
Por muito tempo, a criança foi estudada pelas ciências sociais principalmente como um “vir a ser”: um adulto em construção, cujo comportamento importava sobretudo pelo que revelava sobre o processo de amadurecimento futuro. A infância, nessa perspectiva, era uma etapa de passagem, não um objeto de estudo com valor próprio. Foi contra essa visão que se consolidou, a partir das décadas de 1980 e 1990, um campo que propôs uma virada radical: tratar a criança como sujeito social pleno, capaz de produzir cultura e significado no presente, não apenas no futuro. Esse campo é a sociologia da infância.
A proposta pode parecer óbvia hoje, mas representou uma ruptura importante com a tradição sociológica anterior, que via a criança principalmente como objeto passivo de socialização, alguém que recebe normas e valores do mundo adulto sem contribuir ativamente para a cultura que o cerca.
Este texto explica a origem do campo, seus principais autores e conceitos, a diferença entre infância e criança, o conceito de culturas infantis, a situação da sociologia da infância no Brasil, exemplos de pesquisa e orientações para o uso do tema em trabalhos acadêmicos e concursos.
Este guia foi organizado para professores, pedagogos, licenciandos, pesquisadores e candidatos a concursos que trabalham com educação infantil e precisam de uma explicação completa sobre esse campo teórico em expansão.
O que é a sociologia da infância?
Sociologia da infância é o campo de estudos que investiga a infância como categoria social, e a criança como ator social e produtora de cultura própria, e não apenas como receptora passiva de normas transmitidas por adultos. O campo surge como crítica à sociologia clássica da socialização, que tendia a estudar a criança apenas em função de seu processo de tornar-se adulto.
Para esse campo, a infância não é apenas uma fase biológica universal, mas também uma construção social e histórica, que varia conforme a época, a cultura e a classe social. A forma como se entende “o que é ser criança” mudou significativamente ao longo da história e continua variando entre diferentes sociedades contemporâneas.
Essa mudança de perspectiva tem consequências metodológicas concretas. Pesquisar “sobre” crianças, no modelo tradicional, geralmente significava entrevistar pais, professores ou especialistas que falavam em nome delas. Pesquisar “com” crianças, proposta central da sociologia da infância, significa ouvir diretamente suas vozes, observar suas interações e reconhecer sua capacidade de interpretar e comentar o próprio mundo social, ainda que com limitações próprias de cada faixa etária.
Origem e consolidação do campo
A sociologia da infância como campo teórico consolidado surge principalmente na Europa e nos países anglo-saxões a partir da década de 1980, embora reflexões anteriores, como as de Philippe Ariès sobre a história social da infância, já apontassem nessa direção desde os anos 1960. O marco costuma ser associado à publicação de obras que criticam diretamente os modelos tradicionais de socialização, propondo a criança como sujeito ativo de pesquisa, e não apenas objeto estudado por meio de adultos (pais, professores) que falam por ela.
Philippe Ariès, historiador francês, é frequentemente citado como precursor indireto do campo por sua obra História Social da Criança e da Família (1960), na qual argumenta que o “sentimento de infância”, a ideia de que crianças têm necessidades e características psicológicas distintas dos adultos, é uma construção histórica relativamente recente, que não existia da mesma forma na Europa medieval. Embora sua tese tenha recebido críticas metodológicas importantes ao longo dos anos, o argumento central, de que a infância é historicamente construída, tornou-se premissa fundamental para os desenvolvimentos posteriores do campo.
Segundo artigo publicado na revista Educação (Santa Maria), esse campo se consolidou de forma distinta em diferentes tradições nacionais: enquanto na Europa e nos países anglo-saxões a sociologia da infância se desenvolveu com forte influência da sociologia da educação e dos estudos culturais, no Brasil o campo enfrentou desafios específicos, relacionados às profundas desigualdades sociais que atravessam a experiência da infância no país.
Diferença entre infância e criança
Um ponto conceitual importante do campo é a distinção entre infância e criança. Infância é a categoria social, historicamente construída, que define um determinado período da vida com características e status específicos. Criança é o indivíduo concreto que vive essa fase em um contexto social particular.
Principais autores
William Corsaro
Sociólogo norte-americano, uma das referências centrais do campo, conhecido por pesquisas etnográficas diretamente com crianças em contextos escolares nos Estados Unidos e na Itália. Corsaro desenvolveu o conceito de “reprodução interpretativa”, segundo o qual as crianças não apenas internalizam a cultura adulta, mas a reinterpretam ativamente e criam suas próprias culturas de pares. Seu método de pesquisa, que incluía passar longos períodos observando e interagindo diretamente com grupos de crianças em creches e escolas, tornou-se referência metodológica para estudos posteriores no campo.
Manuel Sarmento
Pesquisador português com papel central na consolidação do campo na língua portuguesa, incluindo influência direta sobre a produção acadêmica brasileira. Sarmento desenvolveu extensamente o conceito de “culturas da infância”, com foco na dimensão simbólica e nas condições sociais de existência das crianças em diferentes contextos. Sua obra também discute como políticas públicas e instituições educacionais moldam, de forma nem sempre positiva, o espaço social reservado às crianças na sociedade contemporânea.
Chris Jenks
Sociólogo britânico que contribuiu com reflexões sobre como diferentes tradições do pensamento social (do romantismo ao estruturalismo) construíram concepções distintas sobre “o que é uma criança”, influenciando debates contemporâneos sobre a infância como categoria teórica. Jenks distingue, por exemplo, entre a visão da criança “dionisíaca” (naturalmente impulsiva, a ser disciplinada) e a criança “apolínea” (naturalmente boa, a ser protegida da corrupção do mundo adulto), mostrando como essas imagens culturais moldam políticas educacionais até hoje.
Jens Qvortrup
Sociólogo dinamarquês que ajudou a consolidar a infância como categoria estrutural permanente da sociedade, argumentando que, independentemente de gerações específicas, “a infância” sempre existe como parte da estrutura social, o que justifica seu estudo sistemático como categoria própria, e não apenas como fase transitória de indivíduos. Qvortrup foi também um dos fundadores da rede internacional de pesquisa que consolidou a sociologia da infância como campo acadêmico organizado a partir da década de 1990.
O conceito de culturas infantis
Um dos conceitos centrais do campo é o de culturas infantis (ou culturas da infância): o conjunto de práticas, símbolos, brincadeiras e formas de organização social que as próprias crianças criam e compartilham entre pares, muitas vezes com pouca ou nenhuma intervenção direta de adultos.
Segundo artigo publicado na revista Educação (Santa Maria), o conceito de culturas infantis se apoia principalmente na obra de Corsaro e Sarmento e enfatiza a criança como produtora ativa de significados, e não apenas como receptora de socialização. Brincadeiras tradicionais transmitidas entre crianças sem intervenção adulta direta, gírias e códigos próprios de grupos infantis, e rituais criados espontaneamente em ambientes escolares são exemplos de manifestações dessas culturas infantis.
A sociologia da infância no Brasil
No Brasil, a sociologia da infância se desenvolveu de forma mais tardia que na Europa, ganhando força principalmente a partir dos anos 2000, muito associada à área de educação e à pesquisadora Anete Abramowicz, uma das principais referências nacionais do campo. Segundo artigo publicado na revista Psicologia & Sociedade, o campo no Brasil enfrenta o desafio adicional de incorporar categorias como raça, gênero e classe social de forma mais central do que a tradição europeia, dado o peso dessas desigualdades na experiência concreta da infância brasileira.
Essa especificidade brasileira é importante: no país, a infância de uma criança em situação de vulnerabilidade social é radicalmente distinta da infância de uma criança de classe média alta, o que exige que a sociologia da infância brasileira dialogue constantemente com debates sobre desigualdade social, racismo e políticas públicas.
Sociologia da infância e o Estatuto da Criança e do Adolescente
Do ponto de vista legal, o Brasil deu um passo importante em direção aos princípios da sociologia da infância com a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei nº 8.069/1990, que reconhece formalmente crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, e não apenas como objetos de proteção e tutela dos adultos. Essa mudança de paradigma jurídico, conhecida como doutrina da proteção integral, dialoga diretamente com o núcleo teórico da sociologia da infância, embora tenham surgido de tradições distintas, o direito e a sociologia, respectivamente.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, e o próprio ECA estabelecem que crianças e adolescentes têm prioridade absoluta na proteção de seus direitos, um princípio que reforça, no plano jurídico brasileiro, a ideia de que a infância merece atenção e reconhecimento próprios, e não apenas como preparação para a vida adulta.
Exemplos de temas de pesquisa
A produtividade do campo se revela nos diferentes temas concretos que pesquisadores da sociologia da infância têm investigado nas últimas décadas, sempre partindo do princípio de que a criança tem algo próprio a dizer sobre sua experiência.
Brincadeiras e rituais infantis
Pesquisas etnográficas em escolas e creches investigam como crianças criam e transmitem entre si regras de brincadeiras, sem que essas regras estejam escritas ou sejam ensinadas formalmente por adultos.
Participação política e cidadã de crianças
Estudos analisam como crianças exercem formas próprias de participação social e política, por exemplo em conselhos escolares ou movimentos ambientais, questionando a ideia de que cidadania plena começa apenas na vida adulta.
Infância e desigualdade social
Pesquisas comparam como diferentes condições socioeconômicas moldam experiências radicalmente distintas de infância dentro de um mesmo país ou cidade, incluindo acesso a brincar, saúde e educação de qualidade.
Bebês como sujeitos de pesquisa
Um desenvolvimento mais recente do campo busca incluir também bebês, e não apenas crianças já verbais, como sujeitos legítimos de pesquisa sociológica, desafio metodológico discutido em estudos sobre como investigar sujeitos que ainda não falam.
Crianças, consumo e mídia
Um dos temas mais discutidos na interseção entre sociologia da infância e sociologia do consumo é o impacto da publicidade dirigida ao público infantil. O documentário “Criança, a Alma do Negócio”, frequentemente indicado para uso em sala de aula, discute exatamente como estratégias de marketing exploram a vulnerabilidade de crianças diante de apelos consumistas, tema que dialoga diretamente com a sociedade de consumo como um todo.
A influência da televisão e de outras mídias sobre crianças também é tema recorrente, especialmente diante da expansão de plataformas de vídeo voltadas diretamente para o público infantil, o que renovou debates sobre regulação da publicidade infantil e alfabetização midiática desde cedo.
Críticas e desafios do campo
Risco de romantizar a agência infantil
Uma crítica recorrente é que, ao enfatizar a criança como ator social pleno, o campo corre o risco de subestimar assimetrias reais de poder entre adultos e crianças, romantizando uma autonomia que, na prática, ainda é limitada por dependência econômica, jurídica e afetiva em relação a adultos responsáveis.
Desafios metodológicos
Pesquisar diretamente com crianças, especialmente as mais novas, levanta desafios éticos e metodológicos específicos: como garantir consentimento informado, como interpretar comunicação não verbal e como evitar que a presença do pesquisador adulto distorça o comportamento observado.
Tensão entre universalismo e particularismo
Encontrar equilíbrio entre reconhecer a infância como categoria estrutural universal (como propõe Qvortrup) e reconhecer a enorme diversidade de experiências concretas de infância ao redor do mundo continua sendo um desafio teórico não plenamente resolvido dentro do campo.
Vídeo sobre o tema
Para complementar a leitura, este documentário, indicado por educadores para debate em sala de aula, discute diretamente a relação entre infância, consumo e publicidade:

Como usar o tema em trabalhos e concursos
Sociologia da infância é tema relevante em concursos para licenciatura em Pedagogia, provas para professores de educação infantil e trabalhos acadêmicos sobre políticas educacionais. Algumas orientações ajudam no uso correto:
- Cite os autores corretamente: Corsaro para reprodução interpretativa, Sarmento para culturas da infância, Qvortrup para infância como categoria estrutural.
- Diferencie infância de criança: mostrar domínio dessa distinção conceitual é frequentemente valorizado em avaliações acadêmicas.
- Conecte com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC): a BNCC para educação infantil incorpora, ainda que de forma indireta, princípios da sociologia da infância, como o reconhecimento da criança como sujeito de direitos e produtora de cultura.
- Evite romantizar a infância: reconhecer também as desigualdades sociais que atravessam diferentes experiências de infância fortalece a análise.
Perguntas frequentes sobre a sociologia da infância
Qual a diferença entre sociologia da infância e psicologia do desenvolvimento?
A psicologia do desenvolvimento estuda principalmente processos cognitivos e emocionais internos da criança ao longo do amadurecimento. A sociologia da infância foca na dimensão social e cultural, tratando a criança como ator social inserido em relações de poder, cultura e estrutura social específicas.
Quem são os principais autores da sociologia da infância?
William Corsaro, Manuel Sarmento, Chris Jenks e Jens Qvortrup são referências internacionais centrais. No Brasil, destaca-se a pesquisadora Anete Abramowicz.
O que são culturas infantis?
São o conjunto de práticas, símbolos, brincadeiras e formas de organização social criadas e compartilhadas pelas próprias crianças entre pares, muitas vezes com pouca intervenção direta de adultos.
A sociologia da infância é reconhecida como disciplina no Brasil?
É considerada um campo em consolidação, presente principalmente em programas de pós-graduação em Educação e Ciências Sociais, ainda sem a mesma tradição institucional consolidada de países europeus, mas em crescimento acelerado nas últimas duas décadas.
Como a sociologia da infância vê a relação entre criança e consumo?
O campo analisa criticamente como estratégias de publicidade exploram a vulnerabilidade cognitiva das crianças, ao mesmo tempo em que reconhece as crianças como consumidoras ativas, capazes de ressignificar produtos e marcas dentro de suas próprias culturas de pares.
Qual a relação entre sociologia da infância e o ECA?
Embora tenham surgido de tradições distintas, direito e sociologia, ambos convergem no reconhecimento da criança como sujeito de direitos e não apenas como objeto de proteção e tutela adulta, princípio central tanto da doutrina da proteção integral do ECA quanto da perspectiva teórica da sociologia da infância.
É possível fazer pesquisa sociológica com bebês?
Sim, embora com desafios metodológicos específicos. Pesquisadores têm desenvolvido métodos observacionais e etnográficos adaptados para investigar bebês como sujeitos sociais, mesmo antes do desenvolvimento da linguagem verbal, um subcampo em expansão dentro da sociologia da infância contemporânea.
Considerações finais
A sociologia da infância propõe uma mudança de perspectiva com implicações práticas importantes: se a criança é reconhecida como ator social pleno, e não apenas como um adulto em formação, políticas públicas, práticas pedagógicas e até metodologias de pesquisa precisam ser repensadas para de fato incluir a voz e a experiência das crianças, em vez de apenas falar por elas.
No contexto brasileiro, marcado por desigualdades profundas, esse campo ganha ainda mais relevância ao evidenciar que “a infância” no singular esconde uma multiplicidade de infâncias concretas, vividas de formas muito diferentes conforme classe social, raça, região e contexto familiar. Para professores e pesquisadores, incorporar essa perspectiva significa reconhecer a criança como interlocutora legítima, e não apenas como objeto de cuidado e formação.
Combinar o arcabouço teórico da sociologia da infância com o arcabouço jurídico do ECA oferece uma base sólida tanto para pesquisa acadêmica quanto para prática pedagógica cotidiana: reconhecer a criança como sujeito de direitos, produtora de cultura e interlocutora capaz de contribuir ativamente para as decisões que afetam sua própria vida, dentro dos limites apropriados a cada faixa etária e sempre sob a responsabilidade protetiva dos adultos.
Para aprofundar a discussão sobre esse tema, vale explorar também os artigos sobre processo de socialização e o que é pedagogia, disponíveis no Café com Sociologia.


