Alterações nas relações sociais cotidianas*

Alterações nas relações sociais cotidianas*
Por Rodrigo Lopes[1]
Tenho visto nos últimos tempos e acredito que vocês também, pois este é um fenômeno que vem ganhando proporções cada vez maiores, uma frequência crescente no uso dos aparelhos smartphones, seja com jogos, redes sociais ou mensageiros instantâneos. Tal fenômeno tem mudado a maneira como as pessoas estabelecem relações umas com as outras.  Podemos citar um evento cotidiano para ilustrar o que queremos dizer: esperar em uma fila ou em um consultório médico. Em momentos como esses, não raro, é de notar o grande número de pessoas com seus smartphones em mãos. Lembro-me que, pouco antes desses aparelhos e da possibilidade de internet móvel, as pessoas, em momentos como os citados acima, costumavam ‘puxar conversa’ sobre quaisquer temas como: o clima, a situação política do país, algum evento local etc. Depois da possibilidade de carregarmos nossos aparelhos de comunicação para qualquer lugar e mantermos a conectividade com pessoas conhecidas, mesmo a distância, esses momentos de ‘puxar conversa’ tornaram-se mais difíceis.
Não pretendo defender um ponto de vista do tipo: isso é bom ou isso é ruim. O que pretendo é chamar atenção, a partir de eventos como esses, é para alterações nas sociabilidades cotidianas que a possibilidade de manter contato com nossos contatos através de smartphones têm gerado.  Diante disso, cabe-nos perguntar: qual o impacto desse fenômeno para a dinâmica de relações cotidianas?
Apesar de não propormos explicações finais e totalizantes, nos apoiaremos em um autor da tradição sociológica para tecer algumas considerações sobre a questão acima: o sociólogo canadense Erving Goffman. No núcleo da sua teoria sobre as formas de interação face a face, estão as preocupações em pontuar os mecanismos que os indivíduos utilizam no momento de interação. Em seus estudos, nomeadamente em ‘Ritual de Interação’ (2011), Goffman notou um tipo de comportamento que nomeou de alienação da interação. Este conceito parte do princípio de que o sujeito aliena-se do encontro conversacional, ou seja, diante da existência do contado falado entre indivíduos, um deles isenta-se da interação. De qualquer forma, o objetivo de Goffman – e é isso que queremos chamar atenção – é observar a partir dos rituais de interação como os indivíduos obedecem às regras sociais de conduta.
Nesse sentido, a partir de Goffman, podemos notar pequenas transformações nos padrões de conduta e sanções sociais. Segundo o autor, o sujeito que se aliena do contato conversacional está sujeito a sanções sociais. No caso das relações contemporâneas mediadas pela tecnologia, os conflitos entre condutas e sanções podem alterar legitimidades, sejam de práticas, sejam de sanções. Assim, comumente notamos discursos do tipo: “mas você só vive no celular” ou “você é um alienado, só vive no telefone”. Normalmente frases como essas são ditas em tom de reprimenda moral. Porém, as mesmas pessoas que enunciam tais repreensões são as que fazem uso dos mesmos
mecanismos de interação.
Apesar dos conflitos existentes, as práticas de interação mediadas pelos aparelhos smartphones continuam e, ao que parecem, tendem a aumentar. Diante desse quadro, podemos concluir que os conflitos entre os rituais de interação presenciais e os virtuais, decorrentes das possibilidades de uso desses aparelhos, tendem a mudar tanto as avaliações morais das práticas de interação mediadas pelos smartphones, quanto as próprias práticas de interação virtual adequando o uso dos smartphones a momentos e lugares adequados.
Referência: GOFFMAN, E. Ritual de interação: ensaios sobre comportamento face a face. Petrópolis, RJ:Vozes, 2011.

 


 

[1] Graduado em Ciências Sociais e mestrando
em Sociologia – PPGS/UFAL, ambos pela Universidade Federal de Alagoas. Membro
do Grupo de Pesquisa Ambientes, Afetos e Economia das Simbolizações – GRUPAAES.
Tem desenvolvido trabalhos no âmbito da Sociologia da Educação, especialmente
sobre temas relacionados ao Ensino Superior.
Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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