Site icon Blog Café com Sociologia

A Educação para as Relações Etnicorraciais*

Por Fabíola dos Santos
Cerqueira**

No ano letivo de 2015 iniciamos nas aulas de Sociologia, com os estudantes do 3º ano do Ensino Médio Regular um projeto o qual denominamos de “Onde está o negro?”. Esse projeto é desenvolvido em parceria com o PIBID Ciências Sociais/UFES. Na primeira etapa do projeto introduzimos conceitos como cultura e etnocentrismo. Após, solicitamos que os estudantes desenvolvessem pesquisas de campo em diferentes espaços sociais, analisando os papéis desempanhados pelos negros. O resultado desse trabalho de pesquisa constata que os negros, em sua maioria, não ocupa papel de destaque, nos espaços sociais pesquisados pelos jovens estudantes do Ensino Médio. A pesquisa foi realizada em diferentes espaços sociais como hospitais, escola, unidades de saúde, shopping, dentre outros.

“Nós, negros, estamos em toda a parte, mas ninguém nos vê”, revela um dos estudantes em seu relatório de pesquisa. Essa frase mostra que o estudante assume sua identidade negra mas sente-se invisível. Essa invisibilidade nos remete, por exemplo, a uma sociedade que defende a redução da maioridade penal, mas não reflete sobre os elevados índices de homicídios contra jovens negros.

No período de escrita do projeto iniciei uma pesquisa de campo nas lojas de brinquedo em shoppings centeres de Vitória e Serra, em busca de bonecas negras. As bonecas negras não existem  na maioria das lojas e quando as encontramos, ou são feias e bem diferentes dos modelos brancos expostos; ou conservam os mesmos estereótipos das bonecas brancas mudando apenas a cor. Isso quando não encontramos apenas as “moreninhas”.

Numa das lojas, em diálogo com a gerente e um vendedor, identifiquei que a procura por bonecas negras é bem pequena, mesmo por meninas negras, daí a quantidade e a variedade na loja ser pequena. Os funcionários da loja veem com naturalidade essa baixa procura e quando provocamos para a necessidade de se pensar em bonecas negras, com deficiências, enfim, para que a diversidade estivesse presente também nas bonecas, a gerente afirmou que não seria uma boa ideia, pois os pais teriam resistência em entrar numa loja e ver nas vitrines bonecas negras, sem braço ou perna, em cadeira de roda ou com sindrome de down. Essa mesma provocação foi feita com empresas que produzem bonecas. Uma afirmou que já fabrica um bebê negro (moreninho, como descreveu uma vendedora) e outra, afirma que irá pensar nas sugestões dadas por mim.

Casos como o da jornalista de Brasília que foi vítima de racismo nas redes sociais após atualizar sua foto no perfil do facebook chamam atenção da mídia, mas precisamos estar atentos ao racismo velado existente nas relações sociais estabelecidas por nós, também, nos espaços escolares. Utilizando outra metodologia de trabalho (o painel sociológico interativo coletivo), através da qual, os estudantes podem expressar seus sentimentos/pensamentos/opiniões num mural, constatamos, no final de abril, após a frase “Onde está o negro?” ficar exposta por uma semana nesse painel, através das palavras escritas que o racismo está presente em nosso meio e se esconde nas piadas, nas brincadeiras, nas zoações. Uma das frases expostas, “Os negros estão nas cadeias […] estão na injustiça social”, nos revela a visão dos jovens sobre o lugar social a que o negro é determinado pela mídia e pela ausência (ou ineficiência) de políticas públicas que pensem na inclusão social, na valorização da cultural e na identidade negra no Brasil.

O resultado preliminar desse trabalho nos dá indícios para a reflexão sobre a implementação da Lei 10639/2003 nos curriculos escolares da Educação Básica e sobre a formação inicial e continuada dos professores.. Os estudantes revelam desconhecer a História e a Cultura Africanas e Afro-Brasileiras. Como desconstruir preconceitos se não falarmos deles? Após 12 anos da Lei 10.639/2003 é urgente pensarmos “Onde está o negro?” e avançarmos rumo a uma educação que nos permita descontruir preconceitos e a respeitar o outro, superando a herança histórica da escravidão.

* Originalmente publicado no jornal A Tribuna, 11 de maio de 2015. ** Graduada em Ciências Sociais e mestre em educação pela Universidade do Espírito Santo/UFES.

Sair da versão mobile