Ancestralidade e Karatê: uma perspectiva antropológica e marcial

Por Rafael Ademir Oliveira de Andrade[1]

            Neste texto pretendo realizar uma breve análise de uma atividade que me acompanha desde os quatorze anos: frequentar clubes que ensinam o karatê. Mais recentemente, nos últimos seis anos, me vinculei a uma associação de karatê chamada “Hien”, fundada pelo Mestre Benedito Nelson, primeiro faixa preta brasileiro, mestre de um grande grupo de praticantes de karatê que estuda a forja de espadas japonesas, psicologia de Gurdjieff e outros caminhos materiais/espirituais. Foi na associação do professor Benedito que tive contato com alguns ensinamentos e histórias do karatê marcial. E sabemos que, sendo cientista social, torna-se difícil não estranhar sua própria cultura e buscar refletir sobre suas práticas.

            Foi na união da prática do karatê com os estudos da questão religiosa que tive um insight no que tange à uma prática comum nos dojo. Em palestra do professor Kary Falcão, doutorando em Psicologia Social da UFGRS, um dos ouvintes perguntou ao professor sobre a questão da raça nas religiões africanas e afro-brasileiras e o professor prontamente respondeu: “Eu sou negro ué”. E falou um tanto mais sobre isso. O que eu compreendi é que mesmo sendo de “pele branca”, seus guias e mestres são negros, africanos, deuses do outro lado do mar que se fazem presentes em uma ancestralidade espiritual que se materializa na cultura, na vida dos indivíduos.

            Foi nesse momento que percebi que a questão das religiões afro-brasileiras, ou ayahuasqueiras[2] (para usar um exemplo mais próximo de minhas pesquisas no final da graduação) remetem à uma ancestralidade enquanto elemento guia de suas ações, preceitos morais, realizando um bricoleur com as possibilidades para construir as posturas sociais e existenciais que aquele grupo assume. A ancestralidade, no qual o professor Kary remete em um contexto específico, trata da relação com os antepassados que se tornam eixos fundamentais das nossas atitudes, dos rituais (religiosos ou não), das perspectivas ideológicas e mesmo de nossa relação intima com o mundo.


E o Karatê, onde entra? Faço uma brevíssima descrição para quem nunca visitou um espaço de aulas: ao começar e encerrar as aulas alunos e professores cumprimentam um quadro, ou conjunto de quadros, onde estão fotos ou representações de mestres que já faleceram, estes são chamados de shomen (tradução: veneráveis mestres). Este cumprimento representa uma reverência à um conjunto de coisas: ao trabalho que os mesmos dedicaram ao karatê, à transmissão de conhecimentos técnicos e filosóficos aos professores dos professores e em alguns casos, como na Hien, do próprio fundador e professor de muitos que, após falecer, se tornou um shomen. Logo, essa reverência, as histórias, os exemplos, a forma específica de ensinar a técnica e a “etiqueta do guerreiro” são ensinamentos transmitidos em um modelo semelhante à ancestralidade religiosa.

            Ações sociais “semelhantes à ancestralidade” estão presentes em nossa sociedade em maior número do que esperamos: os heróis políticos contemporâneos e de tempos passados, os parentes ou amigos falecidos, aquelas pessoas que comandavam a mídia que já se foram. E não podemos esquecer da palavra semelhante: não estou afirmando que um guia espiritual e o religioso tem a mesma relação de um líder político já falecido, mas ambos exercem uma função específica para os indivíduos e os grupos: manter certa coerência existencial, ética e atitudinal.

            Voltando ao karatê; não é incomum ver professores remetendo-se a livros, narrativas ou vivências para afirmar certa conduta ou técnica como aquela que é “inerente ao grupo” no qual estão ensinando. Em outras palavras, o Shomen é um ancestral ético, técnico e histórico dos praticantes de karatê atuais e servem como baliza para as ações dos mesmos. Aquilo que não é claro – é desta maneira ou de outra – é resolvido a partir de um bricoleur de peças existentes: pega-se experiências ou narrativas semelhantes para buscar resolver aquele espaço cultural deixado pela memória ausente, deturpada ou inexistente.

            O shomen e a filosofia do karatê, assim como as demais tradições, se alteram de acordo com os indivíduos que “enfrentam” tais tradições com suas ideologias específicas. Os veneráveis mestres são referências de como agir no ritual que é o treino de karatê. O que posso perceber enquanto praticante desta arte marcial é que, com a pós-modernidade ou era das pós-verdades, temos também a insurgência de verdades que não remetem diretamente ao karatê praticado em Okinawa, Japão, local de sua origem.

            Assim, passamos a discutir o que é tradição na sociedade contemporânea e qual o espaço da ancestralidade na regularização dos rituais – favor não entender ritual como algo religioso apenas (Van Gennep, 2011)[3], mas como um processo de transformação de um momento para outro, como o ritual de ablução antes das orações entre os muçulmanos ou o ritual de se preparar para o trabalho intelectual entre os professores. Assim, o ritual de praticar em uma aula, fazer exames de faixa, cumprimentar os veneráveis mestres se transformam de acordo com a própria percepção dos sujeitos envolvidos.

            Trazemos uma última questão: qual o espaço que a “ancestralidade karateca” possui na consolidação das práticas marciais levando-se em consideração o contexto da modernização e sua inserção nas olimpíadas? Em quais momentos essa ancestralidade é rompida ou recuperada neste contexto? Seguem perguntas que se iniciam desta reflexão antropológica de um professor de Sociologia e praticante de karatê. Espero que estas afirmações e questionamentos possam ser um ponto de partida pata outros questionamentos e reflexões.

        

           

Notas:

[1] Cientista Social e Mestre em Educação. Kuro obi na Hien Karatê Kyokai.

[2] Como alguns autores chamam as religiões que usam o chá da Ayahuasca, também chamado de mariri ou vegetal, cito alguns: Sérgio Brissac em sua dissertação de mestrado (1999) e Arneide Cemin (2002) em sua tese de doutorado.

[3] VAN GENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Tradução Mariano Ferreira. 2 edição. Petrópolis: Vozes, 2011.