Reforma social: ciência e arte*

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A ideia de reforma social corresponde à consciência de que para tudo existe explicação, que a ciência talvez seja o melhor caminho para resolver os nossos problemas, e que, apesar de criarem a sociedade, os homens não o fazem segundo as condições que eles mesmos estabelecem — ou seja, produzem a vida sodai, mas as estruturas que criaram reproduzem-se praticamente sem a intervenção de forças ou agentes externos. Para ser considerado viável, algo que pode ser aplicado ostensiva ou potencialmente à realidade, um projeto de reforma tem de ser traduzido pelo menos em um dentre três domínios metacientíficos, cada qual com suas estratégias ou orientações de pesquisa:

  • ciência naturalista: conhecida por suas técnicas ‘objetivadoras’, convertendo heuristicamente (isto é, por meio de esquemas conceituais que buscam reproduzir a realidade) os objetos de estudo em “fatos”, objetos da natureza;
  • ciência crítica: identifica nas estruturas condições suscetíveis de alteração, visando resolver situações ou fenômenos definidos como problemáticos pelos atores (cientistas, usuários, clientes);

    Marcelo Branco atua na área de Tecnologia da Informação há 25 anos. É professor honorário do Cevatec (Instituto Superior Tecnológico – Centro de Informática da Universidade de Ciências e Humanidades), no Peru.

  • ciência interpretativa: investiga os fenômenos com significado problemático, considerando as diversas constelações de símbolos e derivações que envolvem a questão.

    Esquema segundo C. LÉVI-STRAUSS, Anthropologia estrutural 1, p. 54.

Na época do lluminismo — movimento intelectual que, nos séculos XVII e XVIII, celebrava a razão e as virtudes humanas de compreensão do universo e a capacidade de mudar a realidade visando o bem comum —, a ideia de reforma tinha um sentido aristocrático, autoritário (que se refletia, por exemplo, na crença — ainda vigente hoje em dia — na educação como instrumento para diminuir ou abolir diferenças, baseada por sua vez na razão como fonte de todo o conhecimento). A partir da segunda metade do século XIX. No entanto, inclusive como reação aos anseios revolucionários gerados com as “abomináveis ideias francesas”, o desenvolvimento científico galvanizou a intelectualidade, a produção artística, e em particular a literatura realista e naturalista, cujas características são:

  • objetivismo: preocupação com a verdade exata, não apenas verossímil, mas a atingida por meio de observação e análise, colocando em primeiro plano as impressões sensoriais, acentuando os detalhes, procurando não descartar um elemento sequer;
  • impassibilidade: postura isenta, neutra, desinteressada pelo destino das personagens, “fotografadas por dentro Machado de Assis) ou por fora (Aluísio de Azevedo), obedecendo às leis e lógicas rigorosas que determinam o comportamento humano (e que, por isso mesmo, pode ser explicado, sempre e em qualquer circunstância);
  • personagens esféricas: apresentam simultaneamente várias qualidades ou tendências; são complexas, multiformes, repelem qualquer simplificação, os tipos lineares (“rapaz direitinho”, “moça casadoura”, “pai tirano, “burguês reacionário”) que o Romantismo iluminista e revolucionário construía por meio de dicotomias (“bem versus mal”, “herói versus vilão”);
  • temas contemporâneos: produção artística centrada no presente, no tempo vivido pelo autor, fundada na critica social, para desnudar mazelas, e na análise psicológica, para investigar os motivos da ação humana;
  • exaltação sensorial: realidade apreendida não pelo coração, mas sobretudo experimentada fisicamente.

No entanto, as correntes literárias reformadoras apresentam diferenças importantes:

Realismo Naturalismo
Documental, apoiado em observação e análise Experimental, apoiado em testes

 

Acumula evidências; fotografa a realidade, para dar impressão de existência Concebe experiências, para chegar a conclusões não acessíveis somente por observação

 

Arte desinteressada, impassível Arte engajada, que denuncia e se preocupa com as mazelas sociais

 

Seleciona os temas e tem aspirações estéticas Detém-se nos aspectos mais torpes, degradantes

 

Reproduz a realidade, interior e exterior, por meio de análise psicológica

 

Centra-se em aspectos exteriores, manifestos, em gestos, discursos e ambientes

 

Interpretação obliqua, deixando as conclusões ao leitor

 

Interpretação direta, diagnóstico tira conclusões, cabendo ao leitor aceitar ou rejeitá-lo

 

 

Preocupação com o estilo

 

A denúncia fica no primeiro plano

 

*Fonte: PRESSLER, Charles A.; DASILVA, Fabío B. Sociology and interpretation. Albany: State University of New York Press, 1996. p. 130. ANDRADE, Fernando Teixeira de, 1 Literatura I, livro n. 20, São Paulo: Cered, s/d in SCURO, Pedro. Sociologia: ativa e didática. São Paulo: Editora Saraiva, 2004.

ronielsampaio@gmail.com

Graduado em Ciências Sociais pela UFPI, mestre em Educação pela UNIR e docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí.

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