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Entrevista a Pierre Bourdieu: A transgressão gay

Entrevista publicado originalmente na Revista francesa
Telerama, n°2535, em12 de Agosto de 1998. 
Original aqui
Entrevista realizada por: Catherine Portevin e Jean Philippe Pisanias.
Tradução: Cristiano Bodart.
Para desqualificar a homossexualidade é denunciada como uma prática contrária à natureza. Você ressaltar que a natureza não tem nada a ver com isso.
 
Certamente que não. Trata-se em principio de uma construção social e histórica: a divisão estreita entre heterossexuais e homossexuais se cristalizou recentemente, depois de 1945. Antes disso, os heterossexuais poderiam, eventualmente, ter práticas homossexuais. Mas, em nosso sistema simbólico, o contato sexual ativo segue  sendo o único em conformidade com a “natureza” do homem, já que a sexualidade passiva aparece como tipicamente feminino. A oposição ativo/passivo, penetrador/penetrado, identifica o contato sexual com uma lógica de dominação (o penetrador é o que domina). Deste modo, o homossexual se feminiza por participar de uma relação sexual que se aplica a uma mulher. Neste sentido, vai contra à natureza. Transgride esse limite que os romanos conheciam muito bem: se bem que a homossexualidade ativa com um escravo era tolerável, enquanto que a relação passiva era, evidentemente, monstruoso. Na realidade, “contra a natureza” significa apenas ir contra a hierarquia social. Assim, enquanto o dominador é conduzido como tal, está tudo bem. Mas se você adotar as práticas pelas quais é provável tornar-se dominado, então nada está bem.
Nos casais homossexuais encontramos a mesma lógica. Se pode ser homossexual ativo, mas não passivo ao mesmo tempo. Alguns homens e mulheres gays reproduzem no casal hierarquia masculino/feminino.
 Em que condições, então, reconhecer os casais homossexuais como uma alternativa ao modelo dominante?
É muito complicado, porque essa reivindicação é ambígua: ao mesmo tempo o mais subversivo e mais conformista que se possa imaginar. É muito conformista, pois incentiva os homossexuais a entrar na ordem e agir como todo mundo, mas uma parte delas é hostil a esta normalização social. Não há outra padronização reconhecida do Estado. Um homem muito culto, sem o reconhecimento da escola, sempre vai questionar a sua cultura. Da mesma forma, um casal gay em união civil não é socialmente reconhecido, com plenitude, e não recebem os direitos elementares (proteção social, herança, etc.) que o correspondem.
Como o casamento é essa coisa sagrada que conhecemos investido valores simbólicos extremamente vigorosos, o direito de reclamar, como homossexuais,  o direito à união pública reconhecida oficialmente, legalmente sancionada, dinamita todas as representações simbólicas consolidadas.
Por que você está comprometido com o movimento lésbico-gay?
 
O ponto de partida foi uma carta que recebi de um homossexual que trabalhava na Air France: “Se meus colegas heterossexuais recebem descontos quando saem de férias com seus companheiros – protestava – por que eu deveria pagar tarifa cheia, quando viajando com o meu parceiro?” Os homossexuais são, de fato, cidadãos de segundo nível. Então, quando alguém “joga” a ameaça do “comunitarismo” para rejeitar suas demandas, mal posso vê-lo mais do que apenas uma verdadeira má-fé, produto de uma relíquia católica, muitas vezes inconsciente e mal tomadas e permite uma forma de discriminação . Não há para mim equívoco algum. É como se aos homossexuais fora negado frequentar a escola. É algo da mesma ordem.
A última frase do seu livro masculinos homossexuais dominação abertamente convida para se juntar “a vanguarda dos movimentos políticos científicos subversivos”. O que isso significa?
 
O essencial era dizer: não se mantenham isolados. Dado por razões sociológicas, os homossexuais (pelo menos os seus
líderes) têm um capital cultural significativo, podendo desempenhar um papel no trabalho de subversão simbólica essencial para o progresso social. “ Act up”* é prodigiosamente inventivo. Os movimentos sociais poderão se beneficiar
deste inventividade, porque ainda que saibam como organizar eventos, e fazer banners e slogans e canções, de modo ritual, são, na verdade pouco criativos… Para ser criativo, você precisa possuir capital cultural . A ideia das petições foi
inventada por intelectuais; quando os médicos se manifestam geralmente são imaginativos e; finalmente, porque havia imaginação entre os líderes do movimento dos desempregados na França, gente com forte capital cultural, estes se atreveram a ocupar locais simbólicos, como a Escola Normal Superior.
Há algo mais que a marcha do orgulho gay, o subversivo para os homossexuais iria participar nos movimentos sociais?
 
Exato. A parada do orgulho gay é subversivo na ordem simbólica pura. Mas isso não é suficiente. Os gays e os desempregados, por exemplo, não se comunicam facilmente uns com os outros. O movimento gay está organizado em
torno de demandas que são consideradas privadas, e parece suspeito a uma tradição sindical que é construído contra o particular, o pessoal, o território privado da qual tenta desprender o militante.
1. Um sistema de organização social e política que reconhece a existência de comunidades étnicas, religiosa ou sexual, com direitos específicos, em princípio, o que contradiz a definição de um cidadão abstrato sobre a qual se funda a República Francesa.
2. Act up (Ação para desencadeiar o poder, a ação para liberar o poder). Movimento radical de origem nova yorkino, cuja variante francesa também se ocupa dos direitos e demandas das minorias sexuais e, particularmente, as pessoas com HIV positivo.
*Act up (Action to Unleash Power, acción para desatar el poder). Movimiento radical de origem neoyorkino, cuja variante francesa se ocupa também dos direitos e demandas das minorias sexuais e em particular das pessoas portadoras de HIV.
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