Em meio aos gritos “Ditadura Já”, surge a seguinte questão: afinal, o que é ditadura?

Em meio aos gritos “Ditadura Já”, surge a seguinte questão: afinal, o que são ditaduras?

 

Por Cristiano das Neves Bodart
 

Afinal, o que são ditaduras? Muitos gritam “ditadura já!” sem ao menos saber do que se trata e quais aspectos envolvem esse conceito tão recorrente nos dias atuais.

O político e historiador inglês Lord Acton dizia que “o poder tende a corromper e o poder absoluto tende a corromper absolutamente”. Nesse sentido, ditaduras são sempre maléficas, sejam elas de direita ou de esquerda.
Ainda que o termo “ditadura” seja uma expressão bastante ampla, alguns aspectos comuns são visíveis em um regime ditatorial. A ditadura caracteriza-se, dentre outros aspectos, pelo comando político arbitrário, estando o líder, ou o grupo que está no poder, acima de qualquer direito jurídico (sobretudo constitucional*) que possa existir, ainda que se procure mascarar sua natureza totalitária com uma fachada de nobreza e justiça, apresentando-se, quase sempre, como “salvador(es) da pátria”. Na ditadura não há respeito a divisão dos poderes (Legislativo, Judiciário e Executivo), sendo marcadas pela coerção sobre os meios de comunicação e partidos políticos, quando esses não são extintos. Outra característica comum são as violações dos Direitos Humanos.
A partir de colaborações weberianas conceituais e categorizadoras, podemos destacar, basicamente, três tipos de ditadores (líderes). Seriam ele: carismático; tradicional e; racional.
O ditador carismático busca sua legitimação a partir de atributos pessoais, tais como Maduro e Chaves. Esses buscam se aproximar do povo como seus legítimos representantes, quase sempre, implantando um governo supostamente nacionalista e voltado à sociedade que mais carece de apoio do Estado. O ditador tradicional tem sua legitimação pautada na tradição, comum nas ditaduras monarquistas e/ou hereditárias. Nessas, a preocupação com a imagem é reduzida, uma vez que a tradição é aclamada como legitimadora da concentração de poder. Já o ditador racional busca sua legitimação no argumento utilitarista, afirmando que sua ditadura é importante para o desenvolvimento, a segurança ou outro desejo socialmente instituídos no seio do povo. Um exemplo de ditadura racional foi a ditadura militar brasileira, a qual se teve como útil no combate ao avanço da esquerda e na preservação dos bons costumes e da moral.
As ditaduras podem, ainda, ser classificadas como “ditaduras revolucionárias” e “ditaduras conservadoras”. Por ditadura revolucionária entende-se aquela que busca substituir a ordem vigente por um novo modelo. Já a ditadura conservadora tem por característica manter a ordem estabelecida. Essa definição é um tanto problemática, pois à longo prazo todas as duas acabam buscando a manutenção de um ordem estabelecida. O exemplo de Cuba é bastante esclarecedor. Quando se deu a tomada do poder pela esquerda cubana, presenciou-se uma alteração da ordem até então vigente. Estabelecida uma nova ordem, a ditadura cubada passou a buscar a manutenção dessa ordem estabelecida, podendo ser, agora, considerada conservadora.
Outra classificação recorrente usada é a distinção entre ditadura militar e ditadura civil. Enquanto a primeira caracteriza-se pela presença de militares no poder, na segunda o ditador é um civil. No Brasil, presenciamos os dois tipos, sendo exemplo de ditadura civil o primeiro mandato do governo de Getúlio Vargas e, como exemplo de ditadura militar tivemos os sucessivos governos do período de 1964 a 1985. Em todos, sobrou desrespeitos aos Direitos Humanos, a liberdade de expressão e a manipulação ideológica.
Ainda que diferentes, todas essas tipologias de ditaduras possuem em comum a concentração do poder e seu uso indiscriminado e arbitrário (muitas vezes violento) na busca por sua manutenção. É importante destacar que nem sempre uma ditadura tem sua origem em um golpe de Estado, como ocorreu em 1964 no Brasil. O que caracteriza uma ditadura não é a forma de implantação do governo, mas a maneira como este se estabelece e se mantém no poder.
Talvez a maneira mais objetiva e fácil de compreender o que são ditaduras é partindo da seguinte premissa: Ditadura é marcada pela contrariedade aos preceitos democráticos. Desta forma, estaríamos partindo de uma realidade conhecida e próxima em direção a um conceito não tão próximo e vivenciado hoje no Brasil, ainda que nossos ouvidos estejam sempre a mercê de gritos de frases prontas, como “Ditadura já”. Frente aos “gritadores”, somos forçados a plagiar a frase: “perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Não sabem nem que se assim se sucedesse, não poderiam mais gritar.

*Uma exceção foi a Ditadura Constitucional Romana – “Dictator est qui dictat” (ocorrida por volta de 500 a.C). Como citar esse texto:

BODART, Cristiano das Neves. Em meio aos gritos “Ditadura Já”, surge a seguinte questão: afinal, o que são ditaduras? Blog Café com Sociologia. 2015. Disponível em: Link aqui . Acessado em: dia mês ano.

Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

1 Comment Deixe um comentário

  1. Realidade é foco. Pessoas que dizem: Diretas já! Estão refletindo a história vivida pelo país naquele tempo ou são cegados por alguma força alienadora?
    Deve-se entender cada contexto, pois a sociedade é a protagonista nesses entornos sociais e necessita de melhorias e não enganos tolos.

Deixe uma resposta

Categorias

História do Café com Sociologia

O Site foi criado por Cristiano Bodart em 27 de fevereiro de 2009. Inicialmente, funcionava como um espaço virtual destinado ao armazenamento e compartilhamento de materiais utilizados em suas aulas, quando lecionava na rede pública de ensino do Estado do Espírito Santo. Em 2012, Roniel Sampaio Silva, por ocasião de seu ingresso no Instituto Federal, passou a integrar a administração do blog. Desde então, o projeto é desenvolvido e mantido em parceria pelos dois pesquisadores.

Ao longo de sua trajetória, o blog consolidou-se como uma das principais referências nacionais na área de ensino de Sociologia, sendo amplamente consultado por professores, estudantes, pesquisadores e leitores de diferentes áreas do conhecimento. O portal reúne uma extensa coleção de materiais didáticos, incluindo artigos, planos de aula, avaliações, dinâmicas pedagógicas, podcasts, vídeos, indicações de filmes e diversos outros recursos voltados à educação.

Em 2019, o blog ultrapassou a marca de 9 milhões de acessos, evidenciando seu alcance e relevância no cenário educacional brasileiro.

O trabalho desenvolvido pelo blog foi reconhecido nacionalmente, tendo sido premiado na 7ª edição do Prêmio Professores do Brasil. Atualmente, o projeto reúne centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e mantém uma comunidade de leitores que acompanha regularmente suas publicações.

Seguimos comprometidos com a missão de produzir e divulgar conteúdos de qualidade, contribuindo para tornar os conhecimentos das Ciências Sociais cada vez mais acessíveis, relevantes e úteis para a formação crítica de estudantes, educadores e da sociedade em geral.

Direitos autorais

Atribuição-SemDerivações
CC BY-ND
Você pode reproduzir nossos textos de forma não-comercial desde que sejam citados os créditos.
® Café com Sociologia é nossa marca registrada no INPI. Não utilize sem autorização dos editores.

Unknown
Post Anterior

O que são grupos sociais primários e grupos secundários?

valores
Próximo post

Valores: Enquanto uns têm preços, outros têm valor

Últimos posts de Conceitos Sociológicos

Ir para oTopo

Não Perca