O entendimento que faz diferença: Eis ai, professores e pais o que precisam ensinar aos seus filhos!

O entendimento que faz diferença: Eis ai, professores e pais o que precisam ensinar aos seus filhos!

Foucault

O sujeito deve aprender a refletir a maneira pela
qual deve constituir a si mesmo “enquanto sujeito moral de suas próprias
ações”,  já dizia o grande filósofo francês Michael
Foucault. 

Família pobre e descendentes de escravos, nasceu em Paracatu, noroeste de Minas Gerais. Teve que compartilhar o pouco que tinha com sete irmãos mais novos. O pai pedreiro e, posteriormente, dono de uma pequena olaria. Forçado pela condição social, aos 10 anos já tinha que se fazer adulto carregando lenha. Estudava em uma escolinha pública. Certa ocasião teve que parar de estudar porque a diretora baixou uma norma cobrando mensalidade, o que era impossível para a sua família. Apenas um ano depois pode voltar a estudar.
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Sua mãe, semianalfabeta, era dona de casa. Pouco podia fazer para ajudar nas  despesas da família. Complicando ainda mais sua condição socioeconômica, ainda criança, seu pai abandonou a família e os filhos. Aos 16 anos teve que ir sozinho, empurrado pela pobreza, para uma cidade grande. Foi para Brasília ser mais um negro a lavar banheiros.
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Se somos frutos de nossas experiências sociais, qual caminho tomou esse garoto negro, pobre e só, em um centro urbano? Se envolveu com criminalidade? Tornou-se dependente químico? Esse garoto, frente a desestrutura familiar e à vida um tanto dura, foi pressionado a um posicionamento no mundo. Sua mãe havia plantado no interior dele o desejo de transformar sua própria realidade social. Optou por estudar e ter uma realidade socioeconômica diferente. Dividia o tempo entre os bancos escolares e a faxina no TRE do Distrito Federal. Terminou o Ensino Médio, passando a ser o arrimo da família. Posteriormente arrumou um emprego em uma gráfica. A renda aumentou, mas ainda era pouca para ele e a família lá em Minas. Devido a necessidade da família foi trabalhar também no Jornal de Brasília acumulando dois empregos em uma jornada de 12 horas/dia. Mais tarde, trocou os dois por um. Passou a trabalhar na Gráfica do Senado das 23h às 6h da manhã. Terminado o experiente do trabalho ia direto para Universidade de Brasília, cursar direito. O único aluno negro da turma tinha que se esquivar do sono, da intolerância e da discriminação. Algumas vezes foi retirado da sala por cochilar.
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Terminou o bacharelado em Direito na Universidade de Brasília, onde, em seguida, cursou o mestrado. Esse negro de família pobre, tornou-se Oficial de Chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, embaixador do Brasil em Helsinki e Finlândia e depois procurador da República. Fez ainda, na França, onde conheceu as obras do filósofo Michel Foucault, mestrado e doutorado em Direito Público, pela Universidade de Paris-II. Tornou-se professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Lecionou na Universidade Columbia, em Nova York, e na Universidade da Califórnia. Hoje presidente do Supremo Tribunal Federal.
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Foucault tinha razão! As estruturas sociais pressionam e incomodam as pessoas, geralmente determinando suas condições psicossociais. Ao pressionar os indivíduos, a sociedade tende a conduzi-los a enxergar o mundo de uma dada forma e, consequentemente, a agir de uma determinada maneira. É ai que o indivíduo deve ser o sujeito moral de suas próprias ações. As experiências de vida moldam, em certa medida, nossas condutas. Crianças que vivem em ambientes sociais degradantes tendem a reproduzir isso quando adulto. Vivendo, por exemplo, em um lar violento, há uma forte tendência de que constitua um lar igualmente violento. Filhos de dependentes químicos têm pré-disposição a serem dependentes (não só por fatores genéticos).
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Geralmente as condições sociais ruins provoca nos jovens um estado de revolta. Alguns canalizam essa revolta sobre a sociedade, culpando-a de seus males. Assim viram contraventores das regras sociais, tornam-se “rebeldes”, caem no mundo das drogas e da violência urbana… Por outro lado, outros revolta-se contra o seu estado, e não contra a sociedade; entendendo que a aquela sua condição não é natural e, portanto, passível de ser transformada; assim, busca incluir-se de melhor forma no mundo, dedicando-se, por exemplo, aos estudos e a carreira profissional.
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Isso que nosso jovens precisam entender! Não é revoltando-se contra o mundo e contra as regras sociais que mudarão suas condições sociais, pelo contrário! É isso que os professores e pais precisam esclarecer aos seus alunos e filhos vitimados por suas condições sociais!
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Certamente Joaquim Barbosa é grato a sua mãe e a seus educadores que, ainda em tenra idade,  o ajudaram a compreender isso e a mudar o rumo de sua história… muito antes de ler Michel Foucault.Texto publicado originalmente na coluna do Jornal Correio Regional, 13 de Dez. 2012. p. 4.

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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  1. cecilio Costa
    junho 19, 14:37 cecilio Costa

    Excelente , aula gostei muito desta sugestão adaptei para um projeto de vida, a partir da construção do si mesmo. é tão difícil , encontrar exemplos de virtu, em nosso pais no momento.e vocês conseguiram, aqui na figura de Joaquim Barbosa mostrar, isto e finalmente por em discussão.Acrescento , a dica de Pelé, e outros ídolos negros,que são tantos mas usamos tao poucos não é mesmo. Obrigado pela ajuda .
    Meu nome é Cecílio Henrique Costa..
    Meu email:[email protected]

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  2. Eryckson M. Reis
    agosto 02, 17:40 Eryckson M. Reis

    Adorei o Texto.

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