Por Gabriel Zanolla Mesquita – Graduando em Relações Internacionais pela UNIFESP
A noção de hegemonia ocupa lugar central na tradição do pensamento gramsciano. Em Gramsci, hegemonia consiste na capacidade de exercer dominação por meio da combinação entre coerção e consenso. Trata-se da articulação entre o poder material e a direção intelectual e moral sobre a sociedade, permitindo que determinados interesses sejam apresentados como universais. Esse consenso, contudo, não é espontâneo: ele é produzido e reproduzido por meio de instituições, práticas culturais, normas e valores que naturalizam a dominação e a legitimam socialmente.
Desde o fim da Guerra Fria, a liderança norte-americana combinou, de maneira singular, a maior capacidade militar já registrada na história com uma profunda capacidade de moldar o plano internacional. A difusão do ideário liberal-democrático, a centralidade das instituições multilaterais e a promoção de uma economia global aberta permitiram que os interesses estratégicos dos Estados Unidos fossem frequentemente percebidos como coincidentes com os interesses gerais da comunidade internacional. Assim, consenso e coerção operaram de forma complementar, sustentando a chamada Ordem Internacional Liberal.
Nos últimos anos, contudo, observa-se uma erosão da liderança norte-americana. No plano doméstico, a intensificação da polarização política e o enfraquecimento das instituições democráticas corroeram a imagem dos Estados Unidos como modelo político. No plano internacional, os custos da globalização, o fracasso da plena integração econômica com o Oriente e o desgaste das guerras prolongadas minaram a aceitação da hegemonia norte-americana. Nesse contexto, a liderança baseada no consenso cede espaço à crescente dependência da coerção como mecanismo central de sustentação da ordem internacional.
Durante o primeiro governo Trump, já se tornaram visíveis sinais claros desse deslocamento. A adoção de uma política externa isolacionista e o ceticismo em relação às instituições multilaterais sinalizaram os rumos da crise da Ordem Internacional Liberal. No segundo governo Trump, essa tendência se aprofunda. A política externa norte-americana passa a se apoiar de forma predominante na força militar e na coerção econômica para alcançar seus objetivos estratégicos. Episódios como a guerra de doze dias com o Irã em 2025 e a invasão da Venezuela em 2026 exemplificam uma estratégia que privilegia o uso direto do poder militar, em detrimento da preservação da legitimidade internacional. Tal postura acentua a crise de liderança dos Estados Unidos e amplia o distanciamento entre poder material e hegemonia propriamente dita, indicando a substituição progressiva da liderança hegemônica por práticas de dominação direta.
É nesse ponto que a análise de Robert Keohane e Joseph Nye se torna particularmente elucidativa. Ao examinarem a política externa norte-americana recente, os autores destacam que o governo Trump buscou simultaneamente impor os Estados Unidos ao mundo e se afastar dele. A imposição de tarifas, a retirada de acordos globais e as ameaças a aliados ilustram o uso intensivo do poder coercitivo. Contudo, a força da ordem internacional construída pelos Estados Unidos desde 1945 sempre esteve amparada pela capacidade de atrair, influenciar e liderar por meio de valores, normas e instituições, ou seja, pelo poder de persuasão.
Ao minar sua credibilidade, enfraquecer instituições multilaterais e atacar os fundamentos da interdependência internacional, os Estados Unidos corroem a base consensual de sua hegemonia. Sob uma lente gramsciana, esse processo representa a fragmentação do bloco histórico liberal que sustentou a liderança norte-americana no pós-Guerra Fria. A hegemonia, privada de seu componente intelectual e moral, abre espaço para a contestação da ordem vigente e de suas pretensões, bem como para o surgimento de narrativas alternativas de liderança global.
Esse cenário contribui para a consolidação de um sistema internacional cada vez mais multipolar e instável. Embora nenhuma potência tenha conseguido articular, até o momento, um projeto hegemônico de escala global capaz, a perda do poder de cooptação norte-americano amplia o espaço para disputas normativas e estratégicas. A hegemonia norte-americana, antes sustentada por ampla aceitação, passa a ser contestada por rivais e até mesmo por antigos aliados, evidenciando que a hegemonia sem consenso tende a se converter em dominação instável, acelerando a fragmentação da ordem internacional.
Referências:
GRAMSCI, Antonio. Caderno 11 (1932–1933): Introdução ao estudo da filosofia (Filosofia da práxis). In: GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. v. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S., Jr. The End of the Long American Century: Trump and the Sources of U.S. Power. Foreign Affairs, v. 104, n. 4, July/August 2025. Publicado em 2 jun. 2025.


