A sociologia no conta-gotas

A sociologia no conta-gotas

Por Roniel Sampaio Silva
A disciplina Sociologia, recém-incluída
no currículo em caráter obrigatório, tem sido implantada de maneiras diferentes
em vários sistemas de ensino.  Em muitas
regiões, tal disciplina tem sua carga reduzida a apenas uma aula por semana em
cada série do Ensino Médio, ou seja, vem sido dosada a conta-gotas. Pretendo discutir neste texto qual a o impacto da carga horária reduzida da referida disciplina no processo
de ensino-aprendizagem e quais seriam as consequências para o desenvolvimento
do pensar sociológico.
Em primeiro lugar, a disciplina
não está isolada no currículo. Ela é componente curricular de um perfil de
formação que se deseja para o aluno. Em alguns lugares, ela teve carga horária reduzida.
Creio eu que reduzir sua carga horária não constitui estratégia de valorizar as
demais matérias ditas “mais
importantes”, uma vez em aulas de sociologia é
também trabalhado questões de expressão, escrita, argumentação e lógica. Assim,
o líquido dessa conta-cotas também se mistura com outras substâncias (as outras
disciplinas) e não é heterogêneo.
Em segundo lugar, o
desenvolvimento do pensamento crítico demanda um intervalo de tempo. Ao meu ver,
 a quantidade de aulas destinadas a
sociologia é insuficiente para tal em razão do ciclo de pensamento dever ser
encadeado de maneira progressiva, sistemática e continuada.  Uma aula “perdida” por semana faz com que o
aprendizado seja truncado, interrompido e mecânico, paradoxalmente, lógica de
pensamento a qual tanto criticamos ao nos debruçarmos na escola de Frankfurt.
Em outras palavras, analisamos que o discurso fragmentado traz prejuízos a
comunicação e estamos inseridos neste contexto.
Outra implicação do pouco tempo
para disciplina repercute na esfera do trabalho. Alguns professores, como no
meu caso, para cumprir toda a carga horária a qual foi contratado, precisa
lecionar em 18 turmas. Além de cansativa rotina em sala de aula, o professor
acaba tendo seu trabalho precarizado por ter que prestar auxílio individual
para quase 500 alunos, preencher diários, corrigir atividades individuais, provas, etc. O professor, por conta da sua condição de trabalho tem  sua motivação comprometida e, por conseguinte, comprometendo o processo de ensino-aprendizado.
Com todas as questões técnicas, burocráticas e
administrativas inerentes do cargo de professor o seu tempo de leitura fica
comprometido. Como se não bastasse a demanda de tempo para atividades dentro de
sala de aula, a enxurrada de atividades tecnicistas extra-classe que exaure
boa parte da criatividade do professor. A demasia de aulas de duração reguladas
a conta-cotas faz com que a rotina funcione como uma esteira de produção a qual
não dá oportunidade para criatividade. Nesse sentido, o tecnicismo passa ser o
grande senhor do processo.
Então como ter imaginação
sociológica sem ensejo para criatividade? Como arrumar tempo até para fazer uma
pós-graduação e aprimorar sua qualificação? Pensando Domenico De Masi, tal
sujeito, sem nenhum ócio criativo, acaba se decepcionando com sua profissão,
correndo o risco de findar sua identidade por conta da sua própria condição precária
de trabalho e ao mesmo tempo tendo o relógio como grande algoz e objeto de
reflexão. Tal relógio é justamente contado a partir das gotas controladas neste
processo. Estariam sendo controladas para que não tenhamos nenhuma overdose de
reflexão? 
Roniel Sampaio Silva

Mestre em Educação e Graduado em Ciências Sociais. Professor do Programa do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – Campus Floriano. Dedica-se a pesquisas sobre condições de trabalho docente e desenvolve projetos relacionados ao desenvolvimento de tecnologias.

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