Letramento sociologico
Letramento sociologico

Pensamento crítico, alfabetização sociológica e letramento sociológico

Pensamento crítico, alfabetização sociológica e letramento sociológico

Cristiano das Neves Bodart[1]

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É comum, e mesmo compreensível, que o professor, especialmente o de Sociologia, deseje capacitar seus estudantes para pensar de modo autônomo e crítico. Com isso, avançamos substancialmente na compreensão do que significa educar. Entretanto, também se consolidou um cenário que legitimou quase exclusivamente práticas de ensino orientadas à provocação imediata da crítica ao mundo social. Nesse ponto residem ao menos dois problemas centrais. O primeiro banaliza a noção de crítica, reduzindo-a ao simples ato de não concordar ou de se contrapor a explicações sobre fenômenos sociais. O segundo confunde autonomia com mera expressão de opinião própria.

Nesse contexto, pensar o ensino de Sociologia a partir da distinção entre alfabetização sociológica e letramento sociológico mostra-se teoricamente profícuo. À luz das formulações desenvolvidas em Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico (Bodart, 2026), compreende-se que o problema contemporâneo associado ao chamado pensamento crítico, frequentemente equiparado ao pensamento autônomo, reside na ausência de fundamentação consistente da prática de criticar. Observa-se a valorização difusa de uma suposta capacidade crítica que, em muitos casos, não se ancora em referenciais analíticos sólidos nem em conhecimentos sistematicamente produzidos no âmbito das Ciências Sociais. Como resultado, a crítica tende a assumir um caráter impressionista, opinativo ou meramente reativo, carecendo de densidade conceitual e rigor interpretativo.

Esse tipo de crítica difundiu-se amplamente, especialmente nas redes sociais, onde proliferam sujeitos que se autodeclaram críticos, mas operam com repertórios informacionais limitados e pouco sistematizados. Tal fenômeno relaciona-se, entre outros fatores, às desigualdades estruturais no acesso a uma formação escolar consistente e à difusão de um discurso pedagógico que enfatiza a necessidade de ser crítico sem explicitar as condições epistemológicas dessa criticidade.

No âmbito escolar, é frequente a organização de aulas centradas em debates nos quais os estudantes são convidados a opinar sobre determinados temas sem que tenham sido previamente introduzidos ao conhecimento científico produzido sobre eles. Supõe-se, nesse caso, que o simples espaço de discussão seja, por si só, formador do pensamento crítico. Contudo, sem mediação conceitual e teórica adequada, tais práticas tendem a reforçar conhecimentos prévios, muitas vezes imprecisos, além de estimular a reafirmação de crenças já consolidadas. O resultado pode ser a cristalização de posturas dogmáticas, distantes da atitude científica.

A escola constitui, entre outras funções, um espaço institucional de socialização do conhecimento científico. Um debate pedagogicamente consistente deve estar ancorado nesse tipo de conhecimento. Isso não implica desqualificar outras formas de saber, mas reconhecer que diferentes espaços sociais cumprem funções distintas. Saberes cotidianos, religiosos ou tradicionais acompanham os sujeitos e devem ser respeitados; porém, não podem constituir o fundamento explicativo das análises sociológicas, filosóficas ou históricas desenvolvidas no contexto escolar.

No ensino de Sociologia, é necessário considerar que o objetivo da disciplina é promover o conhecimento sociológico entre os estudantes, ou, mais precisamente, favorecer o letramento sociológico. Contudo, não há letramento sociológico sem conhecimento sociológico prévio. O letramento fundamenta-se na alfabetização sociológica, entendida como a apropriação de conhecimentos historicamente constituídos no campo das Ciências Sociais, incluindo categorias analíticas, teorias e métodos de pesquisa que possibilitam a compreensão qualificada do mundo social.

Isso não significa reduzir a aula à mera familiarização terminológica ou à exposição de conceitos, teorias e métodos. A alfabetização sociológica deve ser mobilizada como base para a incorporação de esquemas analíticos, ou esquemas sociológicos, que permitam problematizar fenômenos sociais para além do senso comum. Trata-se de transformar conteúdos produzidos nas Ciências Sociais em ferramentas de análise do mundo social. As formas de uso dessas ferramentas serão múltiplas, derivando dos esquemas sociológicos incorporados face às novidades do cotidiano. Pensar criticamente em termos de letramento sociológico consiste na capacidade de operar com referenciais teóricos internalizados e não apenas na independência subjetiva.

A alfabetização sociológica constitui, portanto, a base epistemológica e formativa necessária para a emergência do letramento sociológico. Este se refere à capacidade de mobilizar, de modo reflexivo e autônomo, os instrumentos teóricos e metodológicos adquiridos, aplicando-os criticamente à interpretação de situações concretas. O letramento sociológico não substitui a alfabetização sociológica, mas a pressupõe e a aprofunda, convertendo conhecimento acumulado em prática reflexiva qualificada.

O letramento sociológico

“[…] é uma macrocompetência, constituída por um conjunto articulado de competências sociocognitivas, simbólicas e práticas situadas que permitem pensar sociologicamente e agir de forma crítica sobre o mundo social. Embora seja uma competência cognitivo-analítica, o letramento sociológico pode (e deve) promover desdobramentos éticos e políticos” (Bodart, 2026, p. 58).

A promoção efetiva do pensamento crítico e autônomo no ensino de Sociologia somente se realiza mediante o desenvolvimento articulado da alfabetização sociológica e do letramento sociológico.

O letramento sociológico é estruturado no pensamento crítico e autônomo, embora não seja o único tipo de pensamento crítico e autônomo. O que o diferencia é sua base, a alfabetização sociológica.

Considerações finais

Em termos formativos, a distinção entre alfabetização sociológica e letramento sociológico permite reposicionar o debate sobre pensamento crítico no ensino de Sociologia, retirando-o do plano retórico e recolocando-o no âmbito das condições epistemológicas de sua possibilidade científica.

A crítica qualificada não emerge espontaneamente da livre expressão de opiniões, mas da internalização de referenciais teóricos, categorias analíticas e procedimentos metodológicos que estruturam o olhar sobre o mundo social. Assim, a alfabetização sociológica não constitui etapa secundária ou meramente introdutória, mas fundamento indispensável para que o exercício da autonomia intelectual se realize com rigor, consistência e responsabilidade científica.

Consequentemente, a promoção do letramento sociológico implica compreender o ensino de Sociologia como processo cumulativo e sistemático de apropriação e mobilização de saberes científicos. Trata-se de formar sujeitos capazes de operar analiticamente com instrumentos conceituais diante de situações concretas, distinguindo opinião de argumentação fundamentada e senso comum de interpretação sociologicamente orientada. Ao reafirmar a centralidade da alfabetização sociológica como base estruturante, preserva-se a especificidade epistemológica da disciplina e fortalece-se a possibilidade de um pensamento crítico que não seja apenas contestatório, mas efetivamente analítico e reflexivo.

 

 

Referência

BODART, Cristiano. Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico: uma pedagogia do ensino de sociologia escolar. Maceió: Editora Café com Sociologia, 2026.

Como citar este texto:

BODART, Cristiano das Neves. Pensamento crítico, alfabetização sociológica e letramento sociológico. Blog Café com Sociologia, fev. 2026. Disponível em: https://cafecomsociologia.com/pensamento-critico-e-letramento-sociologico/

 

Nota:

[1] Doutor em Sociologia (USP). Docente do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). E-mail: [email protected]

 

Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico
Dica de leitura: “Da alfabetização sociológica ao letramento sociológico”

 

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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História do Café com Sociologia

O blog foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente tratava-se de uma espécie de “espaço virtual” para guardar materiais de suas aulas. Na ocasião lecionava em uma escola de ensino público no Estado do Espírito Santo. Em 2012 o Roniel Sampaio Silva, na ocasião do seu ingresso no Instituto Federal, tornou-se administrador do blog e desde então o projeto é mantido pela dupla.

O blog é uma das referências na temática de ensino de Sociologia, sendo acessado também por leitores de outras áreas. Há vários materiais didáticos disponíveis: textos, provas, dinâmicas, podcasts, vídeos, dicas de filme e muito mais.

Em 2019 o blog já havia alcançado a marca de 9 milhões de acessos.

O trabalho do blog foi premiado e reconhecido na 7º Edição do Prêmio Professores do Brasil e conta atualmente com milhares de seguidores nas redes sociais e leitores assíduos.

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