Coisificar se

A sociedade do espetáculo e a coisificação do homem

Coisificação – sociedade do espetáculo

A sociedade do espetáculo e a coisificação do homem

Por Cristiano das Neves Bodart

 

Eu poderia gritar pelas ruas: tornei-me uma coisa! Tornei-me descartável! Sou um objeto de consumo imediato! A verdade é que o homem vem se transformando em coisa, em meio a tantas outras descartáveis! Claro que, se assim eu fizesse estaria consolidando ainda mais minha posição de coisa… de espetáculo aos curiosos.

Um caso ocorrido há algum tempo, de venda de virgindade parece ser alarmante: a lei da oferta e procura definindo quanto vale a virgindade de uma pessoa. Tal comercialização não é uma transação comercial ilegal, realizada na escuridão da noite, nos becos das áreas urbanas… nas casas noturnas. Trata-se de uma comercialização aberta em rede mundial de computadores. Isso, e muitas outras coisas, indicam que viramos uma “coisa”!
 
O homem passou a ser um objeto necessário ao funcionamento do sistema de mercado (inclui-se aqui as mulheres, que talvez e infelizmente, vêm se tornando mais “coisa” que os homens). Nesse sistema ambos
tornaram-se também mercadorias. Seu preço? Variando conforme o prazer ou benefício temporário capaz de proporcionar, ou ainda à sua capacidade de criar outras coisas.
 
Vivemos um processo de coisificação (ou objetificação) dos homens e das mulheres. Os elementos da vida social perderam seu valor essencial e passaram a ser avaliados como “coisa”, ou seja, quanto à sua utilidade e capacidade de satisfazer certos interesses de outros. O homem desumaniza-se e vira mero espetáculo a outros igualmente desumanizados. Ora, há muito já se denunciava que vivemos na “sociedade do espetáculo”, mas agora maximizado pelo próprio espetáculo. Mortes são vistas como entretenimento televisivo. Desempregados são tratados como meras estatísticas informativas do noticiário.

A objetificação (ou coisificação) é um termo que foi cunhado no início dos anos 1970 a fim de voltar-se para os indivíduos a nível de objeto, desconsiderando seu estado emocional ou psicológico. Originalmente, foi um conceito pensado para compreender o sujeito como resultado da história e da estrutura social em que estava inserido. Contudo, o conceito passou a ser adotado para a compreensão da desumanização dos homens em processo de transformação em “coisas”, objetos a serem valorizados ou desvalorizados na “sociedade midiática”.

Chamamos a atenção para o fato de que, como bem colocou Foucault, embora os corpos dos homens sejam transformados cada vez mais em coisas, estas não podem ser compreendidas como objetos inertes, mas como construção histórica. Parece contraditório à princípio, mas as relações históricas no contexto do Capitalismo que produzem essas “coisas” a partir de interesses e relações de poder, geralmente poder econômico.

Pesquisas são feitas apenas para “matar a curiosidade” dos leitores, estes também coisificados. Quanto mais desgraças, mais os jornais vendem, mais “ibope” para a TV!

Norbert Elias explicou, em certa medida, o processo civilizatório. Cabe agora explicar o processo de coisificação que está em marcha… Gritar que somos coisas seria apenas mais uma forma de sermos meros espetáculos? Ops: acho que acabei de ser um…

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

5 Comments Deixe um comentário

  1. Gostaria de saber quem começou com esse conceito.
    Ótimo trabalho, artigo muito interessante e que fala sobre assuntos importantíssimos, meus parabéns!

    • Existem várias formas de “coisificar” o ser humano, ou seja, transformá-lo em objeto e negar sua humanidade. No contexto do trabalho, por exemplo, um operário que passa o dia apertando parafusos pode ser tratado como uma máquina, desprovido de identidade e individualidade. Sob a lógica capitalista, coisificar também significa reduzir o valor humano a um preço de mercadoria. Assim, um trabalhador que recebe um salário de 1.500 reais pode ser comparado a um tênis de mesma faixa de preço, ilustrando como a exploração econômica desumaniza e mercantiliza o ser humano.

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