Por que devemos ter cuidado com o bairrismo e com os mosquitos?


Por Roniel Sampaio Silva
Você tem orgulho de ser brasileiro? orgulho do seu estado? Da sua cidade? Não importa qual a região, o sentimento de comunidade, de pertencimento étnico em relação a uma territoriedade está relacionado ao regionalismo. O Brasil tem riquíssimos exemplos sobre o regionalismo.; mas até que ponto isso é positivo? Vou procurar nesse texto mostrar os alguns dois lados a mesma moeda sobre a questão do bairrismo e do coronelismo, e por fim, vou falar ilustrar uma metáfora do mosquito da dengue.

Antes de mais nada vale conceituar regionalismo. É um conjunto de caraterísticas que tornam particular uma região”. Tais características são evocadas no sentido de criar uma relação de pertencimento a uma certa localidade. O primeiro grande movimento intelectual e cultural relacionado ao regionalismo no Brasil surgiu no nordeste e teve como um dos líderes o sociólogo Gilberto Freyre, o qual foi um dos signatários do manifesto homônimo em 1930.
Além disso, o regionalismo está muito relacionado a um outro conceito antropológico chamado etnocentrismo, o qual põe a cultura local como centro da visão do mundo de determinado grupo cultural. Em 1952, o antropólogo Claude Levi-strauss a pedido da UNESCO escreveu um texto intitulado “Raça e História” cujo objetivo era problematizar sobre o etnocentrismo, o evolucionismo e a diversidade cultural. Em um dos pontos do texto, o francês sugere que é graças a etnocentrismo que temos toda essa diversidade cultural, e que esta diversidade deve contribuir para colaboração entre as culturas, jamais para sua destruição.

Voltando ao regionalismo de Freyre, este não deixa de ser uma espécie de etnocentrismo, um etnocentrismo que tem uma faceta, até certo ponto, sadia para preservação da cultura tradicional. Na ocasião o sociólogo dialogou com outros grupos culturais e buscou a colaboração cultural mencionada por Lévi-strauss.

E como isso tudo pode se tornar uma armadilha?
As armadilhas do bairrismo
Ocorre que, os discursos extremistas, fundamentalistas transformam o regionalismo em bairrismo. Na ocasião, é oportuno conceituar o que seria bairrismo como “um esforço de promover aversão à tudo aquilo que vem fora de um território restrito”, é, na verdade, um tipo de como uma em escala regional ou local do regionalismo. É uma expressão que remete à ideia de aversão a tudo que vem de fora do espaço restrito do bairro.
Se na primeira metade do século XX tivemos os movimentos fascistas que aclamavam o nacionalismo como matriz de um governo centralizado num líder carismático; o Brasil vivenciou e tem vivenciado o discurso do bairrismo, o qual que busca isolar um território em favor do fortalecimento de uma autoafirmação étnica, que por sua vez tende a negar a contribuição de outros sujeitos pelo mero fato destes não serem reconhecidos localmente pelas autoridades que se dizem “da terra”.
A negação do outro acaba sendo um ataque pessoal, sorrateiro que torna-se uma estratégia que esvazia o diálogo argumentativo, político e racional, o que acaba sendo um rótulo reducionista, uma falácia de autoridade.
Tais medidas são comuns em locais provincianos, cuja autoridade do coronel – ou coronéis, são criadas no sentido de imunizar o poder tradicional para garantir o status quo, ameaçadas por ideias “inovadoras” advindas dos “forasteiros”. A medida reflete uma insegurança quanto as suas próprias doa habitantes locais e se fecham para contribuições de um outro ponto de vista. 

Desta maneira, as pessoas “da terra” são superestimadas independente do que elas têm à oferecer. São promovidas pelo mero fato de serem reconhecidas pelos demais como “minhoca”, como se isso apenas bastasse para ter compromisso com a região. E já que estamos citando animais, vale destacar o mosquito. Este por sua vez, surge num contexto de estagnação de ideias oriundas pelo fechamento do grupo. O grupo torna-se tão sem movimento que assemelha-se a água parada, oportuna para proliferação de mosquitos parasitas que vivem para se alimentar do sangue alheio. Estes mosquitos são os coronéis, eis um dos perigos do bairrismo.

Tanto as fronteiras geográficas são artificiais, como o reconhecimento dos sujeitos como “nativos”. O reconhecimento destas pessoas é arbitrário uma vez que tais indivíduos de outra naturalidade pode ser reconhecido como autoridade local e uma pessoa daquela naturalidade pode não ser reconhecida como tal. A exemplo disso, temos o poeta Torquato Neto, um dos intelectuais da Tropicália, que mesmo sendo teresinense era expulso de locais frequentados pelas famílias tradicionais pelo simples fato da sua estética não ser aceita pelas elites locais. Assim, a negação bairrista tem a finalidade de segregação política, social, cultural ou estética.

O bairrismo é herança do coronelismo patrimonialista. Neste sentido, o apego pela terra, típico de sociedades tradicionais, foi e continua sendo seu campo fértil. Raymundo Faoro destaca que o coronelismo foi um dos grandes empecilhos para consolidação do republicanismo e do federalismo, sendo uma estratégia para preservação do poder tradicional consolidado, ou seja, um esforço “contramodernizante”.

O discurso do bairrismo acaba tendo ainda bastante adesão, até hoje justamente por criar uma expectativa de beneficiar o sujeito na “panelinha”. O isolamento de um grupo em si cria o que eu chamo de “água parada”. Como todos sabem água parada cria mosquito.
Eu me ariscaria a afirmar que o bairrismo é uma herança do coronelismo e ao mesmo tempo seu grande pilar de sustentação. Na medida em que um grupo tende a se fechar para as contribuição de outros grupos culturais ou sujeitos, criam-se entre os pares autoridades cujo poder é delegado apenas pelo autoreconhecimento, que na maioria das vezes não leva em conta um projeto político que beneficie a todos.
Assim, o projeto bairrista fatalmente cria as panelinhas, cujo conteúdo perde no marasmo  
e faz proliferar um batalhão de mosquitos. Portanto, lembre-se, água parada e grupo fechado cria mosquito! Sugadores de sangue…

ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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  1. Luceny Laurett
    agosto 08, 02:37 Luceny Laurett

    Muito bom o texto. A metáfora é ótima. O espírito do "bairrismo" está presente especialmente nas pequenas cidades…. está presente também nas igrejas…. O texto é oportuno para reflexão!

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