Consumo, imaginário e “rolezinho”

Consumo, imaginário e “rolezinho”
Por Lisandro Lucas de Lima Moura[1]
Foto: Notícias Terra.

Por trás das ações espontâneas ou organizadas denominadas de “rolezinhos”, tais como passear, curtir, zoar, conhecer gente nova, beijar, “vestir roupas de marca”, “subir a escada rolante que desce” ou “entrar no cinema pela saída”, está uma nova maneira de encarar o consumo na sociedade contemporânea, que tem os shopping centers como lugar sagrado. No centro desse fenômeno social está a população oriunda das periferias das grandes cidades, que vem ganhando poder de consumo, e que hoje está no centro de uma nova onda cultural marcada pelo Funk Ostentação. Não foi assim que aprendemos, que o consumo define o nosso caráter? Que você é aquilo que você tem? Que para pertencer à sociedade, ser um cidadão, você precisa ser antes um consumidor? Pois então, o que acontece quando os jovens decidem seguir essas recomendações?

Sociologicamente, no contexto dessa nova perspectiva acenada pelos jovens indesejados, o consumo não é tanto o resultado de uma estrutura material de mercadorias com valor de uso, mas uma forma simbólica e emocional de expressão que pode ganhar ares de contestação. O filósofo Alain de Botton é preciso nas palavras: “De certa forma, estamos todos participando deste sistema, onde bens materiais carregam valores. Quem diz que estamos nos tornando cada vez mais materialistas e gananciosos está perdendo o ponto: não estamos interessados na matéria, somos uma sociedade que investiu significado emocional em objetos.”

Seguindo o raciocínio do Botton, quando os valores humanos e emocionais se sobressaem em relação à materialidade dos bens, ao valor de uso e ao valor de troca das mercadorias, tornando-se uma forma de “protesto”, o consumo passa a representar o poder do feitiço no sentido original do termo. Não mais o feitiço como “fetichismo da mercadoria” ou como “falsa consciência”. A fantasia deixa de ser sinônimo de alienação, na qual a mercadoria exerceria controle sobre o indivíduo. E a aquisição de bens de consumo passa a representar algo a mais do que um simples desejo de ascensão social. O que se observa agora é uma nova prática que se utiliza da sedução do consumo como exercício de crítica, consciente ou inconsciente. 
Eis o depoimento de um jovem participante dos rolezinhos: “Queremos apenas o direito de zoar e nos divertir, de desfrutar das mesmas opções de lazer e entretenimento das elites. Queremos ter acesso a bens de consumo das mesmas marcas e qualidade dos que a burguesia usa. Nossa ostentação e barulho é um grito contra a verdadeira ostentação e violências que os poderosos jogam na nossa cara todo dia.” 
Tudo indica que os rolezinhos são sintomas de um mundo neotribal imerso num duelo de imaginários, em que o consumo passa a ser a figura emblemática, o totem do combate simbólico contra o preconceito e as desigualdades sociais. As marcas funcionam como arquétipos da conquista do direito a ser visto e a fazer parte da sociedade-ostentação, sociedade até então restrita à classe média branca consumista. O rolezinho, nesse caso, é uma espécie de rito orgiástico que carrega consigo a força (socialmente mal-interpretada) do anti-herói. 
É cômico observar as críticas generalizadas por parte da classe média consumista ao consumo da população mais pobre. Apesar de contraditório, isso não é nenhuma novidade. Quando os jovens negros da periferia decidem reivindicar o shopping como espaço de direito de todos e não de privilégio de poucos, numa espécie de transe coletivo, a classe média branca reage porque sempre atuou consciente ou inconscientemente pela lógica da distinção, como já demonstrou o sociólogo Pierre Bourdieu. Para uma parcela da população brasileira, soa irritante ver os meninos do funk desfilando num Citroën, carregado de mulheres e “plaques de 100”, como nos clipes musicais do Mc Guimê. Até então, algo indiscutivelmente restrito ao universo vip dos camarotes da elite. 
A ocupação dos shopping representa, portanto, uma forma de participação mágica no estranho, no universo urbano, seguro e familiar do branco. Essa participação é vista como invasão de espaço pela população preconceituosa. E é também por isso que uma prática aparentemente trivial transformou-se numa manifestação política ao revelar um Brasil segregacionista, que tem dificuldades de dividir espaço com quem é diferente. Quem poderia imaginar que um rolezinho no shopping pudesse revelar nossas próprias contradições? Quem desconfiava que o ato de consumir pudesse nos dizer algo sobre uma possível contestação à própria sociedade do consumo? Eis a força do feitiço da mercadoria que se volta contra ela própria. Estaria o capitalismo sendo derrotado pelo próprio imaginário que tentou engendrar?
[1] Professor de Sociologia do IFSul Câmpus Bagé. Graduado em Ciências Sociais pela UFRGS e Mestre em Educação pela UFPel. 
Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Docente do Centro de Educação da Ufal.

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  1. Unknown
    fevereiro 08, 04:31 Unknown

    Uma análise bem real sobre o significado e a que veio os 'rolezinhos' nos shoppings! Adorei!

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  2. Isabelle
    fevereiro 26, 00:55 Isabelle

    Sou professora do ensino médio estadual do Rio e gostaria de elogiar o blog! Me ajuda bastante na preparação das aulas. Um abraço.

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