Tipo Ideal de Max Weber

Tipo Ideal de Max Weber

Por Cristiano das Neves Bodart, doutor em Sociologia (USP)
 
 
De acordo com Weber, para que o sociólogo possa analisar uma dada situação social, principalmente quando se trata de generalizações, torna-se necessário criar um “TIPO IDEAL”, que será um instrumento que orientará a investigação e a ação do ator, como uma espécie de parâmetro.
Um conceito ideal é normalmente uma simplificação e generalização da realidade. Partindo desse modelo, é possível analisar diversos fatos reais como desvios do ideal: Tais construções (…) permitem-nos ver se, em traços particulares ou em seu caráter total, os fenômenos se aproximam de uma de nossas construções, determinar o grau de aproximação do fenômeno histórico e o tipo construído teoricamente. Sob esse aspecto, a construção é simplesmente um recurso técnico que facilita uma disposição e terminologia mais lúcidas (WEBER, apud BARBOSA; QUINTANEIRO, 2002, p. 113).

tipo ideal weber

 

O tipo ideal refere-se a uma construção mental da realidade, onde o pesquisador seleciona um certo número de característica do objeto em estudo, a fim de, construir um “todo tangível”, ou seja, um TIPO. Esse tipo será muito útil para classificar os objetos de estudo. Por exemplo, quando pensamos em democracia temos em mente um conjunto de características em nossa mente dando origem a um todo idealizado (o Tipo Ideal). Ao observar um sistema político contrastamos com esse tipo que temos em mente para classificar esse sistema como democrático ou não, por exemplo.

 
O objetivo de Weber, ao utilizar o recurso “tipo ideal”, não é de esgotar todas possibilidades das interpretações da realidade empírica, apenas criar um instrumento teórico analítico. Dar “corpo” ao objeto de estudo.  Exemplo de tipo ideal é o “homem cordial”, em Sérgio Buarque de Holanda. 
 
 Um constructo de tipo ideal cumpre duas funções básicas: i) fornece um caso limitativo com o qual os fenômenos concretos podem ser contrastados; um conceito inequívoco que facilita a classificação e a comparação; ii) assim, serve de esquema para generalizações de tipo (…) que, por sua vez, servem ao objetivo final da análise do tipo ideal: a explicação causal dos acontecimentos históricos (MONTEIRO; CARDOSO, 2002, p. 14).  

Quando Weber propôs o conceito de Tipo Ideal estava preocupado em esclarecer a função lógica e a estrutura dos conceitos utilizados nas Ciências Sociais. Para Weber os conceitos são construídos a partir do sujeito, e não do próprio objeto de estudo, como indicava a lógica aristotélica. Para Weber,

Obtém-se um tipo ideal mediante a acentuação unilateral de um ou vários pontos de vista, e mediante o encadeamento de grande quantidade de fenômenos isolados dados, difusos e discretos, que se podem dar em maior ou menor número ou mesmo faltar por completo, e que se ordenam segundo pontos de vista unilateralmente acentuados, a fim de formar um quadro homogêneo de pensamento (WEBER, 1999, p. 106).

Assim, o Tipo Ideal é uma construção mental do pesquisador, o qual enfatizará aspectos que deseja estudar daquele dado objeto (ou fenômeno) de estudo. Por ser fruto de seleção de aspectos individualizados e enfatizados os tipos serão “ideais”, ou seja, não reproduzem a realidade tal como ela é em si mesma.

 

Referências

MONTEIRO, J. Cauby S; CARDOSO, Adalberto Trindade. Weber e o Individualismo Metodológico. Anais do 3o Encontro Nacional da ABPC – Associação Brasileira de Ciência Política. Niterói – RJ, Julho de 2002.

QUINTANEIRO, Tania; BARBOSA, Maria Ligia de Oliveira; OLIVEIRA, Márcia Gardênia de. Um toque de clássicos: marx, durkheim e weber. 2. ed., rev. e ampl Belo Horizonte, MG: Ed. UFMG, 2002.

WEBER, Max. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. In: COHN, Gabriel (Org.). FERNANDES, Florestan (Coord.). Weber – Sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais, 13. São Paulo: Ática, 1999, p. 79-127.

 

 

Como citar este texto: 

BODART, Cristiano das Neves. Tipo Ideal de Max Weber. Blog Café com Sociologia. 2010.

 

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

25 Comments

  1. eu acho que sua definição de tipo ideal esta um pouco equivocada. Tipo ideal não é algo relacionado ao perfeito, o ideal, e sim um tipo que se refere a uma maioria. Para Weber, o tipo ideal era uma ferramenta usada para facilitar o estuda da sociedade. A partir do momento que a sociedade apresenta uma gama muito variada de tipos e pessoas, o tipo social reflete caracteristicas tipicas de uma maioria.

    • Não, meu amigo. O tipo ideal está longe de ser quantitativo. O tipo ideal em si já é um método para compreensão de uma dada partícula do todo, mas, para o "obtenção" do mesmo, é a partir das individualidades históricas que estão no contexto social/cultural a ser compreendido, não pela quantidade, uma vez que, essa quantidade, pode está mergulhada em subjetividades e intencionalidades (embora Weber não quer deixar de lado o subjetivo). Portanto, para particularizar e racionalizar o que que será estudado, pelo meio dos acontecimentos históticos no contexto social, que Weber propõe o tipo ideal,

  2. Anônimo, certamente o Tipo Ideal não está necessariamente ligado ao ideal de perfeição. Não afirmei isso. Podemos usar um tipo ideal como (para nós) parâmetro de perfeição, isso numa perspectiva crítica. Crítica no sentido de posicionamento, de aceitação de que não há neutralidade. Assim, posso, por exemplo, criar um modelo ideal, perfeito a partir de minhas convicções, de democracia e avaliar as existentes. Entende. Ideal para Weber, é no sentido idealizado (criado mentalmente), que não existe na realidade, por tanto não trata-se de média como afirmou.
    Obrigado pela colaboração

    • Muito bom Cristiano, é isso aí, fechou a gestalt, hehe! Precisei dessa noção aproximada para explicar como as grandes empresas e conglomerados industriais orientam as propagandas e campanhas de marketing definindo o “tipo ideal” do público-alvo.

  3. É impossível um humano apreender a realidade num único instante, a realidade tem um fluxo constante de mudanças. O conhecimento é sempre produzido através de um recorte da realidade(tipo ideal)na qual o homem está inserido, pois compreender a realidade em sua totalidade é impossível. O tipo ideal é a ferramenta que fará com que os elementos da realidade fiquem isoladas do fluxo constante de mutações desta(realidade). Não é um ideal como referência de algo material, passa por uma construção teórico-abstrata que o indivíduo usará na sua busca da realidade através de um recorte da realidade que está inserido. [anotações da aula de soiologia juridica]

  4. Anônimo, quanto as questões colocadas por você elas são bem desenvolvidas por Alfred Schutz, crítico e admirador de Max Weber. Ele desenvolve elementos que ficaram superficiais na análise weberiana. Recomendo a leitura.

  5. Para Weber feudalismo, burocracia, Estado, são tipos ideais cuja a função é permitir às suas pesquisas clareza conceitual quanto aos objetos estudados…

  6. Para Weber precisamos partir do conjunto da realidade de cada individuo dentro da sociedade e a partir daquilo que mais interpreta essa realidade, como exemplo religião, economia, sociedade capitalista ou socialista, história social desse povo. A partir de caminhos próprios de cada sociedade é que o estudo e o método de pesquisa pode ser analisado e interpretado. Max entende que a pesquisa do sociólogo precisa estar amparado no método compreensivo.

  7. Precisa chegar mais pessoas com espirito de criticar positivamente cada assunto postado e um aprender com o outro. Isso faz parte de uma sociedade compreensiva, equilibrada e racional.

  8. Eu não gosto de sociologia e por isso não entendo muito, mas será que poderia me dizer de uma forma bem clara e direta "O que é Tipo Ideal?" uns exemplos bem objetivos também ajudaria muito no meu entendimento!

    • Por exemplo, pensando em modelos bem simples, considere-se uma cientista social pesquisando uma religião específica, no caso, pensei no catolicismo. A partir das suas experiências enquanto indivíduo, você pode construir um tipo ideal de católico, pensando nas regras e conceitos que se estabelecem com o que é ser um católico. Por exemplo, eu penso em uma pessoa bondosa, que vai a igreja aos domingos, segue os ensinamentos do livro sagrado(bíblia), segue os ensinamentos da igreja e do papa. Bom… após essa construção de um católico ideal, você tem um aporte para entrar em campo e ver se as características desse imaginário que você criou é aplicável. Então, na verdade, o tipo ideal é uma construção com o objetivo principal de parâmetro de comparação.

  9. para Weber precisamos partir do conjunto da realidade de cada individuo dentro da sociedade e a partir daquilo que mais interpreta essa realidade, como exemplo religião, economia, sociedade capitalista ou socialista, história social desse povo.

  10. gente amei seus comentários, e que tive um seminário i ninguém sabia falar desse tipo ideal, e o professor só pediu para a gente idealizar a sala como os alunos nota 10 todo mundo tem carro do ano etc., e dizer que isso é o tipo ideal de aluno da universidade. Ai eu não entende para que ,e porque Weber criou o tipo ideal pensando em que
    mas do jeito que vcs explicaram eu tinha entendido e quis explicar mas, ele não deixou por que eu ia confundir o que minha colega tinha apresentado etc.

  11. Lendo um dos livros do Weber em que é citado este conceito não consegui compreender.Muito obrigada pela explicação clara!

  12. É possível fazer a relação entre o tipo ideal como modelos que explicam determinada ação social? Digo, quanto mais próximo um indivíduo está de um tipo ideal, maior a tendencia de que ele tome determinadas ações, correto?

  13. Parece-me que dentre os clássicos, Weber é que mais atinge o caráter ou o fazer científico na Sociologia, pois diferente de seus co-autores fundantes, despreza um ideologismo finalista, configurando nas interações sociais um apanhado moderno e porque não “libertador” frente as formas de captura, interpretação e pensamento da realidade social. Abraço.

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