Qual a importância do nordeste? De onde vem a ideia que que a região representa atraso para o Brasil? O que diz a história sobre isso? Tem fundamento as ideias xenófobas sobre os nordestinos?
Por Roniel Sampaio Silva
A cada novo ciclo eleitoral, observa-se um aumento da intolerância e do preconceito direcionado ao Nordeste brasileiro. Muitas dessas manifestações decorrem da falta de conhecimento histórico e da reprodução de estereótipos que desconsideram a importância da região na formação econômica, política e social do Brasil. O Nordeste não apenas participou ativamente da construção do país, mas por séculos sustentou a economia nacional e segue desempenhando papel fundamental na resistência contra modelos político-econômicos excludentes.
1. O Nordeste como Polo de Resistência e as Acusações de Xenofobia
Nas últimas eleições, o Nordeste se consolidou como uma das principais frentes de oposição ao conservadorismo que dominou o Executivo Federal. Isso gerou uma série de reações xenófobas e racistas, nas quais setores politicamente derrotados culpabilizaram a região por sua posição ideológica. Essa narrativa ignora a história política do Brasil e a complexidade dos processos eleitorais. O Nordeste é composto por uma diversidade econômica e social, e sua posição política tem raiz histórica, vinculada a processos de exclusão, resistência e lutas sociais.
A xenofobia contra o Nordeste é alimentada por três fatores principais:
- Construção de estereótipos pela mídia: A grande imprensa historicamente apresentou a região como um espaço de atraso e dependência, em vez de destacar suas contribuições estruturais para o país.
- Leitura reducionista de dados: Mapas eleitorais simplificados induzem à crença de uma polarização absoluta entre regiões, ignorando a complexidade interna dos estados.
- Desconhecimento sobre a história econômica: Muitos desconhecem os ciclos econômicos que estruturaram o Brasil, financiados, em grande parte, pelo próprio Nordeste.
2. Importância do nordeste e os Ciclos Econômicos Brasileiros
O Brasil é um país de dimensões continentais, e sua economia sempre funcionou de maneira interdependente entre regiões. A tese de Celso Furtado sobre a formação econômica do Brasil é essencial para compreender esse processo. Segundo ele, os ciclos econômicos sempre estiveram interligados, com cada um financiando o próximo.
O ciclo da cana-de-açúcar no Nordeste foi o primeiro grande eixo da economia colonial brasileira, sustentando o país por mais de três séculos. Os recursos gerados financiaram a exploração do ouro em Minas Gerais, que, por sua vez, subsidiou o ciclo do café no Sudeste. Este último contou com pesados investimentos estatais na industrialização da região Sudeste durante a era Vargas, tornando-se o centro econômico do Brasil moderno.
Entretanto, esse processo não foi espontâneo. Como Furtado demonstra, houve um deslocamento estrutural dos investimentos para a região Sudeste, deixando o Nordeste em um processo de estagnação relativa. A concentração industrial no Sudeste aprofundou as desigualdades regionais e reduziu as oportunidades econômicas para o Nordeste, que passou a ser visto de forma deturpada como um entrave ao desenvolvimento do país.
3. A Industrialização e a Disparidade Regional
Ainda que o Nordeste tenha iniciado seu processo de industrialização no século XIX, as políticas econômicas adotadas pelo governo favoreceram a industrialização no Sudeste. O Censo de 1920 apontava que o Nordeste tinha uma participação expressiva na indústria têxtil, mas a partir da década de 1940, São Paulo se consolidou como centro industrial do país, recebendo a maior parte dos investimentos e incentivos estatais.
De acordo com Celso Furtado, entre 1948 e 1955, a participação do Nordeste na indústria nacional caiu de 16,3% para 9,6%, enquanto São Paulo aumentou sua participação de 39,6% para 45,3%. Esse processo foi resultado direto das políticas de industrialização, que privilegiaram regiões já estruturadas, intensificando a concentração de renda e oportunidades.
A redução dos investimentos no Nordeste levou ao crescimento do setor de subsistência, à precarização das relações de trabalho e à migração em massa para os centros urbanos do Sudeste. No entanto, ao contrário da narrativa preconceituosa, o Nordeste não depende passivamente de auxílios ou subsídios, mas foi estruturalmente enfraquecido por decisões políticas que desviaram seus recursos para outros centros.
4. Importância do nordeste no Brasil Atual
O Nordeste, além de seu peso econômico, tem uma importância política crescente. A região não apenas representa um dos maiores colégios eleitorais do país, mas também exerce um papel de resistência a políticas que ampliam desigualdades. O desenvolvimento econômico recente, impulsionado por programas sociais, expansão de universidades e investimentos em infraestrutura, tem fortalecido a identidade regional e a capacidade política do Nordeste.
O crescimento econômico e social da região tem mostrado que a integração nacional depende da valorização de suas potencialidades. A xenofobia contra o Nordeste não apenas desconsidera sua história, mas enfraquece o próprio país, ao perpetuar uma visão reducionista e discriminatória que não condiz com a realidade.
Conclusão: Respeitar a História para Construir o Futuro
Cada região do Brasil tem sua importância política, econômica e social. O Nordeste, com sua longa história de contribuições ao desenvolvimento nacional, precisa ser reconhecido por seu papel central na economia e na cultura do país. A superação das desigualdades regionais depende do entendimento de que não há avanço nacional sem crescimento equitativo entre as regiões.
A história do Brasil está intrinsecamente ligada ao Nordeste. Conhecê-la é o primeiro passo para construir um país mais justo e integrado. Portanto, a importância do nordeste se dá pelo financiamento e consolidação dos ciclos econômicas brasileiros que se deu a partir do ciclo da cana de açúcar nesta região.
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