Conceitos sociológicos em expressões cotidianas: preconceito

 

 

 

 

Conceitos sociológicos em expressões cotidianas: preconceito
Por Cristiano das Neves Bodart
Comumente ouvimos a seguinte frase: “Não sou preconceituoso!”. Tal frase está relacionada a um conceito sociológico importante para compreendermos a sociedade. Refiro-me a “preconceito” (substantivo) e/ou “preconceituoso” (adjetivo). No entanto, à luz da Sociologia não é possível não sermos preconceituosos.
A palavra preconceito traz, em seu sentido etimológico, a ideia de conceito prévio; daí a junção de “pre” e “conceito”. Enquanto que “pre” traz a ideia de algo anterior, existente de forma primária, antecedente, a palavra “conceito” deriva do latim “conseptus”, se referindo à construção ideal do ser ou de objetos apreensíveis cognitivamente.
Mas porque somos todos preconceituosos? Em nossas relações sociais, sempre que nos deparamos com o novo ou com o desconhecido buscamos elementos que, associados às experiências passadas, nos ajudam a “conhecer” o desconhecido. Goffman, em sua obra “A representação do Eu na Vida Cotidiana”, destacou como nos apropriamos das experiências passadas para compreender as novas experiências ou para nos situarmos e interagirmos da melhor forma possível nesse momento. Quando nos encontramos com uma pessoa idosa, por exemplo, acionamos nossa memória, nos apropriamos do conceito prévio de idoso para assim projetarmos nossa maneira de interagirmos com ele; quando encontro com um vendedor que nunca vi antes, recorro aos meus preconceitos da ideia de vendedor para interagir com ele da melhor maneira; temos, nesses exemplos, casos claros de preconceito. Dito isto, o preconceito está presente no nosso cotidiano, sendo importante para nossas interações sociais.

O preconceito é um artifício estratégico que “tomamos à mão” frente as novas situações, ou quando nos defrontamos com o não familiar, com o diferente e/ou com o desconhecido. Sem esse artifício, grande parte das situações sociais seriam para nós não compreensíveis no primeiro momento, sendo ainda mais difícil de manter uma interação com o estranho, com o novo ou o diferente.
No entanto, o preconceito passa a ser um problema quando significados pejorativos são atribuídos a outros indivíduos, grupos ou coisas de forma generalizada, sendo associados à cor de pele, à etnia, ao gênero, à classe social, à religião etc. Esse tipo de preconceito pejorativo é danoso, sobretudo no processo de reprodução da visão negativada e das relações de dominação (econômica, regional, política, sexual, social e cultural). O preconceito pejorativo colabora para que o que é pejorado seja compreendido como tal, (re)produzindo assim uma condição danosa ao outro ou à coisa. O difícil é fugir dessa prática (a consciência já é o primeiro passo), uma vez que somos frutos de uma sociedade pejorativamente preconceituosa.

Como citar esse texto:
BODART, Cristiano das Neves. Conceitos sociológicos em expressões cotidianas: preconceito. Blog Café com Sociologia. 2015. Disponível em: . Acesso em: dia mês ano.

 

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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Leave a response comment2 Responses
  1. Davi Holz
    outubro 26, 16:45 Davi Holz

    Excelente texto! Um conceito que, apesar de muito usado no cotidiano, poucos sabem o real significado. Parabéns não só pela explicação, mas por todo o site!

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  2. Unknown
    janeiro 12, 00:16 Unknown

    parabéns pela exposição… muito bom…

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