Família, alteridade e etnocentrismo

Por Cristiano das Neves Bodart
cristianobodart@hotmail.com
Tenho notado que o tema família vem sendo recorrente na sociedade atual; quase sempre os discursos envolvem ideologias. Grosso modo, vemos dois polos opostos: os que dizem defender uma ideia de família tradicional e; os progressista. É claro que há uma multiplicidade de variações discursivas, no entanto, duas se destacam por estarem mais presente na grande mídia e nas redes sociais.
Nesses discursos, quase sempre, falta alteridade e sobra etnocentrismo. Isso de ambos os lados. É justamente os conceitos de alteridade e de etnocentrismo que nos ajudam a compreender esse embate ideológico e nos possibilitar caminhar rumo a uma sociedade melhor, uma coexistência respeitosa.
Simplificando os dois discursos temos algo próxima a:
Defesa da família tradicional, a qual vai do discurso religioso ao “moralista” = “devemos preservar a família como Deus criou”; “Família só se constitui com reprodutores (homem + mulher)”; Sem um parâmetro de pai e mãe a criança fica desorientada”.
Defesa de novos modelos de família, que vai desde o discurso progressista, passando pelas liberdades individuais e indo ao discurso “militante”  = “Família é um grupo primário de afeto, independente de gênero”; “Família não necessariamente precisa ter função reprodutora, mas acolhedora”; quem determina a constituição de uma família deve ser os indivíduos livres e não a sociedade e sua tradição”.
De um lado grupos que defendem a manutenção da “tradição acidental cristã” e de outro os que buscam reformulações das regras e valores sociais. O problema é muitos desses acreditam que um aniquila o outro. Tal problema tem entrado no campo político institucional. Um exemplo disso foi a enquete (ver aqui) criada pela Câmara dos Deputados para averiguar a opinião dos cidadãos manifestantes na enquete (como se isso competisse ao Estado) e a PL – 6583/2013 (ver aqui) que “dispõe sobre o Estatuto da Família e dá outras providências”. Enfim, além das discussões nas redes sociais e na vida cotidiana, tal “embate” tem sido objeto de discussões institucionais igualmente marcadas por etnocentrismo.
A alteridade passa pela aceitação do outro, o que em meio a discursos e posturas militantes tende a não acorrer. Alteridade implica em coexistência respeitosa, a aceitação do outro, do diferente.
Um problema notório está na “confusão” entre aceitar e concordar. Vejamos: eu posso aceitar algo e não concordar com ele. O que chamo de aceitação demanda respeito e coexistência. Concordar passa pelo consenso, pelo comum acordo, o que acredito ser impossível em muitos casos e temas e nem por isso devemos nos confrontar (sobretudo de forma etnocêntrica) em cada um deles.
Para que não sejamos etnocêntricos, julgando o comportamento cultural dos demais a partir de nossos valores e crenças, é necessário diferenciar o “aceitar” de “concordar”. Uma mãe, por exemplo, pode aceitar que seu filho faça uma determinado curso superior, mas não concordar, sem contudo deixar de respeitar a escolha dele.
Sem aceitação não há concórdia, mas é possível aceitar, sem contudo, abrir mão de seus valores e crenças. O importante é praticarmos o respeito e a coexistência pacífica, tendo ciência que não somos iguais e temos o direito de pensarmos diferente, mas não de atacar e desrespeitar tais diferenças.
Cristiano Bodart Bodart

Graduado em Ciências Sociais, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo/USP.

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