ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL SEGUNDO OCTAVIO IANNI*
A temática da estratificação social foi objeto de interesse de diversos trabalhos do saudoso Octavio Ianni. O sociólogo uspiano dedicou-se à compreensão das diferenças sociais e das injustiças a elas associadas, tendo como objetivo criar condições compreensivas que favorecessem o desenvolvimento de meios para superá-las.
No início da década de 1970, Ianni foi convidado pela Companhia Editorial Nacional para organizar a obra Teorias de Estratificação Social, na qual se dedicou a selecionar os melhores textos que tratavam do tema, reunindo contribuições clássicas e contemporâneas (dentre elas, artigos de Mills, Durkheim, Marx e Engels, Weber, Tönnies, Sombart e Lukács). De acordo com o autor, a “intenção foi apresentar textos que suscitassem reflexões e temas para pesquisa” (IANNI, 1973, p. 9).
A obra foi publicada em 1973 e é composta por 19 artigos, agrupados em quatro capítulos (Mudanças Estruturais, Castas, Estamentos e Classes). No início de cada capítulo, Ianni escreveu breves introduções, as quais nos apontam elementos riquíssimos para uma compreensão introdutória da temática geral da obra: a estratificação social. A seguir, destacamos parte dessas contribuições.
No que se refere à estratificação social, Octavio Ianni afirma que, para uma melhor compreensão do fenômeno, é necessário entender as estruturas econômicas e políticas da sociedade analisada, uma vez que, para ele,
“A maneira pela qual se estratifica uma sociedade depende da maneira pela qual os homens se reproduzem socialmente. E a maneira pela qual os homens se reproduzem socialmente está diretamente ligada ao modo pelo qual eles organizam a produção econômica e o poder político” (IANNI, 1973, p.11).
Nesse sentido, os três tipos clássicos de estratificação social (castas, estamentos e classes) estão ligados a essas duas estruturas de poder (econômica e política), ainda que elementos culturais também sejam importantes estruturadores da sociedade e, consequentemente, classificadores. Dessa forma, não pode escapar ao cientista social a interpretação desses dois elementos. Em suas palavras, “[…] não se pode compreender o processo de estratificação social enquanto não se examina a maneira pela qual se organizam as estruturas de apropriação (econômica) e dominação (política)” (IANNI, 1973, p. 11).
Para Ianni, a principal diferença entre os tipos clássicos de estratificação está na abertura ou na rigidez das estruturas sociais quanto às possibilidades de os indivíduos migrarem de um estrato para outro. “Na medida em que as estruturas de apropriação e dominação são mais ou menos abertas (ou rígidas), as condições e possibilidades de classificação e mobilidade social serão mais ou menos abertas (ou rígidas)” (IANNI, 1973, p. 11).
Nesse sentido, o que caracterizaria as classes sociais seriam as estruturas sociais próprias do capitalismo, que se apresentam abertas, possibilitando aos indivíduos a migração entre as classes ao longo de sua vida (podendo ascender ou descender no estrato social).
No caso das castas, as estruturas econômicas e políticas se apresentam como decorrentes de condições religiosas, raciais, hereditárias e ocupacionais, e essas categorias parecem predominar no pensamento coletivo e influenciar fortemente as ações das pessoas. Como tais categorias são tradicionais e pouco mutáveis, os indivíduos acabam não tendo condições de migrar de estrato social (de casta).
Em se tratando das sociedades estamentais, é indispensável a compreensão do modo pelo qual as categorias de tradição, linhagem, vassalagem, honra e cavalheirismo estão presentes no pensamento e na ação das pessoas, pois é a partir delas que a sociedade se organiza em estratos sociais. Os estamentos são característicos de sociedades feudais.
Assim, “[…] as diversas configurações histórico-estruturais mencionadas correspondem a distintas modalidades de organização das condições de reprodução social […]” (IANNI, 1973, p. 13). Para compreendermos a estratificação no interior de cada sociedade, é importante considerar as formas de “cristalização” da divisão social do trabalho no âmbito de toda a estrutura social e em seus diversos setores produtivos, de organização política, religiosa e intelectual. Em síntese, “a divisão social do trabalho é um processo condicionado pelo modo de produção (asiático, escravocrata, feudal e capitalista) […] Isto é, as contradições estruturais inerentes às relações e hierarquias de castas (e subcastas), estamentos e classes sociais exprimem a maneira pela qual se distribuem o produto (econômico) e o poder (político) no conjunto da sociedade, bem como em seus segmentos” (IANNI, 1973, p. 13-14).
Referência
Principais obras de Octavio Ianni:
Como citar esse texto:
BODART, Cristiano das Neves. Estratificação Social segundo Octavio Ianni. Blog Café com Sociologia.com. jan. 2011. Disponível em: <https://cafecomsociologia.com/estratificacao-social-segundo-octavio/>. Acessado em: dia mês ano.





“A maneira pela qual se estratifica uma sociedade depende da maneira pela qual os homens se reproduzem socialmente. E a maneira pela qual os homens se reproduzem socialmente está diretamente ligada ao modo pelo qual eles organizam a produção econômica e o pode político” (IANNI, 1973, p.11).
terceira linha última palavra: pode
troque por: poder*
Ótimo texto! Mas discordo da posição de Ianni quando diz que na sociedade capitalista há muita mobilidade social. Há mais do que na sociedade de Estamentos; mas, ainda assim, constatamos que – em geral – os descendentes dos trabalhadores assalariados também serão assalariados…