Música nas aulas de Sociologia: alguns apontamentos pedagógicos
Em 2021 publiquei o livro Usos de canções no ensino de Sociologia, pela Editora Café com Sociologia. Na obra, procurei problematizar uma dificuldade recorrente no trabalho pedagógico com músicas nas aulas de Sociologia: a perda da especificidade epistemológica da disciplina.
Com frequência, ao utilizar canções que abordam acontecimentos do passado, a análise desloca-se para uma perspectiva predominantemente histórica, em detrimento da problematização sociológica. De modo semelhante, quando se mobilizam músicas sobre temas contemporâneos, não raramente a abordagem deriva para explicações próprias da Geografia ou para interpretações ancoradas no senso comum, sem a mediação conceitual das Ciências Sociais.
Convém reiterar um ponto fundamental: ensinar Sociologia não se confunde com ensinar outras áreas do conhecimento. Cada campo possui objeto, categorias analíticas, tradições teóricas e procedimentos próprios. Desconsiderar essas especificidades compromete a formação intelectual pretendida pela disciplina.
Nesse sentido, sustentei a importância de promover a alfabetização sociológica e o letramento sociológico, categorias pedagógicas que desenvolvi em Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico: uma pedagogia para o ensino de Sociologia (Bodart, 2006).
A alfabetização sociológica consiste no “reconhecimento e na compreensão de conceitos, categorias, noções, teorias e métodos das Ciências Sociais, estruturando o olhar para o mundo social” (Bodart, 2026, p. 52). Trata-se, ademais, de um processo de inserção cultural e política, na medida em que apresenta aos estudantes os modos pelos quais os cientistas sociais analisam e interpretam os fenômenos sociais (Bodart, 2026, p. 50).
Já o letramento sociológico
“[…] é uma macrocompetência, constituída por um conjunto articulado de competências sociocognitivas, simbólicas e práticas situadas que permitem pensar sociologicamente e agir de forma crítica sobre o mundo social. Embora seja uma competência cognitivo-analítica, o letramento sociológico pode (e deve) promover desdobramentos éticos e políticos” (Bodart, 2026, p. 58).
A alfabetização sociológica e o letramento sociológico constituem macrocompetências que devem orientar o trabalho docente nas aulas de Sociologia, inclusive quando se recorre ao uso de músicas como recurso didático. A incorporação desse material não pode prescindir da mediação conceitual própria das Ciências Sociais, sob pena de reduzir a atividade pedagógica a mera ilustração temática ou comentário opinativo.
No livro Usos de canções no ensino de Sociologia, destaquei, ainda, um ponto central: a música é uma produção cultural distinta da ciência. Ela não se orienta por protocolos metodológicos, não se submete a critérios de validação empírica nem assume compromisso com a sistematicidade teórica. Sua lógica é estética, expressiva e frequentemente mercadológica.
Isso não a desqualifica como objeto de análise. Ao contrário, exige que seja tratada como documento social, passível de problematização sociológica. A tarefa docente consiste em deslocar a música de seu registro imediato de fruição para um plano analítico, mobilizando conceitos, categorias e teorias que permitam compreender os fenômenos sociais que ela expressa, tensiona ou naturaliza.
A música não é discurso científico
A música é uma forma de expressão social. Não constitui conhecimento científico no sentido estrito, pois não é produzida segundo protocolos metodológicos sistemáticos nem se submete a critérios de validação empírica ou de falseabilidade. Trata-se de uma produção cultural situada no campo simbólico, orientada por sensibilidades estéticas, interesses mercadológicos e disputas por reconhecimento.
Em muitos casos, o discurso veiculado nas canções pode divergir do conhecimento científico mobilizado na aula de Sociologia. Essa divergência, contudo, não inviabiliza seu uso pedagógico. Ao contrário, pode tornar-se objeto de análise. A contraposição entre enunciados musicais e interpretações sociológicas permite explicitar disputas por narrativas, embates em torno da definição legítima da realidade social e usos da música como instrumento político na luta pela hegemonia simbólica.
Isso ocorre porque a música é um produto cultural e, como tal, expressa valores, crenças, classificações e sensibilidades do contexto de onde emerge. Esse caráter situado é precisamente o que a torna sociologicamente relevante. A questão central não é conferir à música estatuto de ciência, mas reconhecê-la como documento social.
Toda produção musical está inscrita em um contexto histórico específico. É criada por sujeitos posicionados em estruturas de classe, atravessados por marcadores de gênero e raça, pertencentes a determinadas gerações e territorialidades. Nesse sentido, a música não é neutra. Ela veicula visões de mundo, tensões morais, interesses econômicos e disputas simbólicas.
As letras das canções frequentemente condensam representações sociais. Nelas encontramos classificações morais, expectativas normativas, narrativas de mobilidade ou exclusão, bem como experiências de violência, precariedade ou privilégio. A canção popular urbana, por exemplo, pode revelar formas de socialização juvenil, percepções sobre trabalho, consumo, família e Estado. Quando submetida a uma leitura conceitualmente orientada, a música torna-se material analítico fértil para a promoção da alfabetização sociológica e do letramento sociológico.
Não se limite nas aulas à análise de letras de músicas
Ainda, no livro “Usos de canções no ensino de Sociologia”, destaquei que o conteúdo verbal da canção é apenas uma das dimensões de análise possível. Os arranjos sonoros, os instrumentos mobilizados e os gêneros musicais remetem a tradições culturais específicas. Se, por exemplo, preparar sua aula fundamentada na Teoria Crítica, poderá revelar processos de massificação, hibridização, diálogos transnacionais e circulação global de estilos. A emergência de determinados gêneros, sua incorporação pela indústria cultural e sua posterior institucionalização indicam dinâmicas de legitimação e distinção social que podem (e devem) ser exploradas nas aulas.
A performance também é significativa. A estética corporal dos intérpretes, a visualidade dos videoclipes, os códigos de vestimenta e os modos de interação com o público evidenciam hierarquias culturais e disputas por legitimidade. O que é reconhecido como arte “sofisticada” e o que é classificado como “popular” ou “periférico” revela sistemas de diferenciação e critérios de consagração.
Produção, circulação e consumo
Outra dimensão enfatizada em meu livro de 2021 refere-se à possibilidade de analisar a música a partir de seu circuito completo. Não basta examinar a letra ou a sonoridade de forma isolada. Nesse caso, é imprescindível considerar os processos de produção, mediação, circulação e recepção que estruturam o mundo musical. Nesse sentido, a aula fará um diálogo entre “Sociologia da Cultura” e “Sociologia Econômica”, o que pode ser realizado a partir da Teoria Crítica, por exemplo.
Isso implica observar a atuação de gravadoras, produtoras independentes, plataformas digitais, algoritmos de recomendação, estratégias de marketing e segmentação de públicos. A música é também mercadoria e integra um mercado cultural organizado por lógicas concorrenciais, assimetrias de poder e disputas por visibilidade. A forma como uma canção circula, alcança determinados públicos e é convertida em sucesso comercial não é aleatória, mas mediada por estruturas econômicas e tecnológicas específicas.
O consumo musical, por sua vez, relaciona-se a estilos de vida, capitais culturais e processos de construção identitária. Preferências musicais não são escolhas puramente individuais. Elas se articulam a trajetórias sociais, socializações diferenciadas e posicionamentos simbólicos no espaço social.
Gêneros musicais tornam-se marcadores sociais. Sinalizam pertencimento, distinção ou resistência. Podem operar como linguagem de afirmação identitária e contestação simbólica, ao mesmo tempo em que são apropriados e incorporados à lógica do mercado. A mesma expressão estética pode funcionar simultaneamente como crítica social e como produto rentável, revelando as tensões entre criação cultural e mercantilização.
Ao incorporar essa perspectiva ampliada, o ensino de Sociologia ganha densidade analítica, permitindo compreender a música não apenas como texto, mas como prática social inscrita em redes de interdependência econômica, tecnológica e simbólica.
O que a música permite compreender?
A música, quando submetida a uma análise sociologicamente orientada, constitui um material empírico relevante para a problematização de múltiplas dimensões da vida social. A partir dela, é possível examinar:
- processos de construção identitária, especialmente no que se refere a pertencimentos de classe, raça, gênero, geração e território;
- dinâmicas de desigualdade social e suas formas de legitimação ou contestação;
- disputas por reconhecimento cultural e hierarquizações simbólicas;
- transformações geracionais e mudanças nas sensibilidades coletivas;
- naturalizações ideológicas presentes em narrativas sobre mérito, sucesso, família, trabalho ou violência;
- formas de resistência simbólica e afirmação identitária;
- reconfigurações do mercado cultural e suas implicações para a produção e circulação de bens simbólicos.
A música não explica a sociedade nem substitui a investigação científica. Não produz teorias sistemáticas nem opera segundo critérios metodológicos próprios das Ciências Sociais. Contudo, expressa sensibilidades, conflitos e estruturas sociais. Nesse sentido, constitui um objeto privilegiado para análise.
Quando examinada por meio de categorias, conceitos, teorias e métodos sociológicos, a música converte-se em recurso pedagógico consistente para a promoção do letramento sociológico. O exercício de estranhamento e desnaturalização aplicado às canções permite deslocar o estudante da posição de consumidor imediato para a de analista do mundo social.
Esse movimento exige alfabetização sociológica, entendida como domínio das ferramentas conceituais das Ciências Sociais. Ao mobilizá-las na leitura da música, o que inicialmente se apresentava como simples entretenimento revela-se material analítico capaz de evidenciar relações de poder, mecanismos de diferenciação e padrões de sociabilidade.
É nesse processo que se criam condições efetivas para o desenvolvimento do letramento sociológico, finalidade central da Sociologia escolar.
Considerações finais
O uso da música no ensino de Sociologia exige rigor teórico e mediação conceitual, evitando tanto sua instrumentalização acrítica quanto sua redução a mero recurso ilustrativo. Ao reconhecê-la como produção cultural situada, inscrita em relações de poder, disputas simbólicas e dinâmicas de mercado, o docente amplia as possibilidades de análise e fortalece a especificidade epistemológica da disciplina. Quando articulada à alfabetização sociológica e orientada ao desenvolvimento do letramento sociológico, a música deixa de ser apenas objeto de fruição estética e converte-se em material privilegiado para a compreensão crítica da vida social contemporânea.
Esses apontamentos são parciais, por isso, recomendo a leitura dos dois livros mencionados.
Referência
BODART, Cristiano das Neves. Usos de canções no ensino de Sociologia. Maceió: Editora Café com Sociologia, 2021.
BODART, Cristiano das Neves. Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico: uma pedagogia do ensino de sociologia escolar. Maceió: Editora Café com Sociologia, 2026.
Como citar este texto:
BODART, Cristiano das Neves. Música nas aulas de Sociologia: alguns apontamentos pedagógicos. Blog Café com Sociologia, fev. 2026. Disponível em:
[1] Doutor em Sociologia (USP). Docente do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). E-mail: [email protected]



