Discutindo relações de gênero por meio de um curta-metragem. Por que não?

Discutindo relações de gênero por meio de um curta-metragem. Por que não?

Por Cristiano das Neves Bodart

Neste post trazemos uma sugestão de curta-metragem para fomentar a discussão em torno das relações de gênero e os papeis sociais definidos na sociedade ocidental contemporânea às mulheres e aos homens. Iniciamos com uma breve discussão/exposição do tema e, a seguir, a indicação do curta-metragem. Acreditamos que relações de gênero é sim tema para se discutir no ambiente escolar, sobretudo em sala de aula, pois só uma abordagem teoricamente cuidadosa para romper com o senso comum que corrobora para que muitas mulheres continuem em condições de inferioridade, quando não espancadas e assassinadas.

Algumas notas teóricas introdutórias
As relações de gênero estiveram na pauta dos estudos de Pierre Bourdieu e Simone Beauvoir e precisam estar nas escolas. Em 1947 Simone de Beauvoir lançava sua obra, “O segundo sexo”, que lhe renderia notoriedade acadêmica e influenciaria gerações de feministas e intelectuais dedicados aos estudos de gênero. Em 1990, o já consagrado sociólogo francês, Pierre Bourdieu, lançava “A dominação Masculina”; obra que intensificou às discussões em torno das relações de gênero no interior do campo científico, sobretudo sociológico, contudo, sem fazer menção às importantes colaborações de Beauvoir, o que lhe rendeu severas críticas. Ainda que Bourdieu não tivessem em sua obra dialogado abertamente com Beauvoir (1947), sua teoria muito se aproximou das contribuições desta.

Trazer à sala de aula a temática “relações de gênero” certamente colabora para reduzirmos a discriminação sexual, a dominação masculina e, até mesmo, a violência contra a mulher.

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Observando a estrutura social das sociedades patriarcais capitalistas notamos que os homens, em relação às mulheres, são mais dotados de mais prestígio social e, consequentemente, ocupam estrato social superior, o que é observado de forma objetiva por meio das desigualdades de acesso ao mercado de trabalho, por exemplo. Exceto em sub-campos, ou espaços, que os homens não demonstram interesse em disputar por posições de distinção, tornando-se esses “espaços femininos”. Como destacou Bourdieu,

[…] Qualquer que seja sua posição no espaço social, as mulheres têm em comum o fato de estarem separadas dos homens por um coeficiente simbólico negativo que, tal como a cor da pele para os negros, ou qualquer outro sinal de pertencer a um grupo social estigmatizado, afeta negativamente tudo que elas são e fazem (BOURDIEU, 2010, p. 111).

Há, nas sociedades patriarcais, uma distribuição de poder simbólico que estrutura uma relação de poder e posição social em situação desfavorável às mulheres. Nesse sentido, a ordem social estabelecida por essa distribuição desigual tende a ratificar a dominação masculina que se materializa na divisão social do trabalho e na distribuição do produto (econômico) e do poder (político) (BOURDIEU, 2010). Na configuração estrutural das relações de poder coube à mulher o papel de cuidadora, de sensível, de sexo frágil; características (re)produzidas socialmente. Como destacou Simone de Beauvoir, a passividade que caracterizará essencialmente a mulher “feminina” é um traço que se desenvolve nela desde os primeiros anos. Mas é um erro pretender que se trata de um dado biológico: na verdade, é um destino que lhe é imposto por seus educadores e pela sociedade (BEAUVOIR, 2009).

Para Bourdieu (2010) a família acaba assumindo o principal papel de reprodução da dominação masculina e toda a sua divisão sexual do trabalho, ainda que precocemente, o que direcionará, tanto nos homens quanto nas mulheres, a identidade de gênero e, consequentemente, o seu lugar. Parece que quanto mais clara a estratificação econômica, mais facilmente se observa as diferenças entre os gêneros na divisão social do trabalho e a percepção de que há campos onde os homens estão mais propensos a acumular mais capitais simbólicos do que as mulheres, como por exemplo, no campo político. No entanto, como bem destacou Beauvoir (2009), não se nasce mulher, torna-se mulher, o que significa dizer que há possibilidade de uma reconfiguração das relações de dominação e superação do habitus produzido sob a visão patriarcal, o que não é uma tarefa fácil e nem dependente apenas do indivíduo e, por outro lado, os papeis sociais das mulheres não são natas, antes são construções sociais (e por isso mesmo podem ser modificadas). É necessário questionar as estruturas sociais, as quais tanto homens e mulheres são vítimas. Simone de Beauvoir por várias vezes destacou as dificuldades das próprias mulheres se libertarem de suas posições de “segundo sexo”, mesmo quando livra-se de tarefas “destinadas” às mulheres. Sobre essa situação, Beauvoir nos traz um exemplo bastante elucidativo da patroa que “[…] embora livrando-se do fardo de execução do trabalho, quer ter a responsabilidade dele e o mérito; ela quer imagina-se insubstituível, indispensável” (p. 312).

Discutir relações de gênero não é o mesmo que discutir orientação sexual (tema também importante), antes é pensar os papeis sociais atribuído a cada gênero e as relações de poder (e opressão) contidas nesta divisão, o que nos leva a refletir sobre a necessidade da igualdade sexual.

O curta “Acorda Raimundo, acorda!”, de 1990, possibilita uma reflexão em torno dos papeis sociais ocupado por homens e por mulheres. A troca de papeis que traz o curta-metragem nos possibilita um distanciamento e estranheza maior em relação ao tema abordado, o que nos fornece maiores condições de análise.

Segue o vídeo do curta-metragem:

 

Referências Bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Trad. Maria Helena Kühner. 9ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Bruna
    setembro 17, 06:42 Bruna

    O vídeo está sem som.

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