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O que é Nacionalismo?

Nacionalismo

O que é Nacionalismo?

Por Marianne da Silva Rocha (1)

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Marianne da Silva Rocha
Marianne da Silva Rocha é cientista social, mestra e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ)

Notas introdutórias

O filme alemão A Onda é um drama produzido por Dennis Gansel, cuja provocação principal poderia ser resumida em uma pergunta: “qual a possibilidade de vermos uma nova onda fascista?” O fascismo é uma palavra que guarda muitos sentidos, mas a origem de sua problematização são os limites do nacionalismo. Por isso, conversaremos sobre esse tema a seguir.

Contextualizando

Líderes de apelo abertamente nacionalista estão povoando o imaginário social e as coberturas de mídia da política nacional e internacional. Em uma entrevista recente, o atual presidente brasileiro, Jair Messias Bolsonaro, declarou que uma das maiores vitórias de sua gestão é o reavivamento do patriotismo. Segundo ele, hoje vemos bandeiras do Brasil erguidas onde não havia.

Outro exemplo é a penúltima campanha de Donald Trump nos Estados Unidos, cujo lema era “Make America Great Again” (Fazer a América grande novamente). Com um discurso abertamente anti-imigração, o ex-presidente estadunidense apelava com muita frequência à uma suposta excepcionalidade da sua população. Na sua tentativa de reeleição não faltava a supervalorização do poderio bélico-militar do país, onde os elementos de defesa nacional saltavam aos olhos em suas redes sociais. Esses são apenas dois exemplos. Contemporaneamente há muitos outros distribuídos pelo globo e, em especial, citamos o Brexit, que ocasionou a saída do Reino Unido da União Europeia, com os ingleses aclamando querer “seu país de volta” em relação à política tolerante à imigração adotada.

Os chefes do Executivo, sem dúvida, representam uma parcela da população de seus países e a mídia com alguma frequência mistura os termos dos próprios candidatos, ora aparecendo patriotismo, ora aparecendo nacionalismo. Mas o que é o patriotismo? Tem a ver com nacionalismo ou são coisas diferentes? Qual a real importância desse tipo de sentimento? É um sentimento ou é uma identidade?

Vamos responder essas perguntas, mas para que o fenômeno seja melhor compreendido é necessário entender que elementos de conexão entre pessoas de coletividades grandes ou pequenas são comuns na história da humanidade. Esse sentimento de pertencimento e valorização de uma origem não é exatamente novo. Segundo o dicionário Michaelis online (2022), o patriota – cujo termo deriva das palavras gregas páter (significando pai) e patris (terra natal) – seria “uma pessoa que ama a sua pátria e procura servi-la”. Já o nacionalismo, do latim natus (filho), tem um histórico de uso mais recente, datado do século XVII, embora com semântica semelhante.

O tema parece não apenas estar na moda, como também ser relevante para a compreensão da política dos dias atuais.

Conceituando nacionalismo

Comumente esta temática está associada aos Estados modernos europeus e seus descendentes nas Américas. O senso comum diz que um Estado, isto é, unidade territorial, uma língua e um povo são as características fundamentais de uma nação e a produção de elementos de conexão entre as pessoas emanariam desta fórmula. Não à toa a evocação dos exércitos (força que defende o território nacional) e o apelo religioso têm ganhado destaque nos discursos de hoje. Mas não é bem assim que as coisas funcionam, ou pelo menos nem sempre foi assim. A primeira distinção a ser feita é entre nação e nacionalismo. Enquanto este primeiro é obra do gênio humano, de uma engenharia política de organização do poder dotada de legitimidade, o segundo aparece como uma comunidade imaginada, uma disposição e identificação coletiva. A segunda distinção é que nem sempre nação e nacionalismo andaram lado a lado.

Para nos ajudar, podemos usar dois autores especialistas no tema: Benedict Anderson e Eric Hobsbawm. Anderson, em Comunidade Imaginada (2008), dá um enfoque específico à transformação cultural gerada pela difusão da imprensa (chamado de capitalismo tipográfico) e da língua escrita, especialmente através dos romances. Para ele, esse gênero literário foi capaz de gerar elementos de solidariedade nas pessoas a partir das narrativas em que os anseios, desejos e problemas de pessoas de classes sociais distintas são narrados para pessoas que vivem realidades super segregadas. Já para Hobsbawm, em Nações e Nacionalismo desde 1780 (1990), o capitalismo também exerce um lugar de excelência no desenvolvimento do nacionalismo. Mesmo admitindo que existiram diversos movimentos nacionalistas que não principiaram o nascimento de nações, para ele, ainda assim, não faz sentido pensar nacionalismo sem uma nação (porque não existem elementos concretos de distinção entre identidades coletivas em termos qualitativos). A cola entre uma coisa e outra foi o desenvolvimento da competição internacional entre monarquias gerada pelo capitalismo.

Aspecto que podemos sintetizar de ambos é que pela primeira vez na história a língua e os modos de uma elite social estabelecida no tempo tornou-se a língua e a cultura geral de um povo. A partir do modelo de Estado francês, com sua educação pública, uma língua foi eleita como a de todos os nacionais e a educação do povo nesses termos favorecia a organização do trabalho no modelo nascente capitalista e seu mar de trabalhadores.

Politicamente, Hobsbawm separa dois momentos importantes para o desenvolvimento dos nacionalismos das nações: o da doutrina do ponto crítico e a da autodeterminação dos povos. “A nação deveria ter o tamanho suficiente para formar uma unidade viável de desenvolvimento” (HOBSBAWM, 1990, p. 42). Assim, o princípio da nacionalidade deveria ser aplicado a um número de pessoas específicas capazes de “encher” um território e de manter uma economia autossustentável. Outro ponto relevante é que as nações faziam parte de uma etapa do desenvolvimento humano; a evolução social humana era entendida como um dado observável estabelecido em uma escala de unidades sociais que iam da família até o nível global. Assim, nacionalizar-se fazia parte do critério para ascensão de outro patamar e de outra categoria de humanos. O que restava para os diferentes micro-grupos étnicos era a aspiração de serem anexados aderindo às leis do progresso como se alguns povos fossem destinados a serem nações integrais e outros não.

Isto mudou com os 14 Pontos da Paz Wilson, um discurso proferido pelo então presidente estadunidense em 1918, após o fim da Primeira Grande Guerra. Definindo o direito de autodeterminação dos povos buscando pôr fim aos conflitos, a nova concepção de que as nações tinham o direito de se organizarem politicamente através da formação de Estados tomou força e foi o pontapé para criação da Liga das Nações, posteriormente, Organização das Nações Unidas (ONU).

Formalmente, hoje, todas as nações do mundo possuem símbolos próprios, sendo eles bandeiras, hinos e línguas oficiais. Diferentes culturas usam diferentes elementos de sua história concreta e também criam mitos fundacionais como elementos catalisadores do imaginário popular, sejam eles datas, símbolos ou personagens.

O conceito de nacionalismo na atualidade cotidiana

Alguns autores preferem definir as fronteiras das diferenças entre patriotismo e nacionalismo, procurando tensionar o significado de nacionalismo, especialmente após a ascensão do nazismo na Alemanha. Dividindo opiniões, o patriotismo por vezes é tratado como um dever ser, uma prova de civilidade e cidadania, por outras, sendo chamado de nacionalismo é tratado como inimigo do desenvolvimento humano, uma muralha que se ergue contra o liberalismo e pelo diálogo comum, um obstáculo na consolidação dos direitos humanos.

Contemporaneamente, na política institucional, os termos patriotismo e nacionalismo se confundem e com bastante frequência são associados às direitas extremistas. Historicamente, patriotismo e nacionalismo são ideias associadas ao nascimento dos chamados Estados-nação do século XIX, como pudemos ver. Para além do debate sobre como determinados políticos acionam elementos nacionalistas e/ou patrióticos e a forma que tomam seus discursos, a emergência de líderes com este tipo de apelo somente faria sentido em um cenário de contrapartida, isto é, que suas palavras façam sentido para um grupo expressivo de pessoas. Portanto, falar de nacionalismo não pode se resumir ao tratamento de lideranças.

Há pelo menos algumas coincidências históricas, se assim podemos dizer, entre o hoje e o tempo descrito por Anderson e Hobsbawm. Antes falaram do nascimento do capitalismo (tipográfico ou industrial), e hoje crise no modo de produção global, atravessando uma nova forma de organização do trabalho, a chamada uberização. A massificação de novas formas de comunicação, a saber as redes sociais, notadamente o Twitter em escala global, e o Whatsapp em escala nacional, como antes foi o efeito dos romances (e também dos jornais). Um cenário de crise de identidades nacionais potencializado pelas imigrações. É interessante notar que no passado a colonização também teve seu papel na aproximação das diferenças humanas. Este último possui um impacto específico nos países europeus, porém recentemente a alimentação massiva de uma animosidade com a Venezuela tem tomado características xenofóbicas parecidas. E por fim, mas não menos importante, é o aparecimento de líderes carismáticos capitaneando tais ideias.

Como pudemos ver, é possível fazer um paralelo entre passado e presente guardadas as devidas proporções. O tema identidade coletiva é um terreno bastante difícil de lidar justamente porque estamos tratando de subjetividade e a sua natural imprevisibilidade torna as coisas mais nebulosas. Porém a sociologia e a história continuam sendo ciências que funcionam como farol para os homens e as ideias.

Referências bibliográficas

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre as origens e difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

HOBSBAWM, E. Nações e Nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

Dicas de leitura

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2017.

DETIENNE, Marcel. A identidade nacional: um enigma. São Paulo: Editora Autêntica, 2013.

Dicas de filmes

Die Welle (A Onda). Dirigido por Denis Gansel. 2008

Guerra e ódio. Dirigido por Wojciech Smarzowski. 2020.

Dica de atividade pedagógica

O modelo de Estado-nação tornou-se a unidade política mínima para o relacionamento internacional, onde o próprio trânsito das pessoas é identificado e organizado a partir de seus países de origem. Como vimos, todos os países possuem símbolos de identificação próprios e também não há necessariamente uma relação entre nação e nacionalismo. Vamos dividir a turma em grupos de 5 e cada um será responsável por pesquisar e achar movimentos separatistas ao redor do globo e identificar quais são seus argumentos.

As perguntas a serem feitas são:

1 Qual a vantagem em separar?

2 Qual elemento de ligação entre as pessoas pertencentes ao movimento separatista? Ele é baseado em história ou em mitos ou misturam os dois?

3 Qual a sua principal estratégia?

4 Qual a principal reação do país contrário à separação?

5 Quais são as diferenças que justifiquem a separação entre o grupo separatista e o grupo maior do país que os abriga?

6 Existe nacionalismo de esquerda ou de direita? Se sim, o movimento separatista que eu pesquisei pode ser enquadrado em qual espectro político?

Como citar este texto:

ROCHA, Marianne da Silva. O que é Nacionalismo. Blog Café com Sociologia. mai. 2022.

 

Nota:

(1) Cientista social, mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). E-mail: [email protected]

 

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Cristiano Bodart

Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Centro de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Pesquisador do tema "ensino de Sociologia". Autor de livros e artigos científicos.

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