As Ciências Sociais no império da opinião (Ciência pra quê?)

Por Joyce Miranda Leão Martins

“O diabo pode usar as escrituras quando isso lhe
convém” (Shakespeare, O Mercador de Veneza).

O processo de revolução dos meios de comunicação, e a preponderância destes nas formas de sociabilidade, inaugurou novas formas de ação, moldadas pelo acesso aos mais variados tipos de informação. A Idade Mídia (RUBIM, 2000), com seu cardápio informacional, propiciou o surgimento de um novo sujeito: o “opinador”, visibilizado pelas tecnologias de mídia. Enquanto o cientista leva horas do dia e anos da vida estudando um mesmo assunto, o “opinador” é capaz de falar da formação das nuvens à organização das sociedades no Egito antigo. Um feito extraordinário?

Estudos de Psicologia vêm mostrando que processamos informação através de “atalhos cognitivos”, esquemas que auxiliam nossas escolhas sem a necessidade de uma reflexão profunda sobre assuntos determinados. Entre esses atalhos, encontram-se os estereótipos e os papéis sociais. De acordo com as teorias do comportamento eleitoral, também é assim que votamos, através de “atalhos cognitivos” (ai que dó). Beaudoux entre outros (2005) dizem que: “los seres humanos tratamos de invertir el menor esfuerzo posible en la busqueda de la información”.
Nesse sentido, o conhecimento costuma exigir mais esforço e cuidado do que a mera opinião: vai pelos caminhos longos, buscando fugir dos atalhos. A racionalização, premissa básica de todo método que se pretenda científico, leva ao desencantamento, de modo que o cientista, muitas vezes, chega a informações não tão confortáveis.
Se conseguimos viver apenas com a informação, processando-a através de atalhos (geralmente pra confirmar o que já se pensa), poderíamos nos perguntar: Ciência pra quê? Não chegamos em um momento da história em que uma Ciência do social é completamente desnecessária?
O mundo de informações ao qual temos acesso e a autocracia da opinião pessoal levariam a crer que sim. E justamente, por isso, faz-se mister a Ciência. Umberto Eco disse, uma vez, que “informação demais é pior do que a falta de informação”. As condições de emergência da assertiva remetem ao contexto contemporâneo, no qual as informações são amplamente partilhadas, via mídias novas e tradicionais. Voltando ao Eco, não seria a ignorância, em si, um mal maior? 
A dúvida surge porque o excesso de informação impede de ver que ele não afasta, necessariamente, da ignorância: pode ser usado para difundir inverdades, imprecisões, obscurecer versões da história que não conseguiram o status de notícia. Muita informação, às vezes, pode significar pouco conhecimento. 
Vale lembrar que a mídia tem uma linguagem e gramática próprias, portanto, nem tudo é exatamente noticiável. E, apesar da interação permitida pelas redes sociais, estas não deixam de ser, também, instrumentos de reprodução das mídias tradicionais. Ademais, a retórica, essa “loba em pele de cordeiro” dos debates públicos, anda ousada com o advento da internet: defende a redução da maioridade penal, afirmando que é preciso haver punição contra os crimes praticados (como se essa punição não existisse nem fosse prevista na nossa lei); quer a destruição dos partidos políticos (ocultando o fato de que isso é próprio das ditaduras); prega a redução de direitos falando em bondade. Como lembra Shakespeare, em O Mercador de Veneza, “o diabo pode usar as escrituras quando lhe convém”. 
Dito isto, cabe afirmar que o cientista social tem um papel ainda maior na “Idade Mídia”: mostrar que o conhecimento não se reduz à informação (e, muito menos, não se reduz à informação não questionada). 
Julgo importante ressaltar quatro papéis fundamentais das Ciências Sociais: 1)Permitir o acesso ao conhecimento da realidade social; 2)Escapar do determinismo; 3)Ampliar a possibilidade dos indivíduos; 4)Soltar-nos das amarras da aparência. Sobre esses papéis, importa dizer:
1) A Ciência permite sair da mera opinião, dos pré-conceitos e preconceitos. O questionamento do que é naturalizado, a busca da “história social dos problemas” (BOURDIEU, 1989), permite a ruptura com o senso comum: mostra que a realidade é sempre mais complexa do que nossas abstrações. Contrastar os dados da realidade social e o resultado de pesquisas empíricas com a nossa opinião é um modo poderoso de escapar dos perigos do “achismo”. 
2) O estudo das causas históricas e sociais dos problemas, deixou, a partir dos clássicos da Sociologia, uma importante herança para a produção de sociedades mais igualitárias: o social é construção. Escapar do determinismo é uma forma também de escapar de estereótipos e do que nos é imposto como papel social.
3) Se da desigualdade de classes aos papéis de gênero, tudo é construção social, somos relativamente livres para elaborar novas sociedades com menor opressão.
4) Esse item se refere à importância do levantamento de dados e à busca de teorias que capacitem o olhar para entendê-los. As informações divulgadas pela mídia permitem chegar até os dados levantados por cientistas, mas é a Ciência que leva aos “como” e aos “porquês”, ou seja, à compreensão. Um conhecimento científico leva à busca de outro, à necessidade de um “referencial teórico”. Não se deixa estagnar por convicções. 
O quarto e último dos papéis das Ciências Sociais, elencados aqui, o qual retroalimenta os outros, é o sentido de existir de todas as ciências. Em resumo, a Ciência é necessária porque nossos sentidos são ardilosos: lembram do caso recente da cor do vestido? Nesses dias de império da opinião, recordo a famosa frase de Marx: “se a aparência e a essência das coisas coincidissem, toda ciência seria supérflua”.
Referências
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BEAUDOUX,  Virginia García; D’ ADAMO, Orlando; Gabriel, SLAVINSKY. Comunicación política y campañas electorales – Estrategias en elecciones presidenciales. Barcelona: Gedisa, 2005.
ECO, Umberto. Informação demais faz mal. Entrevista à Revista Época. Ver: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2013/07/bumberto-ecob-informacao-demais-faz-mal.html
RUBIM, Antonio. Albino. Canelas. Contemporaneidade como Idade Mídia. Interface _ Comunicação, Saúde, Educação, v.4 , n.7, p.25-36, 2000.
Joyce Miranda Leão
Martins
Socióloga
e mestre em Sociologia pela UFC. Doutoranda em Ciência Política pela UFRGS.
Pesquisadora-visitante na Universidad Complutense de Madrid (UCM).
Email:joycesnitram@yahoo.com.br
















Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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  1. Victor Assis
    julho 05, 02:57 Victor Assis

    Logo, não é algo exatamente que venha das massas da sociedade ou do povo, ao contrário, até a ideia de povo ou de popular é forjada (criada)

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