se necessário duas reflexões: a primeira em relação ao resultado da eleição e a segunda em relação a afirmação que o Sul e o Sudeste sustentam o Nordeste.
Na eleição passada, em 2010, houve uma acusação de algumas pessoas da região Sul e sudeste de que o Nordeste teria elegido um candidato contrária à vontade deles e por esse fato a expressão eleitoral do nordeste leva o país a um atraso segundo alegação de que a região é um grotão de miséria e de dependência oriunda de uma fragilidade econômica. Ocorre que, recalculando os votos mês excetuando a região norte e nordeste o resultado seria o mesmo. Na eleição seguinte, 2014, novamente aparece a mesma acusação. Dessa vez, como o resultado foi mais apertado, o Sul e o Sudeste deu 26,6 milhões de votos à candidata Dilma Roussef enquanto o Norte e Nordeste deram 24,5 milhões de votos; portanto, não foi o Norte e Nordeste que deram que elegeu a candidata, foi o país inteiro com um peso um pouco maior da parte da região Sul e Sudeste. Infelizmente falta ainda muita maturidade  para compreender que a democracia é a vontade da maioria, ainda que
essa vontade te desagrade.

Boa parte desse preconceito é fomentado por três aspectos: 1- Construção de esteriótipos regionais por parte da mídia; 2- Apresentação e leitura de dados de forma reducionista; 3- Limitações sobre a visão histórica sobre os ciclos econômicos do Brasil.

O país tem dimensões continentais, traz vários grupos e classes com interesses divergentes o que faz com que o desenho estatal seja arquitetado em favor de alguns grupos e em detrimento de outros. Portanto, esses grupos fazem uso da mídia para criar visões distorcidas sobre determinadas regiões, o que acaba criando um sentimento de parasitismo ou vitimismo de uma região em relação a outra. Uma forma da mídia incitar isso, é apresentando dados de maneira reducionista como o caso do mapa do resultado eleitoral, como apresentado abaixo. Mostra tais informações de maneira truncada remetendo aos eleitores a ideia de que todos os estados em azul votaram em um
candidato e os estados em vermelho votaram em outro. Quando na verdade há outras versões do mesmo mapa mostrando as informações de forma menos reducionista.

Mapa binário que tem sido divulgado de forma reducionista.
Por fim, um fato que costuma se apresentar em voga está associado ao esteriótipo construído pela mídia que coloca o Nordeste como atrasado e Sudeste como progressista. Ocorre que o Brasil tem mais de 500 anos de história, dentre os quais tal história foi marcada por ciclos econômicos que foram financiados por seus ciclos anteriores. O ciclo da cana de açúcar financiou o ciclo do ouro, este por sua vez financiou o ciclo do café  que por fim, com recursos federais, financiou nos tempos de Getúlio Vargas o processo de industrialização privilegiando a região sudeste.

Todavia, cabe lembrar que o nordeste sustentou praticamente sozinho o Brasil por longos 300 anos. Se não fosse o nordeste, não o Brasil não teria tamanhas dimensões e tampouco recursos para financiar outros sistemas econômicos. Com as palavras, Celso Furtado:

“A economia açucareira do Nordeste brasileiro, com efeito, resistiu mais de três séculos às mais prolongadas depressões, logrando recuperar-se sempre que o permitiam as condições do mercado externo sem sofrer nenhuma modificação estrutural significativa[…]A formação de um sistema econômico de alta produtividade e em rápida expansão na faixa litorânea do Nordeste brasileiro teria necessariamente de acarretar conseqüências diretas e indiretas para as demais regiões do subcontinente que reivindicavam os portugueses. De maneira geral estavam assegurados os recursos para manter a defesa da colônia e intensificar a exploração de outras regiões. De maneira particular, havia surgido um mercado capaz de justificar a existência de outras atividades econômicas.”(Furtado; Iglésias, 1959, p. 61)

Cada povo e região tem sua devida importância política e econômica dentro de uma determinado momento histórico. Cabe a nós, conhecer melhor essa história para a partir dela aprender a respeitar e valorizar o trabalho de cada povo e região.
Referências

FURTADO, Celso; IGLÉSIAS, Francisco. Formação econômica do Brasil. 1959.

ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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