caranguejos com cérebro

Manifesto ‘Caranguejos com cérebro’ + atividades para as aulas

Por Cristiano Bodart

Sobre o manifesto

O Manifesto “Caranguejos com Cérebro”, escrito em 1992 por Fred Zero Quatro, vocalista da banda Mundo Livre S/A, é um texto fundacional do movimento cultural Manguebeat, surgido no Recife na década de 1990. O manifesto apresenta uma crítica contundente ao marasmo cultural e econômico da cidade na época, utilizando a imagem simbólica do caranguejo – um animal típico dos manguezais recifenses – como metáfora da identidade local enraizada na cultura popular, mas com potencial criativo e intelectual (“com cérebro”).

Defendendo uma cultura híbrida, o texto propõe a valorização das tradições locais, como o maracatu, coco e ciranda, articuladas com sonoridades globais como o rock, o hip hop e a música eletrônica. Assim, o manifesto afirma a proposta do Manguebeat de construir uma nova cena cultural no Recife, conectada tanto às raízes da cultura nordestina quanto às tecnologias e expressões contemporâneas. Ao mesmo tempo político e artístico, o manifesto reivindica o uso da arte como meio de intervenção social e afirmação identitária. A seguir, o manifesto.

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O manifesto

Manifesto “Caranguejos com cérebro”

Autoria: Fred Zero Quatro

Data: 1992

Mangue, o conceito

Estuário. Parte terminal de rio ou lagoa. Porção de rio com água salobra. Em suas margens se encontram os manguezais, comunidades de plantas tropicais ou subtropicais inundadas pelos movimentos das marés. Pela troca de matéria orgânica entre a água doce e a água salgada, os mangues estão entre os ecossistemas mais produtivos do mundo.

Estima-se que duas mil espécies de microorganismos e animais vertebrados e invertebrados estejam associados à vegetação do mangue. Os estuários fornecem áreas de desova e criação para dois terços da produção anual de pescados do mundo inteiro. Pelo menos oitenta espécies comercialmente importantes dependem do alagadiço costeiro.

Não é por acaso que os mangues são considerados um elo básico da cadeia alimentar marinha. Apesar das muriçocas, mosquitos e mutucas, inimigos das donas-de-casa, para os cientistas são tidos como símbolos de fertilidade, diversidade e riqueza.

Manguetown, a cidade

A planície costeira onde a cidade do Recife foi fundada é cortada por seis rios. Após a expulsão dos holandeses, no século XVII, a (ex)cidade “maurícia” passou desordenadamente às custas do aterramento indiscriminado e da destruição de seus manguezais.

Em contrapartida, o desvairio irresistível de uma cínica noção de “progresso”, que elevou a cidade ao posto de “metrópole” do Nordeste, não tardou a revelar sua fragilidade.

Bastaram pequenas mudanças nos ventos da história, para que os primeiros sinais de esclerose econômica se manifestassem, no início dos anos setenta. Nos últimos trinta anos, a síndrome da estagnação, aliada a permanência do mito da *metrópole* só tem levado ao agravamento acelerado do quadro de miséria e caos urbano.

Mangue, a cena

Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

Em meados de 91, começou a ser gerado e articulado em vários pontos da cidade um núcleo de pesquisa e produção de idéias pop. O objetivo era engendrar um “circuito energético”, capaz de conectar as boas vibrações dos mangues com a rede mundial de circulação de conceitos pop. Imagem símbolo: uma antena parabólica enfiada na lama.

Hoje, Os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom Maclaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência.

Bastaram poucos anos para os produtos da fábrica mangue invadirem o Recife e começarem a se espalhar pelos quatro cantos do mundo. A descarga inicial de energia gerou uma cena musical com mais de cem bandas. No rastro dela, surgiram programas de rádio, desfiles de moda, vídeo clipes, filmes e muito mais. Pouco a pouco, as artérias vão sendo desbloqueadas e o sangue volta a circular pelas veias da Manguetown.

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Atividades

1. Leia o Manifesto Caranguejos com Cérebro e responda as seguintes questões:

a) Como o manifesto caracteriza a cidade do Recife?

b) O que significa o símbolo do “caranguejo com cérebro”?

c) De que modo o Manguebeat articula elementos da cultura local com referências globais?

d) Que crítica social está presente no texto e na música?

2. Atividade escrita individual: redação de um mini-manifesto sociológico sobre a realidade sociocultural do território onde você vive, propondo transformações ou valorização cultural a partir da juventude local.

3. Se organize em grupos para produção de mapas socioculturais do seu território, identificando espaços de exclusão e resistência cultural (ONGs, coletivos artísticos, festas populares, rádios comunitárias, etc.). Cada grupo deve apresentar seu mapa e relacioná-lo com a proposta do Manguebeat, respondendo:

a) Que “caranguejos com cérebro” existem em nosso território?

b) Que práticas culturais locais resistem às desigualdades?

c) Como essas práticas se conectam com outras culturas globais?

 

 

Qua sua avaliação sobre o manifesto “caranguejos com cérebro”? Deixe seu comentário.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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